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Oxigenados

          As transformações sociais são mesmo impressionantes. Os modos e costumes também. Antigamente, quando ainda criança, vi alguns jovens oxigenados, ou seja, com cabelos que eram imersos em água oxigenada e passavam de negros a loiros em função disto.
          Como a história parece ser cíclica na existência humana, de novo, no auge dos meus 42 anos, me deparo com oxigenados, jovens que também exibem uma cor diferenciada dos cabelos que, originalmente negros ou castanhos, se fizeram loiros.  Os motivos é que também se diferenciaram.
          Na minha infância e adolescência, os loiros artificiais assim se tornavam porque haviam obtido sucesso no vestibular, aprovados em alguma faculdade pública ou privada. Os artificialmente loiros de hoje, em especial nas grandes capitais, assim se mostram por sua vinculação com o tráfico de drogas ou com a violência expressa nas gangues, uma espécie de código de identificação.
          Logicamente existem as exceções naturais por tingimentos motivados apenas preferencialmente, sem qualquer espécie de vinculação ideológica. No entanto, a efusão dos vestibulandos em sua magnífica vitória, e, por outro lado, a aceitação dos jovens que se envolvem com as gangues e com o tráfico, no sentido de identificar-se plenamente com o crime, mostram o quanto as realidades juvenis atuais nos despertam a atenção.
          Vestibulandos ou traficantes, estudantes ou integrantes de gangues, todos jovens, com modelos, referencias e valores diferentes. Estes e aqueles têm objetivos que desejam alcançar, sem, contudo seguir o mesmo caminho.
          O caminho do vestibulando é o dos estudos, das salas de aula, das bibliotecas, das pesquisas. O caminho do jovem criminoso e estigmatizado é o da visualização do sucesso de vida na prática criminosa, e seu vestibular é o ato de cometer o primeiro roubo e provar o seu comprometimento com os seus afins, e se necessário for, cometer o primeiro homicídio.
          Há algo em comum entre os dois, lutar para continuar vivo, apesar de todos os dias a morte se aproximar de ambos. Alguns vestibulandos fazem de tudo para não estar frente a frente com o criminoso, já o criminoso faz de tudo pra encontrar alguns vestibulandos.  Para alguns criminosos, os vestibulandos são excelentes clientes, para outros, excelentes vítimas.
          Há um caminho possível para aproximação dos oxigenados artificiais dos diferentes lados. Aqueles que buscam o seu sonho através dos estudos, se aproximarem dos oxigenados dos diferentes guetos com propostas de transformações sociais objetivas e presenciais. Distância esta reduzida por projetos efetivos e de impacto verdadeiro na melhoria das possibilidades dos desfavorecidos. Digo isto porque a favela não é o reduto dos criminosos. Gente boa e honesta vive ali, sonhando com uma, apenas uma oportunidade.
          Ah, diga-se de passagem, os oxigenados da faculdade que são “clientes” dos oxigenados da favela, são potencialmente piores, digo isto porque na prática, são eles que sustentam este ilusório caminho dos loiros armados, e mais, os "clientes" de terceiro grau deveriam saber que são tão iguais aos seus fornecedores que não tem estudos. Isto, por si só, valeria para identificar aqueles que verdadeiramente sustentam o berço do crime em nossa nação.
Fernando Alberto
Enviado por Fernando Alberto em 27/10/2007
Reeditado em 27/10/2007
Código do texto: T712020

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Sobre o autor
Fernando Alberto
Francisco Beltrão - Paraná - Brasil, 52 anos
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