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Quem disse que bebê nasce com bula?

Quem disse que bebê nasce com bula?


Trabalhar grupos na área de desenvolvimento e capacitação de pessoas é algo prazeroso e edificante, pois da mesma forma que buscamos levar orientações e provocar descobertas entre os participantes, nós mesmos acabamos sendo contemplados com insights que nos ajudam a aprimorar nosso trabalho e nossa própria vida.
Uma consultora conhecida minha, que trabalha em uma empresa na cidade de São Paulo, contou-me que outro dia, viveu uma experiência pitoresca.
Estava ela ministrando um curso para um grupo de diretores de uma empresa conhecida e de grande porte. O tema abordado era liderança e as considerações sobre mudanças, incertezas e decisões.
O trabalho transcorreu normalmente em meio a apresentações, dinâmicas e vivências.
Em dado momento, levantou-se a questão da ousadia, da coragem em experimentar o novo e a expectativa com que se programa o subconsciente em relação às novidades em nosso cotidiano. Naquele momento a tônica centrava-se na valorização da capacidade de arriscar e atrever-se a ir ao encontro do desconhecido. A discussão foi animada e a consultora pontuando algumas idéias provocando o grupo a refletir e formular saídas para esta situação.
Um diretor, que andava pela casa dos cinqüenta anos, de aparência agradável, embora trouxesse o semblante um tanto carregado e um olhar desconfiado, levantou-se e inquiriu minha amiga da seguinte forma:
- Falar em novidade, coragem e ousadia, torna-se fácil quando se está em ambiente seguro e protegido; em situações conhecidas e controladas. No entanto, se comportar ousadamente estando-se exposto ao que nos é estranho, sem garantia alguma é, na melhor das hipóteses, irresponsabilidade, falta de visão administrativa, que tem por meta, buscar não colocar-se em risco desnecessariamente.
Tal discurso foi elaborado com ponderação, muita propriedade e tal convicção que abalou todo o grupo causando a sensação que ele havia posto por terra todo argumento e substrato da fala da consultora.
Minha amiga respirou fundo e com tranqüilidade concordou com seu interlocutor, cumprimentando-o pela clareza de comunicação que manifestava.
Percebeu que com esta atitude conquistou a atenção de todos, inclusive de quem acabava de ser elogiado.
Então perguntou a ele:
- O senhor tem filhos?  Prontamente ele respondeu que sim, três, dois rapazes e uma menina.
- E como vão eles? Qual a idade e o que fazem hoje?
O diretor, um tanto empolgado, passou a discorrer sobre sua prole. Um rapaz de 26 anos, formado em engenharia nuclear, a menina com 24 formada em Biologia e o caçula, bem, na verdade estava tentando descobrir qual seria seu rumo. Com 23 anos ainda não havia se decidido qual carreira seguir. Neste particular ela percebeu uma sombra em seu olhar, embora as palavras nada revelassem em relação a ela.
Quando se deu por satisfeito em sua descrição minuciosa e esclarecedora sobre seus filhos, sorriu para a platéia e nossa consultora novamente o cumprimentou.
Logo em seguida indagou olhando-o nos olhos:
- Seus filhos, ao nascerem, vieram portando bula?
- Como? Perguntou o diretor, imaginando que havia entendido errado a pergunta.
- Quero saber se seus filhos vieram com bula? Manual de instrução, talvez, daqueles que mencionam efeitos colaterais, modo de usar, posologia, contra indicação e coisas do gênero, o senhor sabe.
- A senhora está brincando? Evidente que não trouxeram nada disso ao chegarem aqui! Disse isso um tanto alterado, como se duvidasse da sanidade de minha amiga.
- Mas o senhor os recebeu e mesmo sem saber como lidar, o que fazer, investiu toda sua vida neles, certo? Insistiu ela.
- Claro, sempre dei prioridade a minha família!
- Muito bem, mas que garantia o senhor tinha para saber que daria conta?
- Não tinha, é claro! Mas como os amava fui fazendo o melhor que pude, e devo ter acertado em alguma medida, uma vez que as coisas estão sob controle.
- Ah! Sim. Sob controle. Então o senhor tem domínio sobre o destino de sua família? Não há nem porque preocupar-se com nada, mesmo com seu caçula que ainda não se decidiu pelo caminho que irá optar.
- Claro que não, madame! No entanto sei com absoluta certeza que jamais desistirei de investir neles, não importa o que aconteça, e seja qual for o resultado, estarei com eles o que me faz acreditar que assim tudo estará bem.
Neste momento o diretor calou-se e percebeu que a platéia achava-se em silencio absoluto, atenta ao diálogo que transcorria, sem interferir. Observou minha amiga de pé olhando para ele com os olhos límpidos e serenos. Logo em seguida ela apenas comentou:
- Quando encaramos um desafio com amor, mesmo sem garantias, jamais desistimos de acertar e o fazemos com determinação, porque sabemos que iremos buscar os melhores resultados, não importando o quanto tenhamos que alterar nossas estratégias e realinhar nossas expectativas.
O diretor sentou-se balançando a cabeça e replicando:
- Tem razão, moça, não importa a garantia, mas sim a certeza que temos dentro de nós de poder realizar algo com êxito e nossa disposição em nos adaptar.


Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 13/12/2005
Código do texto: T85347
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho