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Idealistas e oportunistas


É notório o trânsito do ser humano pela dialética do bem e do mal. Gostamos do frio mas sentimos saudade do verão; apreciamos o tempo seco mas adoramos uma tarde de chuva; viajamos mas ficamos loucos para voltar para casa. Achamos que o dia é claro, mas para muitas coisas achamos que a noite e melhor. Somos originariamente honestos mas não escapamos à tentação da ilicitude.

Com isso, fazemos acordos com inimigos, traímos amigos e vivemos na incoerência, pela vida afora carrega as marcas de quem, pelo menos sob o fulcro bíblico, foi criado a partir de um pouco de barro. Muitas vezes, nas mil empreitadas da vida, tenho visto pessoas se dedicando a causas, difíceis umas, impossíveis outras, utópicas algumas, com o destemor intimorato de quem sabe o que faz, tem objetivos claros e caminhos definidos.

No entanto, a idade favorece a visão, e a vivência desenvolve a capacidade de julgamento, tenho igualmente constatado a existência de muita gente abnegada, dessas que lutam e lutam, sem medo ou esmorecimento, em nome de uma causa, sob uma bandeira, em prol de um ideal que, como todo ideal, pode custar uma vida, mas dura uma eternidade. Se é coisa que me dá prazer é ver pessoas se dedicando a causas, abraçando lutas por puro idealismo, pela vontade de ver triunfar a justiça e medrar tudo aquilo que torna o ser humano infeliz e diminuído.

Dizem que o verdadeiro idealista é aquele que constrói templos à virtude e ergue masmorras aos vícios. Filosofices à parte, me compraz ver idealistas, e de outro lado me resta execrar aquelas pessoas que se aproximam de grupos em crise ou necessidade, com fins mercantilistas, buscando seus interesses, procurando vender alguma coisa, mesmo que seja num grupo de viciados, carentes, vítimas de erros médicos ou flagelados de enchentes. E como  tem gente assim!

Há pessoas, de poucos escrúpulos, cujo objetivo é obter vitrine, é faturar, cavar dinheiro, fazer um marketing pessoal, mesmo em cima do drama dos outros, ou da esperança de quem confia em solidariedade. Ora, se alguém é profissional e precisa batalhar por sua sobrevivência, nada mais justo que vá à luta, que procure mercados e descubra nichos onde possa exercer sua atividade. O que é condenável sob todos os títulos é certo tipo de atitude, de quem se infiltra nos chamados “grupos de apoio”, onde tantos carecem de ajuda, organização ou defesa, para “obter clientes”, aparecer, ou tentar faturar economicamente em cima de desgraça de alguns.

Eu tenho amigos que dão apoio a esses grupos, dedicam-lhes algumas horas por semana, mas não admitem que lhes paguem nem a gasolina ou o almoço. Esses são ética e evangelicamente voluntários. De outro lado, constato, igualmente, atitudes odiosas, de quem se aproveita da necessidade das pessoas, para se promover, “conquistar mercado”, iludindo aqueles que imaginavam uma atitude desprendida e desinteressada.

Na vida há idealistas e oportunistas. O idealista está sempre junto, anos a fio; o oportunista, à primeira contrariedade (ou depois que ganha algum dinheiro) dá no pé... Olhe para o lado, examine seu grupo, perquira as atitudes de “membros recentes” e veja se não vai encontrar entre eles o arrivista que tem tudo, menos ideal.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 11/11/2005
Código do texto: T70335
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão