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Roubaram a mulher do Ivan



Eu era adolescente (faz tempo isso!) mas recordo que no programa do inolvidá-vel Chacrinha, o “velho guerreiro”, com seu deboche peculiar cantava, acompa-nhado por toda aquela claque: “Alô Gilvan, roubaram a mulher do Ivan!”.

Eu ficava me perguntando, quem seria o Ivan? Como lhe teriam surrupiado a mu-lher? Quem seria o “ladrão”? Depois, mais tarde, a filosofia me fez adentrar nos meandros da axiologia, estudo do valores, e eu questionei se alguém é capaz de roubar uma pessoa, se é possível esse tipo de roubo.

É claro que crianças indefesas são roubadas todos os dias. Mas a questão recaiu justamente sobre a possibilida-de de alguém “roubar a mulher do Ivan”.

Hoje, todas as láureas na universidade da vida me levaram a concluir que, a não ser que ocorra um ato de violência, pessoa adulta nenhuma é “roubada”, mas evade-se através de um mero ato voli-tivo, vai de livre-e-espontânea vontade, sai porque quis, voou porque a porta da gaiola ficou escancaradamente aberta. Ou, ainda, porque ocorreu um acordo de consenso entre a “mulher do Ivan” e seu ladrão. Ora, se alguém entra na minha casa e, sob violência me rouba um objeto qualquer, ele é um ladrão.

Mas se, ao revés, eu esqueço meu relógio em cima do muro, deixo uma janela convidativamente aberta, ou se sou desleixado na guarda das minhas coisas, eu concorri e estabeleci uma tentação irresistível para que alguém carregasse o que era meu e que eu, de forma incompetente, não soube zelar.

Na estória da “mulher do Ivan”, pior ainda! Se alguém se adona da mulher de alguém é porque ele não estava com nada, não soube cativá-la, esqueceu-se de cumprir alguns
“deveres”, cuja inadimplência mulher alguma perdoa.

No fim, tudo revela um estado de culpa e absolvição. A mulher, por mulher, foi absolvida, afinal, sabemos, la donna é mobile (a mulher é volúvel). Dela tudo se pode esperar.

Desde um orgasmo múltiplo até a irrupção de uma paixão incontrolável e coisas do gênero. O ladrão, por furtivo, e beneficiário direto do espólio, também é absolvido, tanto que na musica do “velho guerreiro” nem é citado.

Na marchinha apenas é informado o fato: "roubaram a mulher do Ivan..."

Por fim, quem é mencionado nominalmente na chacota? O Ivan! Ele, além de se mostrar incapaz de segurar la dona, ainda abriu o bico e deu publicidade ao “furto”.

Sim, porque a “ofendida”, por extremamente satisfeita, não iria delatar o evento. O “ladrão”, muito menos. Concluiu-se que, por sua incontinência, Ivan perdeu a mulher e a classe.

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 21/11/2005
Código do texto: T74335
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão