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Amigos! Uma espécie em extinção

  *Artigo Publicado no Jornal de Hoje - Terça-feira - 04/fevereiro/2003.

O poeta disse que “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, junto do coração...”  Poesia de uma outra época, que perde espaço no mundo atual.  Existem diferenças exorbitantes entre as amizades feitas nos anos 80 e as da atualidade. Comecemos pelas ruas onde morávamos: na minha época, pelos idos de 1975, aos 10 anos, tínhamos as peladas nos terrenos baldios, os jogos de biloca, botão e as corridas de autorama. A rua era uma extensão das nossas casas, nossos pais sabiam exatamente onde e com quem estávamos. As drogas eram apenas notícias do sul do país. Todos jogavam descalços no terreno, éramos portanto iguais; a marca do tênis não tinha importância, ali, era bom quem jogasse bem, não quem tivesse o tênis mais caro. Essa liberdade de brincar e fazer amigos tinha continuidade na escola, onde neste aspecto em particular, o Marista foi de fundamental importância. Entramos na adolescência por volta de 1980, época de mudanças radicais em nossos comportamentos. Agora, a beleza, a roupa, o carro e o dinheiro começavam lentamente a corromper os jovens da época. As diversões se tornavam caras, as pranchas de surf, as raquetes de tênis, os skates e os patins necessitavam de um investimento além da mesada. Minha turma soube superar estes obstáculos. Quem tinha mais, dava os patins antigo ao amigo e comprava um novo, último lançamento. Um jogava com a raquete de madeira e o outro com a de fibra de carbono. Na Apple éramos todos iguais. Nossa mesa era a mesma e normalmente a vodka era a bebida comum, afinal o café no Chambaril ao som de Perereca e Pororoca, nos deixava equiparados novamente num modo pobre de diversão. Os amigos brigados com as namoradas juntavam-se aos outros e geralmente fazíamos uma serenata matinal para que fizessem as pazes. Na segunda feira estávamos novamente juntos, os mais estudiosos não se furtavam a passar a cola das provas para a turma da recuperação. Os interesses pessoais ficavam de lado quando estávamos juntos. Chegava mais um final de semana e tudo outra vez, a turma com o caixa em baixa, arrecadava as meninas na praça e descarregava as emoções no Motel Calango, aquele mesmo, o antigo Bosque dos namorados. Quando íamos as casas de praia, ouvíamos os lamentos uns dos outros, os apaixonados ouvindo Guilherme Arantes os outros Legião Urbana. Nos separávamos momentaneamente no carnaval, pois por questões financeiras e de afinidades nos dividíamos entre os blocos Ressaka, Saca Rolha, Bakulejo, Puxa Saco, Jardim de Infância e Meninões. Não posso deixar de lembrar a obra prima de Carlos Santa Rosa quando disse numa expiração divina: ... foliões, eternos meninões, nos quatro dias há um desejo de virar tudo pro ar, pintar o sete e desatar o nó, deixa cair o cheirinho da loló... Os com mais bala na agulha iam de Rodoro, outros de universitária e a maioria no cheirinho da loló. No América a festa era total, nos reencontrávamos e saíamos a caça das folionas. Juntos e unidos, verdadeiros amigos.
Infelizmente hoje a coisa funciona diferente. As crianças não podem ficar na rua para brincar. Por causa da violência atual, os meninos moram e praticam seus esportes dentro dos condomínios, cheios de restrições e com horários controlados. Os adolescentes formam grupos e se comunicam na maior parte das vezes por celulares ou e-mails. Bebem para brigar e arriscam a vida dos supostos amigos com brincadeiras perigosas. Não paqueram mais, não namoram mais, só falam em transar, mesmo que ainda não estejam preparados para isto. O êxtase é usado para embalar as noites e a beleza masculina é mensurada dos músculos torneados por anabolizantes. Não se precisa mais ir na praça a caça de uma garota de programa, as agências especializadas tem books com todos os gostos e preços. Nos carnavais acabam-se os namoros e apostam quem pegará mais meninas, não importa o tempo que dure, valendo somente a quantidade.
Talvez eu esteja ficando velho, mais um velho feliz. Somos amigos a mais de 20 anos e nossos abraços nos reencontros são firmes e sinceros como antigamente. A misturada é total; um virou o meu cardiologista, outro meu advogado, compro medicamentos nas farmácias de outro, outros são meus pacientes, autentico documentos no cartório da família, um é padrinho do meu filho, somos padrinhos de casamentos uns dos outros, uns trabalham para os pais de alguns, filhos estudam na mesma escola, uma salada total. Respeitamos as novas vidas que cada um construiu e nos reunimos no Natal para matar as saudades e unirmos nossas famílias. Cada um de nós tem uma parcela de responsabilidade sobre a felicidade do outro, afinal fomos nós que cativamos e fomos cativados uns pelos outros..
É muito bom ter verdadeiros amigos e eu tenho certeza que sem vocês eu seria muito menos feliz. De todo coração obrigado Augusto Azevedo, Adriano Gurgel, Fábio Hollanda, Bruno Melo, Sérgio Costa, Paulinho Freire, Vicácio, Marjozinho, Nino Abreu, Maurício, Sérgio Freire, Henrique Procópio, João Bosco, Leonardo Patriota, Leléu, Caíque, Ranilson, Cacau, Vinícius (“eu vou deixar”), Carlos Eugênio, Rodrigão, Bruno Leandro, Jéo Melo, Zé Roberto, Tilingo, Tâmires, Pípolo Jr. e mais alguns que por limitação de espaço me obrigo a ocultar.
Até o próximo abraço ...

 















Henrique Gondim
Enviado por Henrique Gondim em 08/11/2007
Reeditado em 08/11/2007
Código do texto: T728901
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Gondim
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 52 anos
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