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Como a TV nos faz felizes!

Se você quiser ser bem feliz, compre uma tevê colorida com controle remoto, dessas 29 polegadas, para seu entretenimento. Caso alguns canais freqüentemente saírem do ar compre uma antena parabólica e se desejar ter a sua disposição canais de conteúdos bem variáveis e com uma boa imagem, assine a tevê a cabo. Você vai ver como irá se sentir melhor...

Agora, se desejar uma programação ainda mais diversificada mude o seu plano de tevê a cabo para um outro melhor (e mais caro, afinal as coisas boas da vida são caras) adquirindo também um outro ponto. E já que está nesta, que tal comprar outra aparelho de televisão? Mas não esqueça: 33 polegadas, no mínimo! (com tela plana, de cristal e sistema digital, dizem que é sensacional).

Agora, se quiser evoluir mesmo, basta pagar só mais um pouquinho e você terá acesso a canais especiais (pay per view - pague para ver) e assim poderá assistir alguns programas e jogos reservados de modo a sentir-se um cidadão de valor diferenciado. Imagine que sensação de poder você sentirá ao assistir os jogos da dupla Grenal pelo sistema ppv, enquanto os seus vizinhos ficam assistindo o Faustão ou Gugu! Além disso, você poderá ver shows de Pavarotti, lutas do Tyson, jogos da NBA e outras babaquices que os americanos despejam em cima de nós.

Afinal, como saberíamos o quanto o Governo nos ama e o bem que faz por nós, se não aparecesse no “pronunciamento do excelentíssimo senhor Presidente...”. Como, me digam??

A próxima oferta irá conter um plano ainda mais avançado, de modo que basta você pagar mais uma “taxinha” e terá direito a assistir aos replays dos gols, plano este patrocinado pela exploração das “Organizações Tabajara”. Caso algum jogo tenha prorrogação ou haja necessidade de desempate em pênaltis, basta você ligar e na hora, na hora mesmo, serão liberadas as imagens para a sua casa, com um custo praticamente irrisório equivalente ao preço de 5 litrinhos de gasolina (ou de leite, custa a mesma coisa) ou de 10 minutinhos de ligações telefônicas do seu celular e você é que faz a opção, sendo a gasolina ao preço do dia e os impulsos telefônicos referentes ao horário de pique (a diferença é pouca pois os dois são muito caros).

Durante os jogos e nos intervalos você ainda tem o privilégio (só você e sua família) de ser bombardeado com propagandas de bugigangas especialmente preparadas para você, merdas estas que lhe serão empurradas no grito e para isto basta fornecer o número do seu cartão de crédito (não diga que você ainda não tem cartão de crédito?).

Toda essa programação serve para que você sobranceiramente passe por cima de probleminhas banais, como fome, violência, desemprego, marginalidade, corrupção, alta do custo de vida, e outras besteirinhas. Para despertar seu senso de crítica social, à noite, depois dos noticiários do governo, você poderá se deleitar com o “tome-chifre” das instrutivas novelas da rede oficial.

O telespectador, aquele que tem a ventura de ter um aparelho de televisão na sala, com um anjinho ou um pingüim em cima, vai ver mulheres boas, rapazes musculosos e quengas de toda a ordem, fazendo coisas, viajando por lugares em que você jamais iria, se não tivesse uma tevê. Viu só que coisa importante? Por fim, como você  é tão especial, principalmente se tiver grana, terá a chance de participar do instrutivo programa “Criança Esperança”, animado pelo original Renato “Didi” Aragão. Com uma contribuição “espontânea” de modestos 10 ou 50 reais, você terá a oportunidade de sentir-se ainda mais humano e patriota, participando de uma campanha social (já é a milésima) que agora sim, pelo montante do dinheiro que já foi arrecadado, vai erradicar o problema da miséria lá do nordeste.

O caso é que, se um dia a financeira (por causa de nove prestações atrasadas) tomar de volta a nossa televisão, veremos que éramos felizes e não sabíamos... Sinceramente, se não fosse a tevê, eu não sei o que seria do Brasil!

(Tema adaptado de um blog de Internet)




Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/12/2005
Código do texto: T90920
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
983 textos (321697 leituras)
10 e-livros (3490 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão