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Tua

               
Vista assim do alto, a palavra não evoca muita coisa nem dá margem a qualquer especulação poética. É apenas um pronome possessivo, que nos usamos diuturnamente na construção de nossas frases mais corriqueiras: tua gravata está com o nó torto... tua meia rasgou... tua promoção ainda não saiu... etc.

Quando a gente era garoto, naquele tempo, que os poetas diziam que a escola era “risonha e franca”, pelas mensalidades escolares não serem tão elevadas e pela possibilidade de jovens pobres entrarem nas universidades oficiais. Pois, naquele tempo a expressão tua, usada de certa maneira, era meio pejorativa e, invariavelmente, ofensiva. Qualquer ofensa que nos lançassem no rosto, a gente logo rebatia: “É a tua!”. Isso queria dizer, sem rodeios, “é a tua mãe!”. Isso fazia com que o interlocutor partisse para a tréplica: “É a tua, que é mais perua!”. Estava armada a confusão.

Mais tarde a gente, já na adolescência, no tempo do florescimento das primeiras paixões, o tua tornou-se um possessivo de peso, quando alguém citava, “tua namorada”, “tua guria...”, referindo-se àquela (ou àquelas) que faziam nosso coração bater mais forte.

Lá por 1960, mais ou menos, para catalisar o processo romântico, o famoso Trio los Panchos gravou Tuya, evidenciando aquela pertença afetiva de duas pessoas que se amam. Na verdade, o tua sempre dá uma noção de propriedade, não absoluta, mas afetiva. Afinal, a vida não é medida pelas vezes que respiramos, mas pelas oportunidades em que perdemos o fôlego. Prazer não se mede por números, mas por intensidade.

Tempos atrás, alguém me mandou um artigo, escrito por uma colunista da capital, onde ela investia de forma furibunda, contra o hábito de a mulher usar o sobrenome do marido. Apagar o nome de família, para usar como apêndice o nome da família do marido - disse ela - é renunciar à sua individualidade. A mulher casada sem o nome da marido - continuou a comunicadora - dá demonstrações de ser livre, insubmissa ao autoritarismo. Será?? A moça, em questão, embora promovida por seu veículo de comunicação é uma medíocre, parece descasada ou solitária, e suas colocações evidenciam relações mal-resolvidas.

Na verdade, o uso do teu ou tua, longe de querer exprimir uma posse, retrata um desejo de alguém pertencer a alguém. Extravasos de amor-próprio e clichês do superado tipo feminista, não ajudam a construir nada. Quem ama, seja homem ou mulher, se entrega, e faz questão de ser do outro, sem que isso signifique perda alguma.

A esse respeito, a gente leva um choque, uma descarga, leve que seja, de adrenalina, ao receber uma carta, um bilhetinho, um e-mail da namorada, encerrado pela expressão: Tua, fulana.

Um casal, que nunca se viu, separado por muitos quilômetros, mantinha um namoro quente e virtual, via Internet. Um dia ela encerrou a mensagem com: tua Fulana. Para provocar, ele perguntou: minha, mesmo? Ela respondeu: sim! totalmente tua!



Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/12/2005
Código do texto: T91000
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
981 textos (321402 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão