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O barco e o mar


Era cedo, ainda. Devia ser umas sete da manhã. A simpática Garopaba ainda dormia. Como havia dormido bem, acordei cedo e saí a caminhar pela praia. Digo cedo, porque para mim hora de acordar, mesmo no tempo em que tinha compromisso com horários, é oito horas.  Sete horas, e na praia, é madrugada.

Mas caminhava, disse, quando divisei lá adiante um barco de madeira, daquelas velhas baleeiras, tão características de Garopaba, voltando do mar e encalhando na macia areia da praia.

Ao contrário dos outros veranistas, não fui lá especular o que havia dentro do barco. Devia ter as coisas de sempre: algas, lixo e poucos peixes, resumo de um mar devastado pelos pesqueiros internacionais que tiram camarão no arrastão. Fiquei olhando o barco, de cores variegadas e contemplando o mar, cujo verde crescia em beleza e rebrilhos, com o avanço do sol.

E fiquei pensando. O barco une o homem ao mar. Ninguém teria futuro no mar se não fosse, mesmo que frágil, a segurança do barco. Assim como o aço da panela faz a síntese entre o fogo e a água, também o barco junta a riqueza do mar com os desejos humanos.

Recordei um poemeto, de um contemporâneo, que no auge da paixão disse à amada:

     “Se te pedirem, amor, se te pedirem,
     que contes a velha história
     da nau que foi ao mar e se perdeu,
     não contes, amor, não contes,
     que a nau és tu e que o mar sou eu...”.

Nesse embalo lembrei também a inesquecível Dolores Duran descrevendo “... a alegria de um barco voltando”. Barco e mar, mar e barco, na verdade, estabelecem uma relação unívoca de finalidade, como dizem os filósofos. Um sem o outro perderia significado.

Já imaginaram um mar sem barcos? Tanto assim que a maioria das representações artísticas retrata um mar e nele, numa inserção imanente, um ou vários barcos. O mar sem barco é a criança sem sorriso, é a mulher sem desejo, é o homem sem trabalho...

Do mesmo modo, a maior frustração é o barco parado, encalhado na areia, com algum rombo no casco, sem poder ganhar as dimensões do mar, enfrentar as vagas, cortar os ventos,  abrir caminhos...

O barco e o mar assumem entre si uma relação de cumplicidade, como amantes que vêem sua paixão desembocar no encontro, na presença, no convívio. Assim é a relação dos dois. Criados um para o outro, sozinhos denotam frustração, abandono, viuvez.

Da mesma forma que é difícil imaginar um casal onde falta um dos cônjuges, ou uma crianças sem pai, uma escola sem mestre, assim também não se concebe imaginar um mar sem barco e um barco sem mar...

Se os separarem, o barco racha de tristeza, e o mar, corroído de saudades, mal humorado invade a praia a procura de seu amor. Como namorados atrás de um destino, os dois se procuram até se achar, e quando realizam o encontro, não há mais vento, ondas, terra ou tempo ruim que os separe.

Qual amantes, eles foram feitos um para o outro...

(Garopaba, verão de 1997)
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 21/11/2005
Código do texto: T74331
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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10 e-livros (3490 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão