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A morte de um poeta
Publicado por: Soturnos
Data: 23/03/2017
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Conto: A morte de um poeta
Autor: Renan Tempest
Narração: Andreia Santos

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
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Texto

A MORTE DE UM POETA

E foram encontrados um cadáver, um livro de Edgar Allan Poe e uma velha corda. E isto é tudo.

* * *
   
   Era 18**, numa gélida e nevoenta noite de outono, quando Edward, um jovem e pobre escritor norte-americano recebeu uma inesperada carta dizendo que ele herdaria 30 mil libras e um castelo de um tio inglês cuja existência até aquele momento lhe fora desconhecida. Apesar do lado funesto do acontecimento, o seu coração preencheu-se de júbilo, afinal não tinha com quem contar, pois era órfão, filho único e não sabia de nenhum parente. Também não tinha amigos; a solidão era a sua única companheira; Edward era escritor e ganhava pouquíssmo para escrever para alguns jornais, e assim vivia; pelos seus poemas e contos não ganhava nada e apenas os escrevia por prazer.
 
   Preparou-se para partir logo na manhã seguinte, afinal a viagem seria deveras longa; tudo o que levou foi os seus escritos e os livros que mais apreciava, entre eles obras de Lord Byron, Mary Shelley... e claro Edgar Allan Poe, sua maior inspiração. Após tanto tempo de viagens e paradas em estalagens, Edward enfim chegou ao seu destino: Londres. Sempre tivera vontade de visitar a Inglaterra, e agora estava chegando lá para morar.
 
   Lamento, leitor, mas não posso dizer que o castelo herdado do tio, era risonho e barulhento, como as casas nos romances de Jane Austen. Na verdade, era sombrio, gelado e silencioso, pois era velho, tinha poucos empregados e ficava um pouco afastado das casas que ficavam mais perto, e numa parte alta, onde os ventos mais frios passeavam ao anoitecer.
 
   Cansado da longa viagem, Edward pôs-se a descansar, porém teve vários pesadelos e acordou quando ainda estava escuro, ao som de um corvo, e não conseguiu mais dormir. Levantou-se e tentou escrever algo. Ficou assim por horas... e no outro dia acordou em sua cadeira em frente à sua folha em branco.
 
   Nos dias seguintes, teve noites mais plácidas... até que começaram as visitas de vizinhos e sobretudo de amigos e conhecidos de seu falecido tio. Recebeu vários convites de eventos na sociedade; no início recusava todos, mas aos poucos foi cedendo, afinal queria mostrar ao mundo a sua arte, embora temesse em demasia a rejeição pelo que ele mais estimava em sua existência: os seus versos, que eram o reflexo de seus sentimentos mais profundos.
 
   Não demorou muito para que todos simpatizassem com ele, afinal era um jovem intelectual, de bela aparência, agora também rico... além de ser talentoso! TALENTOSO! Era a primeira vez que ele recebia tal elogio, e a sua reação foi inesperada. Bem, eis o que aconteceu:
  
   Certa vez convidado para a casa de Lord Clairmont, velho amigo de seu tio, conversava com este sobre literatura:
 
— Bem, meu caro, mas Byron nem foi tão grande assim. Seus versos eram repletos de imperfeições, e quando não tinha por intuito simplesmente escandalizar, visava à ridicularização néscia. A maior parte de sua fama deve-se apenas à sua vida desregrada e repugnante e não ao seu talento, pois isto muito lhe faltava. Idolatrava Pope, mas jamais chegou aos seus pés; tinha como livro de cabeceira o “Vathek” de William Beckford, mas jamais escreveu algo que lhe comparasse tanto em efeito quanto em encanto — dizia o Lord Clairmont.
 
   Edward, como bom byroniano, já pensava em seu íntimo “Argh! um conservador!”, e então revidou:
 
— Senhor, permite-me discordar de ti. Byron é e suponho que sempre será o maior gênio literário já nascido em terras britânicas, com exceção de Shakespeare. Os versos de Byron por vezes continham sim desleixos, porém que em nada diminuíam o valor de suas obras. Sua vida foi apenas um complemento do que escreveu, e não é à toa que recebeu elogios de gênios como Goethe, Shelley e Poe.
 
Começou a falar o Lord Clairmont, novamente:
 
— Ah, que seja, pensa o que quiseres agora, mas tu ainda és jovem, e imagino que quando fores mais velho e experiente como eu, abandonarás essa opinião... Entretanto, eu gostaria de falar contigo de um novo gênio literário que conheci recentemente.
 
— Quem é? Que eu saiba Poe foi o último gênio literário que existiu... — assim disse Edward.
 
— Ora, Poe é apenas mais um louco sem talento... Refiro-me a ti, meu caro Edward! Andei lendo alguns poemas teus publicados no “Examiner”, e percebi logo que és muito talentoso. E conheço pessoas que estariam dispostas a financiar os lançamentos dos seus livros, e, modéstia à parte, sou amigo de muitos críticos e editores. Sim, meu caro, tens um grande futuro, és muito talentoso. — ele terminou de dizer isto, enquanto piscava para o confuso poeta.
 
   Neste momento, Edward ficou paralisado! Suas pernas tremiam, seu coração batia acelerado, o suor escorria pela sua face pálida e lágrimas desceram dos seus olhos. Era a alegria mais triste que ele sentira em sua vida!  E sem dizer nada, ele saiu correndo, o que deixou o Lord Clairmont perplexo... Edward recusou o coche e partiu a pé.
 
   Era noite. Entre a neblina fantasmagórica e a frieza do outono, enquanto caminhava solitário, ele contemplava com os olhos do coração as sombras que passeavam dentro dele. Estava um silêncio sepulcral e ele refletia no quão a vida havia se tornado vazia e sem sentido. Ao chegar em seu castelo, subiu a escada e trancou-se em seu quarto, e começou a chorar lágrimas que eram suspiros de sua alma. Deitou-se no chão e dormiu.
 
   No outro dia, acordou ao sussurrar do vento lúgubre; já era manhã. Vestiu-se. E ele nunca se vestira antes tão majestosamente. Procurou uma corda, e achou rapidamente. Pegou uma faca e, literalmente escreveu uma carta com o seu sangue. Queimou todos os seus escritos, e leu um trecho de um livro que estava em suas mãos, que dizia: “O homem não se entrega aos anjos, nem se rende inteiramente à morte, senão pela fraqueza de sua débil vontade”, e logo após, enforcou-se.
 
   Bem, leitor, certa vez disse um crítico literário, do qual não me recordo o nome, que Edgar Allan Poe, em oposição aos escritores clássicos de terror, nas suas histórias, não colocava pessoas comuns em situações “diferentes” e sim pessoas “diferentes” em situações comuns. Poe era uma dessas pessoas “diferentes” e o nosso Edward também. Eis a sua derradeira carta escrita com sangue:
 
“Quisera eu sim ter sido reconhecido por meu talento — se é que já tive algum. — No entanto, não foi o que ocorreu! Meu nome, meu dinheiro e meus bens é que mereciam os aplausos e elogios que, a partir de ontem, provavelmente eu receberia. Não sou digno de ser reconhecido, se Poe em vida não o foi. Por isto, agora, despeço-me da glória que não tive e deste mundo decadente.
Adeus!
Edward Branwell”

* * *
 
   E foram encontrados um cadáver, um livro de Edgar Allan Poe e uma velha corda. E isto é tudo.
 
Autor: Renan Caíque
Enviado por Soturnos em 05/10/2016
Reeditado em 13/06/2017
Código do texto: T5782087
Classificação de conteúdo: seguro

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