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Da vida que segue à morte que se aproxima

É perda de tempo a preocupação com a felicidade. Penso que, tampouco, ela exista. Estamos, na realidade, rodeados por pessoas alegres mas, que não são felizes e cansa ouvir que “existem momentos de felicidade”. Muitas mulheres e homens sofrem de uma espécie de “doença do fogo interno” que incendeia o peito e consome as forças através da ansiedade crônica, o medo sem propósito e a angústia sem lugar. Felizmente, ou infelizmente, possuímos o que se convencionou chamar de superego o qual nos impossibilita de violentar boa parte das pessoas que não comungam dos nossos valores e princípios. Soma-se a isso, a cultura pseudojudaico-cristã, produzida por homens e mulheres hipócritas, que não abre a porta do desejo, da vida e o que Cristo chamou de “boa nova”. Vivemos na sociedade do recalque e esquecemos que somos por demais humanos e sedentos dos outros e, pior, de nós mesmos. Há muito o ser já perdeu para o ter e a aparência já ganhou a batalha contra a essência. A maioria das pessoas venera essa falsa sociedade composta por falsos atores. Creio que Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, estava certo em salientar que sempre estamos próximos em colocar a ordem em xeque. Contudo, Sigmund Freud (1865-1939), psiquiatra austríaco, não deixa de ter razão ao afirmar a necessidade humana de libertar a agressividade na busca do alívio inconsciente ou, provavelmente, da libertação dos traumas e complexos. Não é possível, em tais circunstâncias, esquecer do pouco conhecido Durkheim (1858-1917), sociólogo francês, o qual estava coberto de razão ao asseverar sobre a preponderância da consciência coletiva na manipulação e padronização de comportamentos. Somos o que não desejamos ser.
O mesmo acredito existir em Cristo: fazemos de tudo para não viver, não desejar, amar e ser amado. Estamos longe da “boa nova”, apesar do grande presente que é a vida e o “eu”. O nosso esforço não está direcionado para a descoberta da vida que, em grande parte, se assenta nos ventos da liberdade, a qual não deixa de carregar uma fina e delicada responsabilidade pelo outro. Não acredito que Jean Paul Sartre (1905-1980), escritor e filósofo francês, estivesse equivocado ao afirmar que somos livres e devemos descarregar o peso da vergonha e da irresponsabilidade de não ser. Neste caso, não é preciso ir longe para perceber o quanto fingimos, o pouco que nos arriscamos e como a maioria das pessoas se esconde atrás de máscaras para mostrar o que não são, não obstante, o desejo latente e desesperado de ser. Em geral, tal como nos ensina Plutarco, escritor grego nascido em 47 d.C. e falecido em 120 d.C., a maioria dos seres humanos se contenta com os bajuladores, apesar de nada melhor do que ficar atento à natureza predatória e vampiresca desses seres humanos. O melhor julgamento ainda continua sendo o da própria consciência.
Bom, estou fugindo do assunto e a questão é a seguinte: como ser feliz em um mundo repleto de injustiça? Essa asserção não pode ser respondida na busca, agora incessante, de “éticas" que não existem. É impossível tal indagação não produzir sentimentos de indignação aos homens e mulheres que ainda acreditam na humanidade. Todavia, é notório o cansaço do ser, a improdutividade da vontade, do desejo e da busca sem medo da essência. “Ser” é possuir a consciência da responsabilidade, o “ter”, por sua natureza, carrega o próprio fim, haja vista sua superficialidade e efemeridade. O mesmo pode-se dizer da maioria das pessoas que nos rodeiam. É possível, inclusive, perguntar: como não sentir responsabilidade pelo outro? A resposta é mais fácil do que se pensa: não se preocupe com ele, não mate a possibilidade, tampouco subestime, a capacidade do outro em buscar soluções e respostas para o próprio desespero. Deixe a pessoa “ser”. A vida é um drama, um teatro no qual a maioria das pessoas elege alguns protagonistas, outros coadjuvantes e ignora ou troca constantemente os figurantes. De um ano para o outro as agendas são trocadas e riscamos os nomes daqueles que pouco podem oferecer. O palco também se modifica, somos fantoches e manipuladores em campos nos quais evitamos o mínimo de custos e o máximo de ganhos. Pode-se argumentar que estou fazendo filosofia barata, pouco importa. A verdade e os fatos falam por si. Não somos santos e acho impossível eles existirem, a vida é um complexo de angústia, sofrimento e medo; sentimentos que assolam a alma e nos fazem sentir vivos e operantes em um campo de representações que não passa de ilusão. O que é isso? Pode perguntar o leitor: é Arthur Schopenhauer (1788-1860) o qual, no auge de sua angústia, escreveu sobre a metafísica do sofrimento.
