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No dia da minha morte...


No dia da minha morte, deve haver muita festa. Afinal, se eu sempre fui um cara festeiro e alegre, por que transformar, logo esse dia, num dia de tristezas ?

Depois que eu morrer, meus (poucos) inimigos, vão vasculhar minha vida em busca dos grandes defeitos que eles nunca encontraram, e por isso me odiaram. Vão dizer que eu era um cara gritão, que dizia as coisas “na lata”, que era irreverente, metido a besta, com  mania de intelectual, que radicalizava algumas causas, que mais falava do que calava, etc. E sabem que terão razão?

Afinal, o que é a virtude de um homem senão o esgrimir entre a mediocridade dos adversários? Às vezes o indivíduo é correto não porque isso faça parte de seus arquétipos, mas para indignar os invejosos.

No dia em que eu me for, meus amigos vão chorar, ao relembrar um companheiro fanático pela amizade, fissurado pelo convívio, cego aos defeitos deles e clarividente às suas virtudes.

Minha mulher, gentilmente  vai dizer que nunca houve marido tão bom, companheiro ideal, que os quarenta e tantos anos  de vida em comum foram um mar de rosas, e que ela viveria tudo, outra vez...

Meus filhos irão mais longe: eles vão enaltecer virtudes que não tive; contar façanhas que nunca pratiquei; repetir sentenças sábias que jamais saíram de meus lábios.

Já pedi aos meus, quando da minha partida: não me enforquem com um gravata, mesmo que de seda, pois quero chegar no céu com o pescoço livre, para discursar, gritar, cantar...

Outra coisa: por favor, nada de discursos! Detesto oratórias fúnebres! Primeiro porque é uma caretice sem-par. Depois, corre-se o risco de, num rasgo de generosidade, o orador exagerar virtudes que não tive, e um gaiato, lá do fundo, entrincheirado detrás de um anjo de granito, gritar:  “não-apoiado!”.  ]

Nao me agrada, igualmente os epitáfios. Coloquem as datas, em que fui parido e que morri, entre duas estrelas, pois ambas representam nascimentos. Não coloquem elogio nenhum; eu ficaria vermelho lá dentro, e constrangeria meus fúnebres vizinhos.

Se, por insistência, alguém quiser escrever algo, repitam a frase de São Paulo, que foi lema de minha vida: “O amor nunca passará!”. A única coisa séria a ressaltar em minha caminhada, foi meu desejo de amar...

Outra coisa também solicito. Que me enterrem com a pior roupa que encontrarem em meu guarda-roupa. As outras, as melhores, dêem aos pobres... Para quê roupa boa e sapato novo, se lá onde vou estarei vestido de luz ?

Se sobrar algum órgão, não danificado pelo uso, podem doá-lo a quem precisar. Algumas coisas, porém, peço: flores, muitas flores. Em minha vida, tive conta em floristas, só para mandar rosas para os outros. Se tiver por perto, e não custar caro, arrumem um cavaquinho afinado que toque
“Pedacinhos do céu”.

E, por favor, na hora da despedida, não chorem sobre meus despojos. Não gostaria de chegar molhado lá em cima...

crônica publicada em 1995.

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/12/2005
Código do texto: T90981
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão