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Ferida de político não infecciona



O grande desafio da medicina é a infecção. Por mais que se estude, desde a fitoterapia  cujos registros remontam ao início da história da humanidade até a medicina ortomolecular, a ciência não tem achado explicação para a rapidez do processo de cura das feridas dos políticos.
A cada eleição presenciamos uma guerra muito mais ética e moral do que política. Nas campanhas não se discute as necessidades do município, os anseios da população e as melhorias no padrão de vida dos mais pobres . Gastam-se milhões de Reais em marketing; camisas, bonés, adesivos, bandeiras, bonecos, outdoors e principalmente com a produção de televisão.
O instituto da eleição em dois turnos foi o grande “antibiótico anti-ético” que faltava para as feridas morais causadas no processo eleitoral. No primeiro turno, todos se armam e iniciam uma sangrenta batalha. Uma guerra onde os preceitos éticos e morais não existem. Um candidato chama o outro de ladrão, traficante, corno; a resposta vem em forma de homossexual, falsificador, analfabeto; um terceiro bate nos dois dizendo que são farinha do mesmo saco; os nanicos que não tem nada a perder, vendem seu espaço no horário eleitoral para difamar alguém, não interessa a quem, sem falar na humilhação do aparecimento dos candidatos a vereador, que incluem até mesmo pessoas com determinados graus de deficiências mentais. Um completo desrespeito a dignidade humana. E assim, se passam longas e entediantes semanas até a votação.
Um clima de trégua se instala visando o segundo turno. Os dois vencedores iniciam uma busca alucinante para coaptar os adversários, antes inimigos, agora companheiros e futuros secretários. As feridas feitas anteriormente recebem uma dose do “antibiótico da falsidade” e todas ficam cicatrizadas. Quem era bicha vira super-homem; o ladrão nunca roubou nada de valor, apenas bolinhas de gude; o analfabeto se transforma em poliglota; o traficante não traficava drogas e sim sogras, o que houve foi uma troca de letrinhas na publicação da matéria; o corno passa a ser Don Juan.
Todos se reúnem e pensam da mesma forma. Apoiar determinado candidato pensando nas eleições de 2006. Essa prática é um total desrespeito ao eleitor. O nosso voto é um mero instrumento de conveniências individuais dos líderes dos partidos. Caso seja aprovada a verticalização, ai é que vai ser bom. Fátima vai ter que se abraçar com Henrique, Mineiro com Aluízio, Vilma com Garibaldi e por ai vai. Amigos outra vez.
Eu tenho afinidade com muitos deles. Amizade com pouquíssimos. Cumprimento quase todos por educação ou mera formalidade. Mas, eu não sou político. Sou eleitor.
Não me chamem para a mesma mesa que o governador de 64, que perseguiu fiscais de renda e dentre eles estava o meu pai. Não sento, não cumprimento, não gosto e não voto. Essa posição pessoal não significa que vale para toda a família. Pulei carnaval nos anos 80 em blocos com Carlos Eduardo e apesar de não ser amigo, sempre nos tratamos com cordialidade. Resultado, votei nele no 2º turno. É essa coerência que foi perdida na política. Como podemos explicar o fato da candidata do PT que bateu forte durante dois anos no prefeito e na sua administração, chegando até a entrar com um recurso junto ao TRE para impugnar a candidatura do mesmo, se alia a ele no 2º turno com a amarelada desculpa da aliança a nível nacional. Uma hipocrisia gritante que nos enoja e tira a credibilidade da classe política. Não se mistura Vasco com Flamengo, farinha com vento, água com óleo. Nunca se ouviu falar na história da humanidade em alguém meio homossexual. Existe até Minotauro, meio homem, meio touro. Não se pode blasfemar contra homens e suas famílias.
As assessorias formam uma imagem perfeita do seu candidato. Apresentadoras de fora são contratadas para falar com um sotaque bonito. São atrizes com a finalidade de convencer o eleitorado, não importa se ela tem convicção no que está dizendo. Nas obras apresentadas, um mostra o lado direito da rua que está calçado, o outro o lado esquerdo onde o lixo está acumulado. Os candidatos repentinamente se tornam bons administradores, bons pais, bons esposos e até mesmo bons amigos.
Nos debates eles são orientados para falar mais sobre um determinado tema que o adversário não conhece. O que perguntou também não entende nada do que perguntou. Disse apenas o que havia sido ensaiado.
Os vereadores então são uma festa. Teve vereador que não falou absolutamente nada. Só apareceu em fotos. Outros faziam rimas, alguns lutavam, alguns não sabiam nem ler o que estava escrito atrás das câmeras.
É isso. Uma democracia construída em colunas de barro, onde qualquer neblina é capaz de abalar a obra. Infelizmente, nos somos obrigados a votar. (esta é a mais fina coluna de barro da tal democracia brasileira). Temos que votar em alguém. Carlos, Luiz, Miguel, Fátima, outros, nulo ou branco. Não tem opção. É votar ou justificar (mentir). Normalmente as pessoas estão em trânsito. Fica evidente que estar na casa de praia é bem melhor do que na fila da seção.
De bom, a votação de Miguel Mossoró, que ganhou o carinho da mídia e dos eleitores. Se não fizer muitos acordos políticos e receber o mesmo apoio em 2006, pode guardar uma cadeira de Deputado Estadual para ele.
De melhor a fantástica performance do TRE, sob o comando dos juízes Virgílio Fernandes e Madson Otoni, da Secretária Judiciária Clineide Alves e da Informática de Marcos Maia.  Enquanto os americanos passaram dias contando votos, nós tivemos o resultado final em 3 horas.
Henrique Gondim
Enviado por Henrique Gondim em 11/11/2007
Código do texto: T732234
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Gondim
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 52 anos
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