Grosso modo, diz o filósofo alemão que viver com o sofrimento é a única forma de suportar a vida. É importante saber lidar com o seu aparecimento, maturação, desenvolvimento e morte. Também escreveu sobre a “Metafísica do Amor”, parte integrante se sua famosa obra “O mundo como vontade e representação”. Uma obra fantástica, na qual afirma que neste sentimento homens e mulheres podem encontrar motivos para a vida (Freud aproveita a idéia e a chama de pulsão de vida). Vida que sai do mar, dizia Dorival Caymmi, a vida de um amor que tudo quer, espera e procura. Às vezes amamos demais, na esperança inconsciente de odiar e vingar do outro. Essa angústia está presente na condição humana e, na verdade, não suportamos vivê-la, daí o criar constante de escravos, bajuladores, máscaras e mecanismos diversos de “jeitinhos” que sempre atormentam os homens e as mulheres que gostam de desfrutar dos bons e impessoais debates. A vida é para os fracos, a morte é para os fortes, basta perguntar para aqueles que viveram essa experiência. É justamente nesse campo que se encontra o drama. Amamos demais: as pessoas e as coisas. No entanto, tememos os moribundos, os doentes, os fracos, os velhos e a experiência da finitude. Viver diante de tudo isso, dizia Schopenhauer, é o grande desafio da humanidade. E, de acordo com ele, cumpre a nós a doce tarefa de suportar, re-significar nossa existência e continuar vivendo, sofrendo e, em alguns casos, amando. O contrário é a pulsão de morte, também presente na obra de Freud, mas antes em Schopenhauer. "Sem a idéia do suicídio já teria me matado há algum tempo", dizia Emil Michel Cioran, um filósofo romeno que faleceu no início da década de 90, o qual, ao se referir às mulheres, afirmou que: "quem se mata por uma mulherzinha vive uma experiência mais completa e profunda do que o herói que altera a ordem do mundo”. Que dilema maravilhoso: viver entre o amor desmesurado, desmedido, infinito e no sofrimento tácito, pessimista e cético. Há solução?
Cioran diz que "o pessimista deve inventar para si mesmo, a cada dia, outras razões para existir: é uma vítima do ´sentido` da vida". Esse, provavelmente, foi o caminho trilhado por Viktor E. Frankl (1905-1997) - professor e psiquiatra judeu - que sofreu horrores em um campo de concentração nazista. Ele nos fornece boas pistas em sua obra, demasiadamente assentada em Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Freud. Segundo Frankl, em tempos de desespero, homens e mulheres devem buscar e possuir um “para que”, um “por que” e um “como” viver. É no “sentido” que oferecemos ao “eu” que reside o caminho do “bem viver”, do sublime ou de um certo paraíso presente aqui e acolá no pensamento de Cristo (não do pseudocristianismo). Mais do que nunca, em tempos de “pós-modernidade” (péssimo conceito para explicar as mudanças da modernidade recente) parece que se faz necessário e obrigatório o re-significar da existência. É preciso estetizar a vida da melhor maneira possível. É forçoso apostar no próprio “estilo de vida” e não perder a singularidade e as idiossincrasias que produzimos ao longo de nossa estadia na terra. Viver, tal como as convenções sociais querem e desejam, é fácil, garante capital, relativo sucesso, notoriedade, "reconhecimento" e muitos “amigos”. Contudo, enfrentar e viver a liberdade de “ser você mesmo” é difícil. Creio que este caminho não é para muitos, tampouco para principiantes. É bem verdade que temos que ser generosos com a “condição humana”, haja vista que muitos preferem a escravidão e a nova roupagem que oferecem os cirurgiões de almas e corpos. Para andar é necessário cair. O pensamento é óbvio, e daí o charlatanismo dos livros de auto-ajuda, haja vista que não serão poucas às vezes que iremos cair, cansar, levantar, entrar em conflito, arrependimentos, remorsos, perdas e ganhos. Todavia, vale à pena não procurar a felicidade, a alegria ou o ombro já cansado do próximo. Busquemos o “eu”, o “tu” e o “nós”. Nessa busca ininterrupta e, por vezes, desvairada, possivelmente encontraremos alguém que não conhecemos e, há muito, vegeta no corpo. Podemos gostar ou odiar a sua face. Talvez seja preferível escondê-la. Mas creio que não há graça nisso, uma provável saída seria etetizá-la, encontrar no recente perfil uma nova vida, sentidos sem punição, pecado, culpa, sofrimento demasiado e recalques que, certamente, se tornarão infundados. Muitos terão medo, mas nada é insuportável. Se não há o desejo da verdade, realmente a morte é a melhor companheira diante da hipocrisia desumana da vida.
Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 03/11/2007
Reeditado em 28/09/2008
Código do texto: T721837
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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros