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Texto

Prefacio

(Prefacio que, honrado, escrevi para o livro do meu querido amigo e professor, PE. Fernando Bastos de Ávila S.J. – A Alma de um Padre, (Edusc e Academia Brasileira de Letras, 2004)





Prefacio

O que um aluno pode dizer de um escrito do seu mestre, o mais querido? O que um amigo pode dizer de outro amigo –“o irmão que se escolhe” –  que possa ajudar a melhor compreensão da sua autobiografia? O que um cidadão pode dizer de outro cidadão, expoente do seu tempo tanto no saber acadêmico como no testemunho da sua fé?
É um privilégio que muito me honra este carinhoso convite para prefaciar o livro do meu quase pai, em que o Pe. Ávila abre seu coração, no mais puro abraço a todos os seus irmãos e irmãs, conhecidos e desconhecidos, para contar a história da sua vida.  Acredita, este octogenário sacerdote, ainda possuído de ardor missionário, este schollar de formação acadêmica invulgar, este cidadão engajadíssimo nos problemas sociais e políticos do seu tempo, que oferecendo, de forma simples e íntegra, o que foi a sua vida de jesuíta, possa colaborar, uma vez mais, para o aperfeiçoamento de sua Congregação Religiosa e estimular outras autenticas vocações. É um testemunho raro de ser encontrado na história da Igreja do Brasil e certamente na da Companhia de Jesus. Se bem lido – com a mesma abertura de alma com que foi escrito - se bem entendido, imagino que religiosos e religiosas, que hoje iniciam sua formação, colham esta experiência, que lhes é ofertada com simplicidade e amor, como mais um elemento de fortalecimento das suas vocações.
Conheço Fernando Bastos de Ávila há mais de quarenta anos. Em todas essas décadas de estreito convívio, já havia escutado quase todas as histórias contadas pelo Pe. Ávila neste livro. Conversador emérito, certamente um “grande papo”, o autor seduz os que o cercam com sua palavra fácil, bem articulada, sutil, ingênua, provocadora, mas sobretudo inteligente e atual. Todas essas conversas eram acompanhadas, com perfeita harmonia e equilíbrio, do balançar do corpo, das ênfases e timbres vocálicos, do bailado das mãos, pela iluminação e pela intensidade do olhar, ora tranqüilo, ora beligerante e, na maioria das vezes, maroto. Quando dizíamos que ele deveria ter sido ator teatral, o “tio Fernando” retrucava, com malícia no olhar: “o Paulo Autran treme e se angustia quando toma conhecimento desta possibilidade...”
Suas aulas também eram fascinantes – ricas de conteúdo, de citações bibliográficas apropriadas. Ninguém faltava, gente sentada no chão para ouvir as aulas de Sociologia Geral e de Doutrina Social da Igreja, na PUC RIO do fim dos anos 50 e do início dos anos 60. Para mim, o Pe. Ávila, antes de tudo, é um intelectual vocal: - não vê-lo falar é perder muito da exposição que faz. Não basta ler o escreveu. Não vê-lo falando, gesticulando, suas entonações sublinhadoras de idéias, seus sorrisos, seus olhares, é não apreender, integralmente, suas ricas reflexões.
Aqui quero fazer uma afirmação, fixando uma referência para investigações posteriores, por parte daqueles cientistas sociais que se interessam por fatos marcantes na evolução do saber acadêmico no Brasil e suas repercussões sobre o processo político do país. Quais os livros que verdadeiramente marcaram época, influenciando os rumos e a velocidade dos fatos históricos, em função dos ensinamentos e pensamentos que difundiram. Refiro-me a dois livros do Pe. Ávila. O primeiro foi o seu “Introdução à Sociologia”, editado sucessivas vezes pela Editora Agir do Rio de Janeiro, fazendo parte da Coleção de Ciências Sociais do IEPS, da PUC RIO. Milhares de pessoas abeberaram-se dos ensinamentos claros, precisos, sem pedantismos intelectuais ou exotismos herméticos de linguagem, que tanto seduzem sociólogos, antropólogos e economistas. Milhares apreenderam o que sabem de sociologia