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OS SONHOS DO EMIGRANTE PORTUGUÊS

Os sonhos do Emigrante Português

           Os primeiros sonhos são os que antecedem a partida e a expectativa de uma nova vida, um novo desafio, a conquista dos objectivos que povoam o seu imaginário. Há uma grande expectativa sobre as novas terras, as pessoas que vai encontrar, os costumes e a dificuldade com a língua do país de acolhimento, mas tudo se supera com o espírito guerreiro de conquistar uma vida melhor e a sua vontade de vencer.
           Com o passar do tempo, as emoções que o coração do emigrante reflectem, remontam de uma saudade que provém dos primeiros anos de sua vida e que lhe ensinaram a forma de estar no mundo, vinculo maior do seu portuguesismo. Depois, afastado da terra e dos seus, tendo tido oportunidade de conhecer novas terras e outros povos, sua vida foi sendo acrescida dessas culturas que lhe adicionaram traços indeléveis à sua formação, reconhecendo-se sempre nas suas origens sempre que tem oportunidade de contacto com objectos, pessoas e imagens do seu Portugal.
          Seja pela aproximação a outros emigrantes que, como ele, encontram-se distantes da pátria mas mantendo a sua presença lusíada irretocável, seja pela audição ou visualização das músicas, paisagens ou traços fisionómicos, religiosos, culturais e até pelos da arquitectura que lhe é familiar, tudo o faz lembrar a terra que ficou distante mas que não abandona a sua mente. A presença de Portugal o emociona em cada oportunidade que se lhe oferece e quando sente esse entrelaçamento chega a estremecer, criando-lhe um indescritível desejo de voltar. Ele sabe que esse sonho nem sempre é possível, mas sempre que o realiza, renova-se como ser humano, mesmo que esse reencontro restrinja-se apenas a alguns dias que, quando surgem, parecem correr numa velocidade muito superior aos ponteiros do relógio, impedindo-o de satisfazer todo a vontade de deambular pelos espaços de onde nasceu sua cultura e da nação onde surgiu para a vida. O regresso ao país de acolhimento, certamente, fá-lo confrontado com o desejo de nova e enriquecedora visita a Portugal, com novas descobertas e com novo encontro consigo mesmo.  Nessa paixão imorredoura, justifica-se o motivo principal do quanto são importantes para o turismo de Portugal, os seus emigrantes.
          Quando a vida lhe proporciona a oportunidade de regressar e voltar a conviver com o seu povo, o desafio ainda é maior. O relacionamento quotidiano com o povo de seu país, mas do qual esteve afastado por tantos anos ou mesmo décadas, impõe-lhe a necessidade de readaptação, uma revisão de muitos conceitos e costumes que absorveu no país de acolhimento, superados pela sua capacidade de integração da qual já deu provas quando emigrou.
            Entretanto, o emigrante português, acumula em sua vida, uma imensa capacidade de adaptação às sociedades que o acolhem, integrando-se de forma admirável, mas mantendo durante toda a sua vida uma vontade marcante de voltar, de rever os caminhos, os traços culturais e sentir o sentimento do povo da terra que o viu nascer e partir para o mundo, esperando por um regresso que na maioria dos casos não se concretiza, mas que o faz, em frequentes sonhos, viver na sociedade da qual nunca desejou deixar, mas que o futuro, quase sempre, não transforma em realidade.
           Na maioria dos casos, quando o esperado regresso não ocorre, resta-lhe a esperança de se ver reconhecido pelos seus compatriotas, de se sentir, ainda que afastado fisicamente, integrado na nação portuguesa, de poder transmitir um pouco desse seu amor a Portugal a seus filhos e para isso sonha com um atendimento condigno nos órgãos públicos colocados à sua disposição, com a facilidade de obtenção dos seus documentos nacionais, com a facilidade de acesso a língua portuguesa e com uma legislação coerente com a realidade da nação portuguesa, como pátria peregrina, criadora de novos mundos e formação de novos povos, no qual o emigrante surge como o elo mais forte dessa globalização. Enfim, como já disse o poeta que “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”, só nos resta esperar que num dia bem próximo, os sonhos desse emigrante possam-se transformar em realidade.

Eduardo Artur Neves Moreira
Titular da Cadeira nº 34 da Academia Luso-Brasileira de Letras
Eduardo Neves Moreira
Enviado por Eduardo Neves Moreira em 31/12/2005
Código do texto: T92653
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Sobre o autor
Eduardo Neves Moreira
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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Eduardo Neves Moreira