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Berenice, teu nome é esperança!

CHAGAS
Berenice, teu nome é esperança!
 
2005, Março - Cinqüenta mil pessoas estão sob risco de contrair grave doença parasitária, por terem tomado caldo de cana no litoral sul do Brasil.

1909 - Dr. Carlos, médico mineiro, 31 anos de idade, debruça-se sobre microscópio monocular instalado num vagão de trem estacionado em Lassance (MG).

1976 - Mineira magra, 72 anos, é fotografada jogando milho para suas galinhas caipiras no terreiro de seu sítio, no interior de Minas Gerais.

No início do século vinte, o pesquisador mineiro está debruçado sobre rudimentar microscópio. O que vê? Observa protozoários microscópicos, cerca de dois centésimos de milímetro, nadando nas fezes retiradas de um inseto hematófago (chupador de sangue) graças aos movimentos de uma organela em forma de chicote (donde o nome de flagelo). Esse inseto vivia nas casas da região, escondendo-se durante o dia nas frinchas e outros esconderijos, saindo à noite para sugar sangue dos moradores ou dos animais domésticos. Freqüentemente, ele era pego picando o rosto. Daí os habitantes do local o apelidarem de "barbeiro".

No sangue de uma menina de cinco anos, acometida de febre e sinais de infecção generalizada - sintomas semelhantes aos dos que tomaram caldo de cana em Itajaí (SC) -, dr. Carlos encontra o mesmo micróbio flagelado que visualizara nas fezes do "barbeiro".

Cientista meticuloso - da geração que deu ao Brasil Oswaldo Cruz, Gaspar Vianna, Adolfo Lutz, Emílio Ribas e outros - examinou o sangue de animais silvestres e, no tatu, encontrou o mesmo micróbio movimentando-se com seu flagelo. Denominou-o Schyzotrypanum cruzi.

Quem estuda história da Medicina sabe que se gastam até séculos para esclarecer pontos principais das moléstias contagiosas e parasitárias. Equipes diferentes, em países e épocas diferentes, descobrem pedaços da evolução natural. A doença parasitária é descrita na montagem desse quebra-cabeças.

Sozinho e em pouco tempo (1907 a 1912), Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas descobriu uma doença (Tripanosomose americana, vulgo "Doença de Chagas), o micróbio causador (Trypanosoma cruzi), quem e como o transmitiam ("barbeiros" pela deposição de suas fezes na pele do homem) e, para completar, os reservatórios na natureza (tatus e outros animais silvestres).

Merecia o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. Não o recebeu, em 1921, talvez por inveja de alguns cientistas patrícios, seus contemporâneos, que minimizaram a importância da descoberta e "teriam torpedeado" sua candidatura ao Prêmio. Nesse ano, a Academia não premiou ninguém com o Nobel de Medicina (!?).

A doença de Chagas ocorre desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Patagônia, sempre ligada à presença dos triatomíneos (chupanças) que invadem e se multiplicam nos domicílios.

Com educação sanitária, aplicação de inseticidas e vigilância por parte dos órgãos que controlam as doenças transmitidas por insetos, a doença de Chagas foi erradicada de São Paulo e dos estados do Sul. Vez ou outra aparecem casos provocados por transfusão de sangue. Foi um dos motivos para que se proibisse a comercialização e se fechassem os bancos de sangue particulares em nosso País.

De repente, este susto! Cinco óbitos e trinta e um casos confirmados, entre gente que tomou garapa na beira de estrada num Estado que é modelo de desenvolvimento!

Desde os anos sessenta sabe-se que urina de gambás, com tripanosomas, havia contaminado alimentos de escola agrícola nos pampas. Parecia mera curiosidade.

O que ocorreu em Itajaí pode mudar as perspectivas epidemiológicas.

É possível que uma cepa de tripanosomas tenha se adaptado a essa transmissão oral, aparecendo em grande densidade na urina dos gambás ou/e sobrevivendo longamente no caldo de cana e de açaí (na Região Norte). Animais paradomiciliares, por sua vez, protegidos por leis de ecologia, proliferam nos ambientes humanos (nos forros ou no peridomicílio) tanto servindo de repasto aos insetos como tendo acesso aos locais onde alimentos são guardados, expondo-os às suas excreções. "Barbeiros" podem se esconder no doce escurinho das moendas.

Os que sobrevivem à fase aguda podem, mais tarde, desenvolver a miocardite chagásica crônica. Coração dilatado incapaz de fazer circular o sangue, como aconteceu com o "João Boiadeiro", o primeiro - e fracassado - transplante cardíaco no Brasil.

Já ia me esquecendo da velha magra que dava milho às suas galinhas. Em 1976, a Revista "Veja" a fotografou. Era Berenice, a menina em cujo sangue Carlos Chagas viu o "esquizotrípano" e o ligou à doença febril. O médico faleceu com cinqüenta e seis anos. Sua paciente morreu de velhice.

Se você está entre os suspeitos, por ter ingerido caldo de cana lá no Sul, faça os exames e, se for o caso, trate-se. Na fase aguda o tratamento é mais efetivo. Como a Berenice, você pode sarar definitivamente e sobreviver a seu médico.

Agora, se você costuma tomar, diariamente e em quantidades generosas, caldo de garapa fermentada e destilada, não fique preocupado com as notícias. Não está incluído entre os cinqüenta mil do grupo de risco.

O micróbio causador da atual "doença da garapa" não resiste ao calor nem à destilação. Você pode até comemorar cantando aquele pagode.

Troque apenas uma palavra: "Deixa a pinga me levar... pinga leva eu!" Seu risco de cirrose é muito maior do que de tripanosomose.

Edgard Steffen
é médico pediatra - (edgards@directnet.com.br).
26 de março de 2005
Edgard Steffen  [ Redação Cruzeiro do Sul ]
http://www.cruzeironet.com.br/run/37/165331.shl
Douglas Lara
Enviado por Douglas Lara em 26/03/2005
Código do texto: T8088
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Sobre o autor
Douglas Lara
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 78 anos
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