com a “Introdução” de Fernando Bastos de Ávila, mas preferem citar outros autores europeus e americanos, mais sonoros, que, em boa parte não leram... O outro livro é o célebre “Solidarismo”, a versão ampliada em 1963 do anterior, “Socialismo, Neo-Liberalismo e Solidarismo”, também editados pela Agir, que havia, em apenas meses, em 1962, causado o maior impacto no meio sindical, estudantil e político. Foi como uma luz, uma opção para todos nós que, engajados como estávamos na política estudantil e partidária, não sabíamos para que lado nos voltarmos: rejeitávamos os socialismos em suas várias matizes, opúnhamo-nos ao capitalismo e sua versão light, o neo-liberalismo, mas não tínhamos o que propor, uma doutrina consistente que organizasse a nossa reflexão e o nosso agir. O livro, Solidarismo, cumpriu este papel. Franco Montoro, Afonso Camargo, Jose Richa, militantes e dirigentes do Partido Democrata Cristão, brandiram o livro verde por todo o Brasil. Eu próprio, na direção da Juventude Democrata Cristã da época tratei de distribuí-lo por todas as nossas seções estaduais. O saudoso Aristides Calvani, notável estadista venezuelano, democrata cristão, que chegou, antes de falecer vitima de um desastre aéreo, a ser Chanceler do seu país, dirigindo, em Caracas, nos anos de 1960 o IFEDEC – Instituto de Formacion Democrata Cristiano, indicava aos alunos de toda a América Latina, o trabalho de Pe. Ávila. Jarbas Passarinho, honesto e competente político, tem nos trabalhos do Pe. Ávila uma referência permanente e diz isso nos seus livros, com muita coragem e seriedade. A maioria que leu e usou suas idéias não o citaram e continuam em silencio quanto à fonte que alimenta, ainda, suas ações...
Mas aquele professor, sempre pronto a atender e a conversar com seus alunos e alunas, guardava por detrás da figura simpática, a maioria das vezes sorridente, um homem reflexivo, observador da conduta humana, solitário e sofrido. Poucos amigos seus sabiam sobre o sacerdote angustiado com os dramas humanos de que, a cada instante, tomava conhecimento. Em raras pessoas pude verificar a compaixão radical para com os sofrimentos dos outros como a demonstrada pelo Pe. Ávila: uma doença, um desemprego, uma separação, um falecimento, um conflito familiar, levavam, como acontece até os nossos dias, o meu querido amigo a momentos de tal compartilhamento da dor e da angústia dos outros que nos deixava preocupados e até temerosos por sua saúde. Desaparecia o acadêmico, Doutor Suma Cum Laude pela centenária Universidade Católica de Louvain e surgia o sacerdote aflito em encontrar uma solução, um alívio, para a situação de dor ou de desespero que lhe haviam colocado nas mãos. É constrangedor, mesmo agora decorridos mais de 20 anos, lembrar aqueles anos todos do arbítrio dos governos militares, quando as famílias dos presos, dos perseguidos, procuravam o consolo, os conselhos, a proteção do Pe. Ávila. Nunca se negou a ajudar e, nos intervalos da prática fraterna do amparo, ainda encontrava tempo para escrever, para proferir conferências, para assessorar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, por mais de uma década A Conferência Episcopal começava, então, a movimentar-se, deixando de lado uma secular santa prudência, para dedicar-se a ser a campeã da liberdade e da justiça naquele momento histórico complicado, como realmente o foi. Por detrás deste rompimento de inércia, deste começar a caminhar em direção aos excluídos, hoje poucos lembram, lá estava o jesuíta assessor, Fernando Bastos de Ávila, redigindo todas, não apenas algumas, mas todas as minutas das declarações finais daquelas memoráveis Assembléias da CNBB, desde 1965 até 1979. Então foi simplesmente dispensado para dar lugar a assessores “mais modernos”. Com a saída do Pe. Ávila da assessoria social da CNBB há uma nítida queda da qualidade acadêmica dos pronunciamentos dos senhores Bispos