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O paradigma do Presidente

Trabalhava em  grande e confortável sala  em um dos mais luxuosos prédios da cidade de São Paulo. Motorista à disposição, almoços nos melhores restaurantes, muita bajulação. Seus pedidos eram ordens, suas vontades satisfeitas. Assim era a vida de Mariano, que podia isso e muito mais, afinal era presidente de conceituada empresa, homem poderoso e de grandes recursos intelectuais e financeiros.
Todavia, não obstante a todas essas vantagens, Mariano vivia infeliz, porquanto solitário demais. Não tinha amigos, as pessoas não se aproximavam porque consideravam instransponível a barreira da hierarquia organizacional. Relacionar-se com o presidente da empresa? Jamais! O máximo que se permitiam era um bom dia.
 Os que se achegavam eram somente interesseiros mais preocupados com as vantagens de uma amizade de conveniência. Por essas e outras, Mariano vivia às voltas no consultório de seu terapeuta, tentando resolver seus dilemas existenciais.
De que adiantava o sucesso se não tinha com quem dividir suas conquistas? Era a pergunta que repetia em todas consultas.
Certa vez, o terapeuta lhe deu a seguinte sugestão:
- Procure quebrar o paradigma da hierarquia que separa você dos demais funcionários de sua empresa. As pessoas lhe consideram inacessível, distante da realidade delas. Procure se abrir mais, atrair mais, seja mais simpático, sorria em abundância, quebre a ditadura da hierarquia, estilhace o PARADIGMA DO PRESIDENTE e cultive mais a simplicidade na maneira de agir. Tenho certeza que assim cultivará as flores da amizade e a primavera nascerá não apenas na sua empresa, como também em sua vida.
Aquela sugestão deixou Mariano intrigado. Como se aproximar mais das pessoas, já que era tímido? Como quebrar a ditadura da hierarquia? As perguntas borbulhavam em sua mente à procura de solução. Retornando ao lar, onde morava sozinho, percebeu que não trocara sequer uma palavra com seu motorista. Resolveu começar por ali mesmo a democratizar suas relações. Passou a puxar conversa com o motorista, perguntar sobre a família, amigos, esportes, enfim, assuntos do dia a dia. Surpreendeu-se com o rumo agradável e leve que a prosa tomava. A conversa o animou a prosseguir com aquilo que chamou de “Projeto de humanização das relações no trabalho”.
No outro dia Mariano chegou mais cedo na empresa e fez questão de sorrir a todos que por ele passavam. Alguns estranharam, outros admiraram, mas o resultado foi positivo.
Os dias transcorriam céleres e Mariano prosseguia com seu ousado projeto de “humanização das relações no trabalho”. Entretanto, embora as pessoas começassem a se aproximar mais dele, ainda havia a distância, ou seja, o PARADIGMA DO PRESIDENTE. E isso lhe desagradava, queria romper com essa barreira. Mariano almejava relações de respeito e amizade, responsabilidade e tolerância, sua intenção era de ser amigo e não somente o PRESIDENTE da empresa.
Foi quando um sopro lhe sussurrou ao ouvido uma inusitada idéia, que selaria uma relação de amizade entre ele e os demais funcionários da organização.
Mariano tomou para si graxa, flanela e escova, após, pediu à secretária que chamasse todos os funcionários para uma audiência em sua sala.
Mariano, o grande Presidente, chamava um a um para perto de si e com esmero engraxava os sapatos dos homens e limpava os calçados das mulheres. Com aquela inusitada atitude queria mostrar que as barreiras deveriam ser quebradas, que ali eram todos iguais, e dizia com sorriso para cada novo amigo e amiga:
- Nada de hierarquias cegas, nossa relação deve ser de respeito e fraternidade, sejamos, pois, amigos.

Não raro barreiras de relacionamento são erguidas pelo preconceito humano, que tenta imprimir através do status social uma relação de desigualdade entre as criaturas. Uma hierarquia absurda que encarcera o ser humano no caos da solidão.
Quanto mais pomposo o cargo mais inacessível o ocupante. Dia desses um amigo comentou que para falar com o diretor da escola onde seu filho estuda, teve antes audiência com três assessores que nada resolveram. Só após passar pelas três entrevistas é que lhe encaminharam para a audiência com o semideus.
Interessante notar:
Nos distanciamos das pessoas e depois reclamamos da solidão, da falta de amigos, da carência de companheirismo.
É óbvio que nos sentiremos sozinhos, porquanto fazemos questão de entrar em uma redoma onde ficamos cada vez mais inacessíveis ao mundo e a nossos pares.
Imperioso quebrar a hierarquia imposta pelas conveniências sociais, o que absolutamente não quer dizer ausência de respeito.
E nesse mister importante é a lembrança da maior autoridade moral que já passou pelo nosso planeta. Uma figura admirável que, não obstante a sua importância, fez questão de mostrar que somos todos iguais, e traduziu essa igualdade com um gesto que ficou marcado na história. O gesto: lavou os pés de seus discípulos. A figura: Jesus de Nazaré. Sempre que ares de superioridade visitar nossa mente, lembremos de Jesus, porquanto foi ele quem quebrou a hierarquia das relações, colocando todos num mesmo patamar, mostrando que é preciso quebrar o PARADIGMA DO PRESIDENTE, para que a primavera da amizade floresça em nosso jardim existencial.
Wellington Balbo
Enviado por Wellington Balbo em 24/11/2007
Código do texto: T750246
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Sobre o autor
Wellington Balbo
Bauru - São Paulo - Brasil, 42 anos
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