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DO LUTO NOSSO DE CADA DIA

Lúcio Alves de Barros***

Creio que, para a maioria das pessoas, é assustadora a idéia da finitude. Não recebemos educação para suportar e aceitar as sucessivas ondas de perdas que comportam o devir  tanto da vida individual como da social. Somos homens e mulheres incapazes de lidar com a morte. O fim das relações causa mal-estar e desespero. Um grande homem, já disse que “a vida é um conjunto de fatos inevitáveis”. A frase não deixa de ser encantadora, verdadeira, realista e confortadora. Se determinados fatos são inexoráveis à condição humana, realmente não faz sentido que nos preocupemos em demasia com eles. Todavia, é certo e necessário observar o outro lado da moeda: não são poucas, as vezes, que o “inevitável” bate em nossos corações, em nossa vida, ou em nossa porta da esperança. Desatentos, haja vista que a desgraça é sempre alheia, somos forçados a abrir os olhos e, em boa parte dos casos, é tarde demais. O tempo é o maior amigo e inimigo nas ocasiões de sofrimento. E, atenção, não estou me referindo somente às perdas que fazem parte do cotidiano. É notória, no passar da temporalidade, a perda da vitalidade corporal, da saúde, dos momentos de felicidade e acontecimentos extraordinários que não voltarão jamais.

Em tais circunstâncias, penso também nas perdas das pessoas às quais muito amamos. O amor é uma péssima companhia nesses casos. Perdemos e assistimos a despedida daqueles que podem contar a nossa vida, que garantem a memória, que viveram e ajudaram na construção de nossa história, amaram nossa alma, se confundiram com o nosso perfil, pensamentos, sofrimentos e momentos de bonança. Mais que isso, muitas foram as pessoas que forjaram o nosso caráter, nos forneceram momentos de fé, esperança, perseverança, justiça, paz e amor. Deus é injusto! É o que pensamos diante da falta. Porém, suponhamos que as coisas fossem ao contrário do que muitas vezes desejamos. Deus, nesse caso, torna-se justo. Na verdade, não queremos perder o que amamos, detestamos a falta e, se pudéssemos, guardaríamos no íntimo, bem dentro de nós, todos aqueles que nos fizeram felizes e mais humanos.

Felizmente, somos homens e mulheres sedentos de desejos e carências múltiplas, portanto, não há lugar para nutrir a onisciência, a onipresença e toda potência encontrada somente no Criador. Sinceramente, não vejo porque essa busca incessante de ser “deus” na aparência, ação, comportamento, trabalho e condução de certos seres humanos. Eles não passam de fantoches representados e representando em um teatro de ilusões no qual está muito longe a realidade da vida. A morte é o momento mais fascinante da derrota desses semideuses. Mas não cabe maior demora no caso desses coitados. O fato é que diante da perda do que amamos é possível esperar o arrasar da instituição (já em frangalhos) da família. Irmãos começam a desejar o dinheiro, o capital constante, a poupança e o acampamento na defesa, deixando a outros o cuidado com o doente ou com a pessoa que beija e namora intensamente a morte. Penso que Deus sabe que muitos não suportam a idéia da finitude, a ponto de sequer pensar nela, mas jamais deixaria os seus filhos sem a força necessária para acompanhar a passagem do tempo. Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, salientava que, “o que não me mata me fortalece”. Creio ser esse um bom dilema para a humanidade. Não pensamos na força, mas na fraqueza do caráter e na possibilidade de, em curto ou longo prazo, deixar nascer uma nova pessoa. Nobert Elias (1897-1990), filósofo e sociólogo alemão, dizia que a morte é problema dos vivos e, nesse sentido, realmente tudo é imprevisível e comporta caminhos desconhecidos e sombrios. Ao perder somos arrasados, evitados, maltratados, jogados ao canto de um hospital, torturados durante o sono, sugados na alma, a ponto dos órgãos não funcionarem tão bem. “Tiraram uma parte de mim!” Gritei quando Deus decidiu levar minha amada mãe. O curioso é que nestes momentos os amigos e as amigas desaparecem, os parentes – os que mais fingem que amam – gozam da dor alheia, nos chamam de loucos e nos forçam a reagir de uma dor que não possui explicação. É impossível explicar sentimentos latentes de dor, terror, medo e amor sem fim. Em tais sentimentos, as lágrimas são incontroláveis, o desejo de morte se intensifica a cada dia e a constante taquicardia se esforça por avisar que se faz necessária e obrigatória a defesa do eu e o equilíbrio da dor psíquica.

Todos passaremos por isso. Não existe remédio para a inexorável finitude da vida. Na sociedade ocidental convencionamos chamar esse sentimento de luto, uma forma de explicar o momento da perda, na qual não sabemos lidar, viver ou se vamos realmente suportar a falta da parte que, de uma forma ou de outra, nos foi retirada. Não existe tempo, tampouco lugar para ele na sociedade que temos construído. O sentimento de luto é a garantia do não desfalecimento do ego. Ele nos auxilia a suportar o quebrantamento, a caminhar nos trilhos da perseverança, da fé e da confiança. Trata-se de um processo, muitas vezes, demorado. O luto não faz parte da sociedade do descartável. A pessoa enlutada necessita de tempo, às vezes dois, três, ou mesmo quatro ou cinco anos. O tempo do luto não é cronológico, é lógico e perpassado por sentimentos profundos e incompreensíveis. Infelizmente, a sociedade contemporânea e as pessoas que nela vivem não entendem nem esperam a dor invisível que, a priori, parece não ter fim. Pelo contrário, a sociedade quer a reação, a onipotência e a vitória da vida em relação à morte. Enganados e apavorados passamos a pedir ao corpo e a já cansada economia psíquica o que eles não podem oferecer, e acabamos nos refugiando na tristeza, na desconfiança e na distância do sofrimento dos outros. Tateando na vida, procuramos médicos, padres, pastores, mães e pais de santo. Outros apelam para o espiritismo, ascendem velas, oram para deuses e diabos ou buscam respostas na ciência. Não há como modificar essa condição: todos vamos perder, sentir a falta, dormir com o sentimento da finitude e fazer amor com a morte. Caminhos podem existir para melhorar o sono ou mesmo a capacidade varonil de enfrentamento da morte, todavia, são mecanismos paliativos e não funcionam diante do inevitável conjunto de fatos. Penso que uma saída é o respeito e o cuidado com o outro. O luto deve ser vivido, e que demore cinco, seis ou dez anos.

O luto não é uma doença. Não somos suas vítimas. Somos seres humanos e sentimos falta, angústia, medo, saudades e lembranças. É óbvio que não desejamos a perda do que amamos ou conquistamos com suor, trabalho, dor e amor. Que nos esforcemos para entender o luto como um direito, um sentimento, um acontecimento que faz parte de nossa história, finitude, fraquezas e necessidades do culto à simplicidade e humildade. Respeitemos a tristeza, o sofrimento, a dor sem cor e o sentimento de revolta em relação a Deus - caso Ele exista - e ao mundo. Cada um possui o seu o seu tempo. Creio que é pertinente respeitar as limitações do outro, até o momento em que seremos os próximos a serem respeitados.

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* - licenciado e bacharel em Ciências Sociais pela UFJF, mestre em Sociologia, doutor em Ciências Humanas: sociologia e política pela UFMG. Texto publicado no Jornal Circuito Notícias. Brumadinho e região n° 143, ano 12, edição 14, 31 de maio de 2006, p. 02.
Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 06/11/2007
Código do texto: T725431
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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros