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Hoje é domingo, pede cachimbo: As parlendas e as cantigas na educação.

Expostas aos apelos consumistas da mídia, principalmente da televisão, as crianças vivem uma infância cada vez mais curta, pois o mercado as “adultiza” precocemente, transformando-as em consumidoras. Uma infinidade de produtos são lançados, e a cada estação as modas se sucedem: novelinhas infantis, desenhos animados, personagens rasos que serão rapidamente esquecidos e substituídos, programas pseudo-infantis que tratam as crianças como objeto, música de péssima qualidade com alto conteúdo erótico, comportamentos “rebeldes” sem qualquer causa definida, derrubada de valores como solidariedade e respeito ao outro, em defesa de uma individualidade crescente.
Em nossa sociedade do conhecimento, o papel da escola ganha nova importância. Está nas mãos da escola, criar espaços e tempos para que as crianças vivam plenamente sua infância, desenvolvam sua criatividade ao invés de reproduzir comportamentos estereotipados, adquiram uma bagagem cultural que lhes permita inserir-se criticamente na sociedade, sendo capazes de transformá-la.
Transmitir o legado cultural constituído pela humanidade é uma das funções primordiais da educação. O resgate da tradição cultural e do folclore infantil presente nas cantigas de roda, parlendas, adivinhas e trava-línguas é uma das funções deste processo, pois esse tesouro constituído ao longo dos séculos não pode ser perdido. Como diz Câmara Cascudo (1972), as cantigas de roda “dificilmente desaparecem e são das mais admiráveis constantes sociais, transmitidas oralmente, abandonadas em cada geração e reerguidas pela outra, numa sucessão ininterrupta de movimento e de canto”.
Vale a pena trazer as cantigas e parlendas para a educação infantil por uma série de fatores, como nos lembra Fanny Abramovich: pelo seu valor social, pois “vieram de tão antigamente, quando as avós de nossas avós já faziam roda, davam as mãos e cantavam por horas essas cirandas tão belas, tão plenas de elementos importantes, significativos, belos”; pelas possibilidades de amadurecimento emocional que carregam em seus textos: “quanta declaração de amor, quanto ciuminho, quanta inveja passava na cabeça de todos”, pela expressão corporal que permitem e pelo conhecimento do corpo, “tantas outras aproximações corporais que uma ciranda proporciona”, pela brincadeira e pelo movimento em si: “usar todos os movimentos, brincando de modo gostoso, solto, fora da sala de aula... no mundo”.
Oferecer às crianças uma alternativa à cultura consumista e de massa imposta pela televisão, ressuscitar o jogo e a brincadeira sem usar brinquedos eletrônicos, mas fazendo uso de si mesmos, de seus corpos, de seus movimentos, de sua criatividade e alegria. Transmitir às crianças o tesouro presente em infâncias através de décadas ou mesmo séculos, tornando-as parte do folclore infantil, esses são alguns objetivos de se trabalhar com parlendas e cantigas.
“Penso que estas manifestações culturais – a brincadeira de roda e a parlenda- são por demais importantes para serem apenas reminiscências de outrora; é preciso que os educadores se mobilizem para que continuem sendo memória viva, manifestação da infância plena de significação e identidade cultural” (Andries, 2006)
Além de brincar, cantar e memorizar as cantigas e parlendas, aliando os eixos de música, movimento e linguagem oral e escrita, utilizaremos os textos para a alfabetização. Por serem conhecidos de memória e altamente significativos para as crianças, esses textos as ajudarão a pensar na forma da escrita, e não apenas em seu conteúdo.
As parlendas, com seus textos rimados, sua marcação rítmica e seu caráter lúdico, são textos privilegiados para incentivar a correspondência entre o som e os sinais escritos. As cantigas, com letras curtas ou não, permitem que as crianças, conhecendo-as de memória, façam atividades como localizar palavras específicas, organizar versos na ordem correta, completar lacunas usando banco de palavras, entre outras.
Ampliando seu conhecimento sobre Música, as crianças poderão tomar contato com diferentes versões da mesma cantiga, percebendo que há ritmos diversos e várias possibilidades de interpretação. Com a construção de instrumentos musicais e o canto das cantigas as crianças desenvolvem suas noções de ritmo, timbre, compasso, e ampliam seu repertório musical.
Cabe a pais e educadores preservar esse patrimônio, e não nos deixar levar pelos modismos, novelinhas e animadoras infantis televisivas que têm se sucedido nas mídias. Espero ter conseguido mostrar algumas razões pelas quais vale a pena cantar e brincar com as tradições infantis.


Selma AM
Enviado por Selma AM em 30/11/2007
Código do texto: T759758

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Sobre a autora
Selma AM
São Paulo - São Paulo - Brasil
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