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Chega de pagar mico

"Existem dois modos de se propagar a luz: ser a vela ou ser o espelho que a reflete."
Edith Wharton

Estava eu na fila de um supermercado da rede Compre Bem, na cidade de Vinhedo, quando passei a prestar atenção numa conversa entre três moças, logo à minha frente:

- Você só quer aparecer, fazendo isso! Por que quer ser diferente de todo mundo?
E a segunda menina, ainda mais afobada, continuou:
- É isso mesmo! Por que você insiste em fazer essas coisas? Todos aqui usam as mesmas sacolas para levarem as suas compras. Que mico!

A terceira moça, calada, estava acondicionando suas compras dentro de uma grande sacola de feira e, entre chateada e sem-jeito, sorria vez ou outra, sem parar com sua tarefa.

Quando me dei conta do que estava ocorrendo bem ali na minha frente, fiquei boquiaberta. Aquela menina de aparência simples estava era nos dando uma tremenda lição de vida! Enquanto isso, as outras continuavam com a zombaria...

Foi quando decidi interceder:

- Minha querida, você está certíssima! Se todos agissem como você teríamos muito menos plástico espalhado por aí, afetando o nosso meio-ambiente.

Seus olhos brilharam. Percebi que lhe fiz um enorme bem.

Mal sabia ela a lição que acabara de me fornecer. Eu que sempre alardeio sobre a necessidade de cuidarmos do meio ambiente, estava bem ali, naquela fila, de mãos vazias e carrinho cheio, tendo de usar as sacolinhas plásticas do estabelecimento. Isso sim é que era mico de verdade.

Ainda no caixa daquele supermercado recordei-me de uma linda fábula chamada “A lenda do peixinho vermelho”. Ela consta no prefácio do belo livro Libertação, de André Luiz.

Conta-se que existiam, num pequeno lago no meio de um jardim, muitos peixes coloridos que se alimentavam de larvas e minhoquinhas e acreditavam que aquele local era o centro do Universo. Dentre eles existia um que era pequenino e vermelho e que devido às suas dificuldades para pescar larvas, estava sempre com fome. Como o peixinho não tinha muito tempo para o lazer, uma vez que estava sempre à procura de alimento, passou a aproveitar seus momentos de busca para estudar todos os recantos do pequeno lago. Em pouco tempo conhecia toda sua extensão.

Certa manhã de primavera encontrou o escoadouro: uma peça metálica com pequenos vãos. Rapidamente pensou em sair dali e conhecer outras paragens. Espremeu-se por entre as grades e mesmo sendo franzino ainda perdera algumas escamas do seu corpinho.

Nadou bastante e depois de algum tempo foi parar em um grande rio, onde fez amizades muito interessantes. Encontrou peixes de muitas famílias diferentes que com ele simpatizaram instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe o mais fácil roteiro. Embevecido, contemplou nas margens homens e animais, embarcações e pontes, palácios e veículos, cabanas e arvoredo.

Plenamente transformado em suas concepções do mundo passou a reparar nas infinitas riquezas da vida. Encontrou plantas luminosas, animais estranhos, estrelas móveis e flores diferentes no seio das águas. Sobretudo, descobriu a existência de muitos peixinhos, estudiosos e delgados tanto quanto ele, junto dos quais se sentia maravilhosamente feliz.

Seguiu adiante e foi parar no grande mar. Lá chegando, qual não foi o seu susto – uma baleia gigante abriu sua boca enorme e engoliu o pequeno peixinho, junto com muitos outros! O pequenino, sem perder sua fé, orou fervorosamente ao Deus dos peixes, pedindo que ele o ajudasse a sair daquela situação tão difícil.

Logo a baleia começou a soluçar e vomitou os peixinhos todos, incluindo ele. O pequeno viajante, agradecido e feliz, procurou companhias simpáticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações. Depois de suas expedições passou a pensar em seus antigos companheiros do laguinho e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera na infância, decidiu regressar e ajudá-los, contando suas descobertas maravilhosas.

Não hesitou. Nadou, nadou, nadou pelo rio até o riacho, passou pelo pequeno canal e, chegando em frente ao escoadouro, espremeu-se novamente pelas grades. Ninguém ali sentira a sua falta. Todos os peixes continuavam pesados e ociosos, repimpados nos mesmos ninhos lodacentos, protegidos por flores de lótus, de onde saíam apenas para disputar larvas, moscas ou minhocas.

Vendo que ninguém lhe escutava foi procurar o rei dos peixes. Contou sobre sua viagem, suas novas amizades e as belezas daquele mundo novo. Informou-o de que semelhante felicidade, porém, tinha igualmente seu preço. Deveriam todos emagrecer, convenientemente, abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme nas locas escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário para se realizar a longa jornada.

Antes de terminar, gargalhadas estridentes foram ouvidas. Ninguém acreditou no pequeno peixe vermelho. Expulso a golpes de sarcasmo, o peixinho realizou a viagem de retorno.

Depois de alguns anos, apareceu pavorosa e devastadora seca. As águas desceram de nível. E o poço onde viviam os peixes vaidosos esvaziou-se, fazendo com que toda a comunidade perecesse...

Assim como o peixinho vermelho, que deixa sua antiga maneira de pensar por conta de suas novas concepções, aqueles que trazem um olhar diferente diante dos intrincados assuntos humanos, geralmente é ridicularizado, menosprezado, rotulado como sendo o “fora de moda”, o bobo na vida, quando na verdade trata-se do oposto. Agradeço à moça que bravamente resistiu às ironias cáusticas das colegas, deixando para mim seu valoroso exemplo.

Hoje em dia peço que acondicionem minhas compras em caixas de papel ou levo no bagageiro do meu carro sacolas de material ecológico. Afinal... chega de pagar mico!

Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 10/11/2007
Código do texto: T731985
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 48 anos
37 textos (18860 leituras)
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Claudia Gelernter