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O uso da música evangélica na liturgia católica

Ponto de vista
Por: Pe. Adair José Guimarães, Pároco da Paróquia Santo Antonio de Pádua de Mara Rosa – Goiás (Ano de 2006).


           Começo a minha reflexão com alguns questionamentos: podemos fazer uso da música evangélica nas celebrações litúrgicas da Igreja Católica? Mesmo com um repertório de séculos, os grupos de animação litúrgica da Igreja Católico teriam necessidade de alçar mão do repertório musical de outras denominações cristãs que possuem teologia e práticas de culto diferentes? Espero com este humilde ponto de vista ajudar nossos grupos de animação litúrgica a despertar para o debate sobre o assunto e assim aprimorar nossas ações lit'rugicas.
          O Concílio Vaticano II, inegavelmente, enriqueceu a Igreja com a proposta do esforço ecumênico em vista da unidade dos cristãos. O ecumenismo vem ganhando relevância a cada ano que passa. O saudoso Papa João Paulo II dedicou sobremaneira ao diálogo ecumênico e intereligioso com os cristãos da reforma e oriundos dela e com as grandes religiões não cristãs, respectivamente.
          Se por um lado o ecumenismo é um dado positivo, por outro temos que ter prudência e sabedoria necessárias para não atropelar o processo ou mesmo, como católicos, perder a nossa identidade. O Papa Paulo VI atinou para isso várias vezes. Devemos, sim, dedicar com alegria à prática ecumênica, mas sem abdicar dos princípios de coesão da expressão doutrinária e litúrgica da Igreja Católica. Devemos acolher e dialogar com o diferente, mas sem perder os elementos que nos sedimentam como católicos.
           O ecumenismo mal entendido ou mal intencionado traz em si o perigo do relativismo religioso. As pessoas que internalizam dentro de si a mentalidade relativista aceitam tudo o que cada religião professa como sendo a verdade ou parte dela. É comum ouvirmos: “toda religião é boa”. No entanto temos que admitir que nem toda expressão religiosa é boa. Nem tudo que se expressa religiosamente pode ser aceito como verdade revelada por Deus.
          Essa visão de que “toda religião é boa” está sobremaneira presente no imaginário de nosso povo.  Mas sabemos que se por um lado é possível um sólido e frutuoso ecumenismo com as denominações cristãs bem alicerçadas, por outro temos que admitir que os movimentos protestantes livres, incluindo aí o pentecostalismo sectário com caráter de seita, são totalmente fechados ao diálogo ecumênico e radicalmente se opõem à Igreja Católica e a outras denominações cristãs. Sobre esses quero me referir nesta reflexão, no que tange à música utilizada na liturgia.
          Uma cantora pentecostal e sectária, disse publicamente que não é satisfeita por saber que os “católicos usam a música dela para adorar um pedaço de pão”.  Fiquei meditativo sobre tal afirmação e descobri que muitos grupos de animação do canto litúrgico de nossas paróquias incorporam nos seus repertórios músicas de gênero gospel, as vezes sem saber da sua origem e muito menos do seu conteúdo. Alguém começa a cantar música gospel nas celebrações litúrgicas e outros vão aderido a ponto de muitos católicos dizerem que os evangélicos estão cantando nossas músicas, quando na verdade é o contrário. Não estou aqui desmerecendo a música evangélica que nutre o louvor e a oração de tanta gente dentro e fora da prática evangélica. Ela tem seu valor e, geralmente, brota de uma sadia reflexão e oração. Embora temos repertórios evangélicos de péssima qualidade o que também podemos encontrar na Igreja Católica.
          Acredito que devemos caminhar para um ecumenismo sadio que possa nos dar liberdade para, num futuro ainda por vir, fazer o intercâmbio de músicas que venham ajudar a animação de encontros, grupos de oração e devocionais. Utilizar a música gospel na liturgia católica é um ato de desmerecimento ao repertório de quase dois mil anos de genuínas músicas litúrgicas e teologicamente adequadas, confeccionadas exclusivamente para esse fim. Música gospel não goza de amparo litúrgico e muito menos retratam a fidedigna teologia que solidificam as bases da dogmática católica. Lembro, em bom tempo, que parte do repertório musical produzido no interior da Igreja Católica também não serve para a animação litúrgica; mas se destina à animação pastoral e de grupos de reflexão e oração.
          Precisamos urgentemente resgatar a música católica que brotou do coração orante de tantos homens e mulheres que ao longo da História da Igreja nos legaram um patrimônio musical que transcende o tempo porque celebra o Mistério do Ressuscitado mediante os sinais sacramentais da liturgia.
          Nossos grupos de animação litúrgica precisam buscar a auto estima católica e valorizar o patrimônio musical que temos. A música pentecostal protestante pode ser até apreciável quanto a certas harmonias e conteúdos, pois ajuda no enlevo espiritual e no louvor,  mas por questão de princípio não pode ocupar  lugar da música litúrgica católica que a sabedoria e tradição produziu e protagonizou ao longo de dois milênios. Repito, temos um grande repertório católico que também não pode ser introduzido na animação litúrgica. Trata-se de uma questão de princípio.
          Mesmo que algum católico desavisado cante músicas evangélicas ou mesmo às utilizem nos seus repertórios e gravações, não significa que teremos que utiliza-las em nossas atividades litúrgicas. O mesmo princípio vale para repertórios católicos que não foram confeccionados para serem utilizados na ação litúrgica. Convido os grupos de animação litúrgica ao estudo e aprofundamento dos documentos eclesiástico a esse respeito, sob pena de continuarmos manquitolando nossas liturgia com conteúdos musicais inadequados. Sem falar dos cantos católicos inadequados à nossa liturgia, lembro aqui alguns títulos do repertório evangélico que já ouvi em celebrações eucarísticas por esse Brasil a fora: “Fico feliz em vir em tua casa”, “Segura na mão de Deus”, “Glória, Glória, Aleluia”, “Tua Palavra....”, “Quão grande és tu”, etc.
São bonitos, mas não são litúrgicos e não ajudam a bem celebrar. Precisamos renunciar a um dos piores vícios no serviço da animação litúrgica: o subjetivismo. Nem o bispo, nem o padre ou quem quer que seja, tem autoridade para mudar a liturgia. Ela é um patrimônio da Igreja e, por obediência e bom senso, temos que respeitar. Na liturgia eu não faço o que quero segundo os meus gostos e modos, mas o que a Igreja nos propõe como um longo caminho de reflexão, experiência e discernimento.
 Amemos nossa Igreja Católica e sua  maravilhosa liturgia.     Amém!!!
           
                   

Adair José Guimarães
Enviado por Adair José Guimarães em 15/11/2007
Reeditado em 11/10/2016
Código do texto: T737729
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Adair José Guimarães
Rubiataba - Goiás - Brasil, 57 anos
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