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Produção Literária Atual nos Tempos da Internet

É difícil precisar até onde a internet tem nos ajudado com a divulgação de novos autores. Com a facilidade que se tem para criar blogs, páginas pessoais de qualquer tipo e outras coisas, hoje é fácil conseguir um espaço na nova grande mídia e divulgar qualquer coisa.

Temos hoje blogs bonitos, dignos de figurar em páginas de revistas. Temos páginas, como o Recanto das Letras e outros que permitem a pessoas publicarem suas obras. Tudo isso, evidentemente, contribui para que possamos conhecer o que se produz hoje em termos de literatura.

Entretanto, há uma queda sensível de qualidade e senso crítico, seja dos escritores, seja dos seus leitores.

A internet ajudou a democratizar o acesso à cultura de alta qualidade. É possível ler aquele romance do Alexandre Dumas sem precisar desembolsar um real por isso ou mesmo conhecer a obra poética de Fernando Pessoa apenas clicando nos sites certos. Nesse mesmo ponto, é possível também baixar arquivos com esses livros, para ler enquanto se está offline. Sites como o project Gutenberg e o Ebooks Brasil permite que possamos ler muitas coisas até mesmo fora de catálogo ou em outros idiomas. Tudo isso, em tese, deveria contribuir para que as pessoas lessem mais e com melhor qualidade.

Contudo, não é bem isso que acontece.

As pessoas hoje procuram uma literatura fácil. Entregam-se a coisas como Paulo Coelho, J.K. Rowling, Stephen King e outros “mestres”, formando sítios na internet e agrupando-se em comunidades de “adoradores” dessas pessoas e de suas obras, transformando-os de escritores em celebridades. Ao mesmo tempo essas pessoas acomodam a si mesmas nesse tipo de leitura, não fazendo, porém, uma leitura mais crítica de seus autores. E na tentativa de imitá-los acabam contribuindo para o empobrecimento da própria cultura literária.

As pessoas acabam se fartando de ler os clássicos, passam a não ter mais paciência para eles. Ainda que alguns idolatrem autores como Edgar Alan Poe, Lovecraft, Anne Rice, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes, só para citar alguns exemplos. Essas mesmas pessoas, raro exceções honrosas, acabam por adotar esses autores com um certo modismo, comum a seu grupo, como o dos adolescentes “marginais” ou até mesmo de adultos e pessoas que estejam mais atentas quanto a algum gênero mais “marginal” da literatura, como a literatura de horror. Essas pessoas, na maioria dos casos quando resolvem produzir alguma coisa, acabam entrando na mesma superficialidade a que estão acometidas pelo excesso de literatura “ruim” que abraçaram.

Logicamente que não queremos que todos sejam críticos literários com anos de teoria literária debaixo do travesseiro. Mas pelo menos uma educação básica, que permita a essas pessoas pararem com suas elucubrações infantis e despertem para algo “maior”, que possa, de fato, ser chamado de literatura. Ela é arte, assim como a música e a pintura, as pessoas que querem ser artistas dessas formas estudam e se aprofundam naquilo que fazem. Por que não o mesmo com a literatura?

Só que, ao expor essas questões a essas pessoas, temos infelizmente um problema de proporções abissais, para não dizer outra coisa. Elas sempre rebatem as críticas com argumentos de “crítica construtiva” ou até mesmo de “crítica se faz com carinho e doçura”. Vamos parar com esse acesso de rasgação de seda, que isso é depreciar o trabalho de criticar um trabalho quando necessário. E colocar acima do gosto pessoal o reconhecimento frente a alguém que escreve ou produz alguma coisa melhor.

Essas mesmas pessoas, quando dadas a um certo nível de escolarização, tendem a atacar o que eles mesmos colocam como “intelectualismo”, falando mal de pessoas que gostam de dar um tom mais “culto” ao que escrevem. Curiosamente, ao analisarmos seus textos, percebemos como falta a essas pessoas algum “tato” por assim dizer e que parecem apenas “cópias” no mal sentido da coisa. Claro que o excesso de intelectualismo mancha qualquer produção artística, tornando-a difícil, para poucos escolhidos e mesmo assim, em alguns casos, não significando nada. A falta de intelectualismo, ou como eu gosto de colocar, a falta de estudo, faz com que a produção literária se torne pobre, vazia, rasa. Carece a essa produção o caráter de literatura, de fato. Carece a ela algum componente que fuja, decerto, de outras coisas que vamos por aí, escritas por pessoas de baixa idade e maturidade.

