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Entre médicos e ônibus: a tristeza de uma escolha política

Não deve causar perplexidade a mudança de posição do poder público quanto à possibilidade de término e construção de um hospital na região norte de Juiz de Fora. Se tal empreitada for levada a sério vale até a população desculpar o governo municipal pelo desaforo, a vergonha, o cansaço e a desumanidade pela qual vêm tratando a questão. É bem verdade que uma placa diz muito pouco, faz-se necessário, urgente e obrigatório o iniciar das obras e as rápidas mudanças no itinerário dos ônibus.

Não cumpre entrar na história, mas o fato é que o terminal rodoviário da região norte de Juiz de Fora foi uma má idéia, um ato impensado de gerência administrativa em uma cidade que comporta cerca de 500 mil habitantes. Não seria exagero, inclusive, afirmar que não passou de uma jogada eleitoreira e de muito mau gosto. E não escrevo como um qualquer. Sou um dos muitos usuários que utilizam o transporte público. Tal como a maioria da população brasileira, pago os meus impostos, dou e exijo respeito. Felizmente, não tenho utilizado todos os dias o referido terminal. Dos sete dias da semana, sou obrigado a permanecer quatro deles na capital mineira, tendo em vista que Juiz de Fora é uma cidade onde se recebe pouco e os empregos andam escassos. Mas não vou me adentrar nessas questões. O meu interesse é outro.

Seria importante saber quais os acordos que levaram as autoridades políticas a confiar no sucesso do terminal rodoviário. Terminal que, tampouco deveria ter iniciado. Vamos aos fatos: a despeito dos avisos e da grande possibilidade da gerência e da garantia da rapidez, o terminal foi um fracasso político e administrativo e não me refiro às questões que perpassam o tempo, o emprego, o espaço e a necessidade, às vezes rápida, de locomoção das pessoas. De um dia para outro, foi possível perceber na pele a tragédia produzida e mantida pelo governo municipal. Grandes e pequenos coletivos urbanos, empanturrados de pessoas nervosas e, raramente não atrasadas, saiam como verdadeiros navios negreiros sacudindo tudo e a todos ao arrepio da cidadania, da dignidade, da integridade física e da possibilidade iminente de acidentes com sérias conseqüências.

É possível pensar o porque de uma política como essa, pois, se dificilmente nós brasileiros sabemos dizer o "não" em relações pessoais, imaginem em relações que tocam a esfera do poder e de pessoas que há muito são consideradas poderosas na cidade e na região? A população, em sua grande maioria, miserável, pobre e negra da região norte - docilizada pelo tempo e encantada por uma obra - assistiu iludida o que na verdade não passava de um desafinado canto de sereias. Ao som da melodia alucinógena da política, poucos ouvidos foram fechados e não tardou para que os olhos fossem cegados com a ajuda do campo midiático. Deu no que podemos presenciar ainda hoje: um terminal com poucos coletivos, um amontoado de pessoas esperando, conflitos iminentes, crianças perdidas, nervos à flor da pele e o desrespeito puro e claro em relação à população trabalhadora e competente da região norte. Gostaria de ver as madames, as patricinhas e os mauricinhos da zona sul dependurados como carne de açougue nos famigerados linguições que, por todo o Brasil, são conhecidos pelos terríveis acidentes e coleção de mortes no trânsito.

Acabar rapidamente com o terminal e construir um hospital é a melhor ação política que se espera de uma autoridade política séria. Mas não vale colocar placas e iludir novamente a população. As eleições são como jogos de baralho: nunca temos a certeza da carta que chegará na mesa. A política é, por natureza, um campo minado e, nesse sentido, diante de uma população dócil, negra e pobre, da qual faço parte com muito orgulho, resta ao poder público a ação de início, desenvolvimento e término de uma obra que pode, diante das novas tecnologias da construção civil, ser levada a cabo em tempo recorde.

Entre o famigerado terminal e a saúde pública, não creio ser difícil escolher. Em um momento no qual a maioria das autoridades pensa na construção de penitenciárias seria bom para um político juiz-forano fazer a diferença com a construção de um hospital, principalmente, em uma área carente de atenção e que pode não só render votos, mas a simpatia, o sorriso e a alegria de uma criança pobre, negra e, se possível, com saúde para lutar pelos seus direitos e deixar de ser dócil com obras mirabolantes oriundas do dinheiro público. Que não acabem os coletivos e que não diminuam os ônibus na clara tentativa de vingar um privilégio garantido somente a certos empresários, mas por favor, chamem os médicos e as enfermeiras, eles serão muito bem vindos.
Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 17/11/2007
Código do texto: T741251
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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros