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ReLer MARCEL PROUST

               



     Na antiga Grécia letrada, depois do aedo (poeta-cantor) Homero (“Odisséia” e “Ilíada”) ou da Grécia arcaica – mergulhada na cultura oral -, o grego Heródoto [484-425 a.C.], considerado o primeiro “historiador” do mundo ocidental, nas linhas inaugurais de sua “História” define sua tarefa como uma prática narrativa para salvar a memória. Ou ainda, nas palavras da filósofa Jeanne Marie Gagnebin: como uma luta contra o esquecimento “para que a memória dos acontecimentos não se apague entre os homens com o passar do tempo, e para que feitos maravilhosos e admiráveis dos helenos e dos bárbaros não deixem de ser lembrados” (História, Livro I).
     Um dos temas mais recorrentes na obra do filósofo alemão Walter Benjamin [1892-1940], intelectual da modernidade, é o declínio da arte narrativa. Em seu ensaio “O Narrador”, Benjamin explica que, uma vez substituída por novas formas de expressão — o romance e a informação jornalística moderna —, a arte de contar histórias declinou, chegando quase às vias de extinção. Com o conjunto de transformações promovido pelo sistema capitalista, a arte de contar a mesma história de geração em geração cedeu lugar às novidades, pois, no mundo moderno, o declínio da experiência (relacionada com a memória, com a tradição cultural) corresponde a uma intensificação da vivência (relacionada apenas com a mera vivência individual). Para Benjamin “ o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se ‘dar conselhos’ parece hoje algo antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis (...) o conselho tecido na substância viva da existência tem um nome: sabedoria. A arte de narrar está definhando porque a sabedoria — o lado épico da verdade — está em extinção.”  O fio entretecido na matéria da vida se rompeu: conselho e sabedoria fazem falta. Conseqüentemente, com o gradativo empobrecimento da memória, o homem moderno perde o contato com a tradição cultural.
     No dizer de Benjamin — tradutor do romancista francês Marcel Proust para o alemão —, o romance proustiano “Em busca do tempo perdido” é paradigmático para a questão do resgate da memória pela literatura na modernidade. A referida obra, em sete volumes (na tradução brasileira), que dá a importância literária a Proust, distancia-se da concepção consagrada do romance como forma literária acabada, cuja história se dissolve num fim determinado ansiosamente aguardado pelo leitor, para que, a partir daí, ele (o leitor) possa conferir um sentido à história narrada. Indo ao contrário dos romances tradicionais, na obra de Marcel Proust não se encontra uma ação comum que sirva de fio condutor do primeiro ao último volume de “Em busca do tempo perdido”, nem mesmo um desfecho, coroando as soluções dos fatos encontradas no percurso da narrativa. Navegando nesse “Nilo da linguagem”, consoante Benjamin, o narrador proustiano, movido pela memória involuntária (memória afetiva ou depósito vivo de emoções) - acionada pelo acaso -, é capaz de resgatar memórias significantes, compostas de elementos inacabados, atualizando-as. Nessas “ressurreições da memória”, Proust procura ressaltar a importância da interferência do acaso no momento em que a memória involuntária se manifesta: “É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto (...) só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.”
     Ao contrário da memória voluntária, que está sob o comando da inteligência, a memória involuntária depende de um acaso providencial, como a visão proustiana de um bolinho ensopado em chá. A irrupção de toda uma série de lembranças acionada por um “toque de sirenes” — como o perigoso canto das Sereias que tentou induzir o herói homérico Odisseu ao esquecimento (Odisséia, de Homero - Canto XII) — traz, impetuosamente, para o presente, todo um passado que jazia no esquecimento e já não tinha significado algum. A quem se dispuser a ler Marcel Proust, no primeiro volume intitulado “No caminho de Swann” o narrador proustiano “escuta” o sinete do tempo. Nesse encontro com o paraíso perdido, passo a palavra para o narrador de “Em Busca do tempo perdido”:
     
“Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas de bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento o que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de causa. (...) Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? (...) E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o pedaço de ‘madeleine’ que nos domingos de manhã em Combray (...) minha tia Léonie me oferecia...”
     
     Depois de longa enfermidade, e uma vez reconhecida a incapacidade de escrever, o narrador proustiano, no aroma do chá e no barulho da colherinha, descobre os poderes da memória involuntária e da escritura; toque mágico de um sortilégio que confere a Marcel Proust o poder de escrever “Em busca do tempo perdido” a partir da primavera de 1909, e que preencherá todo o resto de sua vida.
     Por fim, com sua obra filosófica de caráter fragmentado e interdisciplinar, Walter Benjamin transita com ardor crítico e sem constrangimento pelo interior da crise da cultura moderna. No ensaio benjaminiano “A imagem de Proust” palpitam questões a respeito da memória, da história, da literatura, da filosofia que se dirigem para uma tensão-conceito de modernidade. Longe de acentuar tons melancólicos e nostálgicos, Benjamin insiste em apontar de forma otimista, mesmo em tempos de definhamento da arte de narrar, que a ocorrência das reminiscências existe — pelo menos potencialmente — em cada homem instalado na oposição central entre o presente vazio e desprovido de memória da modernidade hodierna e o tempo pleno e resplandecente de um lembrar prodigioso.




PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Doutor em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP.

                    primavera de 2005


























SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 01/12/2005
Reeditado em 18/12/2005
Código do texto: T79748

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS