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Joaquim Murtinho

JOAQUIM MURTINHO CIDADÃO INTEGRAL
Por Guimarães Rocha (*)

Este é o primeiro artigo de uma série preparada pelo escritor e poeta Guimarães Rocha, membro da Academia Sul-mato-grossense de Letras, com a finalidade de resgatar a saga de um grande brasileiro que transformou para a modernidade, a vida sócio-econômico-financeira do país, revolucionando ainda a medicina e inserindo o processo científico nos métodos de educação.
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QUEM É

Joaquim Duarte Murtinho nasceu em Cuiabá, a sete de dezembro de 1848. Ali começou seus estudos, concluindo no Rio de Janeiro.

Fez o curso de ciências naturais na Escola Central, hoje Escola Nacional de Engenharia.

Formou-se em medicina e especializou-se em homeopatia. Foi também professor.

Estadista, ganhou fama por restaurar as finanças republicanas.

Joaquim Murtinho faleceu no Rio de Janeiro, a 19 de novembro de 1911. No dia seguinte, o presidente do Senado Federal, Quintino Bocaiúva, durante a sessão, assim o consagrou:

“Dele se pode dizer que foi um forte e um bom, que atravessava o oceano tempestuoso da vida espalhando benefícios, fazendo o bem e procurando com esforço e tenacidade a felicidade dos outros, procurava com o esforço de sua atividade as vantagens coletivas, das quais devia promanar o bem geral da coletividade da qual ele era, como indivíduo, uma esperança e um conforto.”

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PRECURSOR

Cuiabá era isolada em sertões. De raro em raro a pacatez da vida cuiabana era quebrada com a chegada de forasteiros. Dentre esses contingentes destacou-se José Antônio Murtinho, procedente da Bahia, ali nascido a dois de setembro de 1814. Médico, militar que chegou a tenente-coronel, casou-se com Rosa Joaquina Pinheiro, e depois, em segundas núpcias, com Dona Gerturdes de Sousa Murtinho, tendo falecido a 20 de agosto de 1888.

Joaquim Duarte Murtinho foi o terceiro filho de José Antônio Murtinho com Dona Rosa Joaquina Pinheiro.

Aos 13 anos de idade já ultimava os estudos no Seminário Episcopal, em Cuiabá. Por volta de 1861, foi enviado para o Rio de Janeiro, onde prosseguiu sua formação escolar, na Escola Central.

Em dezembro de 1863, Joaquim Murtinho foi aprovado nos exames de inglês, francês e latim; em janeiro de 1865 habilitou-se em filosofia, e até ao ano de 1870 já se encontrava vitorioso diante dos seus examinadores nas disciplinas de gramática portuguesa, aritmética, geografia, história e retórica e poética. Em seguida matriculou-se no curso de engenharia civil.

Em 1867 soube, a distância, da peste mortífera, a varíola, contraída dos invasores durante a heróica retomada de Corumbá (então dominada por facções de portugueses, vencidas pela coluna comandada por Antônio Maria Coelho). A febre purulenta aniquilou mais da metade da população corumbaense. A doença alastrou-se, atingindo Cuiabá, e entre os lares enlutados fora incluído o seu, com sua mãe colhida pela morte, após o contágio.
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O DOM

A tristeza abalou-lhe a saúde, e refugiado em fazenda de um tio, estudou a terapêutica homeopática.

Matriculou-se  na Faculdade de Medicina, e em 1870 completou o curso da Escola Central, com distinção também para Economia Política.

Bacharel em ciências físicas e naturais, fez também o magistério, e depois se doutorou a 15 de dezembro de 1873, ao defender tese de doutrinação homeopática.

Homem de cultura científica, ofereceu longos e proveitosos estudos sobre a agricultura brasileira. Além das ciências físicas e naturais e matemáticas, medicina, direito e engenharia, aprendeu e ensinou álgebra, geometria, cálculo diferencial e integral, física experimental e meteorologia, mecânica racional e aplicada, química inorgânica e noção de mineralogia, botânica e zoologia, além de desenho.

Como observou José Veríssimo, estudioso da época, sobre o ensino em nosso país, os altos estudos científicos desinteressados nunca tiveram lugar no Brasil. Estes são mais teóricos que práticos, e estreitamente profissionais, como são ainda hoje. Cursos de ensino geral e sem aplicação imediata, como os de ciências físicas e naturais ou matemáticas, nunca de fato tiveram freqüência e foram em pouco tempo eliminados.

Joaquim Murtinho publicou em 1877, o relatório dos exercícios práticos, anexo ao relatório do ministro do Império, notabilizando o seu método de ensino. Assim foi imortalizado professor, demonstrando não só o amor às pesquisas, como o empenho em consolidar as aquisições científicas dos alunos, por meio de observações diretas dos fenômenos naturais.

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PERSONAGEM SINGULAR

Murtinho pregava o liberalismo irrestrito, como quanto a religião e economia. Por exemplo, defendia sempre a garantia de juros aos concessionários de vias férreas.

Foi também um abolicionista, e criou e apresentou um programa amplo de reformas sociais que imprimissem feições novas à coletividade brasileira.

Solteirão, ganhou a reputação de frieza de sentimentos e orgulho. Mas, se em público protegia-se com a máscara da insensibilidade, em oculto trazia grande sensibilidade à dor humana, haja vista as expansões de amizade para com os mais próximos e os benefícios que distribuía. O amor aos animais marcou fortemente sua biografia.

Foi um adepto do evolucionismo de Darwin e da sociologia de Spencer, se bem que demonstrava, não raro, inclinação e respeito às coisas de religião.

Simultaneamente com o magistério, dedicou-se à arte de curar, sendo médico homeopata de renome. Elaborou a tese “Do estado patológico em geral: acústica, acupressura, respiração”. Por volta de 1904 foi presidente do Instituto Hahnemaniano (relativo a Christian Friedrich Samuel Hahnemann, 1755-1843, médico alemão, o criador da homeopatia).

Radicado no Rio de Janeiro, exerceu extraordinária influência no desenvolvimento da homeopatia no Brasil. Conhecia com profundidade todas as ciências tributárias da arte médica, principalmente a fisiologia normal e patológica.

Atendia tanto a fina flor da sociedade quanto os anônimos minguados de recursos, com igual dedicação. Sua fama expandiu-se pelo país inteiro, e transpôs as fronteiras, pois atendia consultas mediante cartas e telegramas.

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AMOR À TERRA NATAL

Nos primeiros anos da República surgiu um movimento extraordinário de especulação bolsista, que alucinou a população carioca e das principais cidades brasileiras. Joaquim Murtinho dirigiu um estabelecimento de crédito, o Banco Rio e Mato Grosso. A partir de 1890, buscou drenar boa porção dos recursos disponíveis, gerados pela inflação, em benefício de sua terra natal, Cuiabá, Mato Grosso. Proporcionou a organização da “Companhia Mate-Laranjeira” destinada a desenvolver a indústria ervateira (erva-mate) no Estado.

CONTINUA

(*) Guimarães Rocha (Antônio Alves Guimarães) é escritor e poeta, membro da Academia Sul-mato-grossense de Letras; ocupa a cadeira número quatro, cujo patrono é Joaquim Duarte Murtinho. Capitão PM, é também professor. Pós-graduado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Fundamentos da Educação, Concentração Filosofia; formado em Letras pelas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT), conclusão em 1988
Guimarães Rocha
Enviado por Guimarães Rocha em 28/03/2006
Código do texto: T130166
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Sobre o autor
Guimarães Rocha
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 60 anos
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Guimarães Rocha