E vejo a corroboração disso em diversos locais onde jovens e adultos jogam seus medos e fantasmas acreditando estarem produzindo poesia e prosa. Pessoas que acreditam em baboseiras como ‘poesia é vida”, que escrevem coisas horrorosas e se esquecem de regras básicas da própria língua em que escrevem! Fazem textos cansativos, monótonos, cheios de melancolia, cheios de amor e de coisas que não dizem nada.

Nisso temos também o topo da cadeia, aqueles que se dizem especialistas em determinado gênero marginal. Essas pessoas, dotadas de um conhecimento limitado acerca da própria natureza da literatura julgam a si mesmas donas da verdade absoluta. Acreditam que suas teorias acerca da criação literária estão corretas e, com quando contrariadas, partem para a discussão sem fundamento. Reúnem em torno de si admiradores, que acreditam em seu estilo e em suas falácias, colocando uma pedra dentro do cadáver morto do bom senso e da coerência. Produzem textos que, se possuem uma escrita melhor que as do demais, pecam pelo excesso, pela falta de estilo e, principalmente, pela falta de algo mais profundo. Insuflam a si mesmos com convicções estúpidas, sem ter, infelizmente, motivos para tal, tratando quem não concorda com eles como “arrogante, intelectual e chato”, para não dizer outra coisa.

Isso decorre sempre naquilo que se pode chamar de literatura marginal. Aqui temos que diferenciar a literatura marginal da literatura marginalizada. A primeira diz respeito a gêneros que até fazem algum sucesso, mas nunca estarão nos grandes circuitos literários. Temos nisso boa parte da literatura de horror, de ficção cientifica, de aventura e da literatura fantástica. São romances, poemas, contos, discursos e coisas do tipo que nunca ficaram e nunca ficaram dentre as mais bem quistas, sobretudo da classe intelectualizada ou mesmo da mais baixa. Possuem um público próprio e é estudada em alguns livros de teoria literária. Temos autores como Felipe Grecco, por exemplo, que se encaixam nisso. Já o segundo gênero, o da literatura marginalizada, é aquele gênero que não cai no gosto do grande público por não ter aquilo que lhes agrade. Ler alguma coisa desse estilo é dado como algo intelectualmente impossível e, por isso, chato, complicado, cansativo. Nisso entra boa parte da literatura clássica, alguma coisa da literatura antes do Romantismo. Nisso entram pessoas como Camões, Dante, Hesíodo, Voltaire, entre outros, preferidos por uma classe que possua um grau de instrução maior e, em alguns casos, poder aquisitivo maior e melhor.

Colocando no primeiro grupo, temos então uma literatura comercial que tenta, inutilmente, se passar por literatura marginal. Hoje temos uma expansão de autores do dito “horror”, que é uma forma literária derivada do Romantismo, que se passam por autores marginais. Suas obras acabam por, infelizmente, cair num excesso de clichês conhecidos, atendendo a uma demanda de mercado para uma literatura fácil. Autores que, a despeito de suas histórias, criam ambientes favoráveis ao consumo em larga escala de suas publicações, como uma rede de “fast-foods” espalhadas ao redor do globo. Com isso, as pessoas passam a gostar de seus ídolos e, nesse ínterim, produzem obras com uma pobreza igual. Nada de errado há em gostar deles, errado está em exaltar qualidades que eles não possuem. E baseados nessas qualidades os que querem produzir literatura acabam por reproduzir o que mais de ruim esses autores jogam goela abaixo.

É necessário que as pessoas leiam mais, sintam-se mais à vontade em ler outras coisas. Que os escritores também passem a ler mais e com maior variedade. Todos os bons escritores da História foram, em um primeiro momento, bons leitores de diversas obras, sem se prenderem apenas àquilo que fez seu estilo. O que seria de Baudelaire se ele nunca tivesse lido um Edgar Alan Poe e, por conseqüência, diversos autores ingleses? O que seria de Fernando Pessoa e suas leituras, que iam do clássico Camões ao mais moderno simbolismo? E o que dizer do próprio Alan Poe, leitor de uma literatura inglesa e até mesmo francesa? Por isso precisamos aproveitar melhor a oportunidade da internet e sua democracia literária. Precisamos de bons autores, de pessoas que saibam, acima de tudo, escrever com qualidade e não com quantidade. Quem sabe assim não criamos, de fato, um “mercado” virtual para que esses autores possam ser reconhecidos como escritores de verdade?
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 24/10/2007
Código do texto: T707327

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Sobre o autor
Fabio Melo
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