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O Operário que Discursou Para o Papa - Parte 1

                                                                                 JANJÃO
O OPERÁRIO QUE DISCURSOU PARA O PAPA - PARTE 1

Em 1980, como todo bom católico, que se preze no Brasil, estávamos esperançosos com a Primeira visita de um Papa ao nosso País. Por varias razões.

Entre elas o fato de que o então Chefe supremo da igreja, criava em nós todos uma expectativa de como agiria, um homem que vinha de um País Comunista, onde o exercício da fé religiosa, sofria censura. Além disto, João Paulo 2º inaugurava, em mais de 2 mil anos de catolicismo no mundo, as viagens de evangelização e peregrinação de um Papado, que até então o pontificado, resumia-se a governar os católicos do Vaticano.

Outra enorme expectativa, em particular para nós Brasileiros, consistia em saber qual seria as posições que o Papa tomaria em relação o que estava ocorrendo no Brasil.

Vivíamos dias ainda de Ditadura, que apesar da Anistia aos presos e perseguidos políticos, ainda vivíamos, sob o jugo da censura, da Lei de Segurança Nacional, das Intervenções nos Sindicatos e do Bi-partidarismo. As torturas ainda que em menor proporção, persistiam nos porões do regime.

Mas o que mais atormentavam naqueles dias, eram a recessão e o arrocho salarial, provocados pelo tal milagre econômico da Ditadura. Esta situação fez eclodir em varias partes do País, movimentos grevistas que tiveram seu ressurgimento com a greve da Scania de São Bernardo em 1977.

Esta conjuntura de caldeirão social pronto a explodir, levava milhares a acreditar que a vinda do Papa, poderia para alguns acelerar o fim da ditadura e a reconstrução da democracia.

Os militares que viviam as turras com a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), há anos, em virtude da posição da maioria do clero católico em adotar uma linha de oposição á ditadura, denunciando sua política econômica, bem como seus crimes, procurou descaracterizar a visita, não dando a ela a importância que a mesma merecia. Inclusive boatos, de que os militares não permitiram que João Paulo desce-se em terras Brasileiras, foram veiculados.

Com todo este clima, João de Deus, como carinhosamente foi apelidado nesta visita, não só aqui chegou, como o roteiro de sua peregrinação, privilegiou as camadas pobres e excluídas da sociedade.

Ele esteve com Índios, com a comunidade Afro-Brasileira, visitou a favela do Vidigal no Rio de Janeiro e esteve no Estádio do Morumbi em São Paulo, falando com mais de 130mil operários. Era a visita mais esperada da viagem.

A Pastoral Operária, uma das faixas pastorais de maior organicidade naquele momento, escolheu para representar os trabalhadores Brasileiros, um Metalúrgico de 47 anos. Cristão Waldemar Rossi, empunhou as 4, 5 folhas do discurso preparado e subiu ao palco, improvisado no gramado de um dos maiores estádios de futebol do País.

Era 04 de Julho, dia da Independência do Estados Ùnidos, mas para os que ali estavam era o dia de clamar a Deus por intermédio do Papa por Liberdade.

Waldemar inicia seu discurso, emocionado. Eu e minha mãe, estávamos acompanhando pela televisão. Choramos junto com o Metalúrgico, quando o mesmo denunciou os horrores da Ditadura, os assassinatos dos Operários Santos dias da Silva em 1979 e de Gringo em maio daquele ano, todos por lutarem por condições melhores de vida aos trabalhadores, então explorados nas fábricas.

A denuncia fez a multidão gritar bem forte: “Liberdade, Liberdade”. O Morumbi veio abaixo. No dia seguinte toda a imprensa noticiou o fato e no final da tarde Waldemar foi demitido da empresa em que trabalhava.
dialetico
Enviado por dialetico em 25/10/2007
Código do texto: T709286
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Sobre o autor
dialetico
Limeira - São Paulo - Brasil, 55 anos
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