que passaram, cada vez mais, a cederem o rigor dos conceitos das ciências sociais às facilidades demagógicas das palavras de ordem do momento político, acobertadas pela fácil justificativa da obrigação pastoral para com os mais pobres. Convidado pelo Pe. Ávila, no início dos anos de 1970, para falar sobre a situação brasileira, o professor Isaac Kerstenetsky, mestre de toda uma geração de economistas brasileiros, então Presidente do IBGE, disse à Assembléia Episcopal: “nos dias de hoje, na sociedade complexa e interdependente em que vivemos, para fazer o bem, não basta ter o coração do lado certo: - é preciso ser competente”.
Depois da sua atuação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, fundando a Escola de Sociologia e Política, embrião do atual Centro de Ciências Sociais da PUC RIO, da assessoria à CNBB, da assessoria à Arquidiocese do Rio de Janeiro, dos indiciamentos nas ridículas Comissões Especiais de Inquérito dos governos militares, das mediações sigilosas visando a abertura política e a consolidação da liberdade, da Fundação do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento – IBRADES, da sua eleição para o venerando Instituto Histórico e Geográfico, da eleição para a Academia Brasileira de Letras, das edições e reedições dos seus numerosos livros e artigos, o que mais se pode dizer sobre este padre?
Nenhuma dúvida sobre sua vocação e fé. Nenhuma contestação sobre a missão da sua Igreja. Nenhuma vacilação sobre o caminho que ainda lhe resta trilhar como sacerdote jesuíta. Apenas uma estória corajosa e honesta de alegrias simples, de satisfações ingênuas, de estudos, da aceitação de uma rígida disciplina não aceita com tranqüilidade por uma mente brilhante, de muita solidão, de sofrimentos e de tristezas, são as narrativas vocês irão encontrar neste livro. Talvez muitos venham a descobrir, pela leitura deste trabalho, que um sacerdote é um ser humano igual aos demais, que dedica a sua vida ao próximo pelo amor a Deus. Têm, apenas, como conforto, estímulo e inspiração, para as suas vidas a tênue e difícil percepção da infinita felicidade que lhes oferece a esperança do Supremo Encontro – o único refugio seguro para a superação das angustias, a permanente e exclusiva fonte revigoradora da fé que os anima, que a tudo faz compreender e aceitar.
O meu amigo, aos 86 anos, tem a coragem de abrir seu coração integralmente e contar o que foi a história da sua vida. Talvez ajude as novas vocações, consolide antigas opções ou anime afastamentos dignos daqueles que não querem prosseguir ou sabem que não suportarão o que exige o convite do Senhor para a obra de propagação do Evangelho. Não são lamurias, nem irritações, não são lagrimas gratuitas, não são recordações piegas: é a própria essência da vida de alguém que se dedicou a servir, com fidelidade e amor, ao Pai Nosso.
Teilhard de Chardin, a quem o Pe. Ávila dedica especial apreço, escreveu a oração que trancrevo:


“Quando no meu corpo (e muito mais no meu espírito)
começar a notar-se o desgaste da idade,
quando se precipitar sobre mim, de fora,
ou nascer em mim, por dentro,
o mal que apouca ou aniquila,
no momento doloroso em que subitamente
tomar consciência de que estou doente
ou estou velho,
nesse momento derradeiro sobretudo em que
eu sentir que escapo a mim mesmo,
                                absolutamente passivo nas mãos
das grandes forças desconhecidas que me formaram
em todas essas horas sombrias,
dai-me, meu Deus,
o compreender que sois vós
(contanto que minha fé seja assaz grande)
que afastais dolorosamente as fibras do meu ser
para penetrardes até a medula da minha substância,
para me levardes para vós”.

Eurico de Andrade Neves Borba
Ana Rech – RS, março de 2004.
Eurico de Andrade Neves Borba
Enviado por Eurico de Andrade Neves Borba em 21/03/2009
Código do texto: T1499133
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Eurico de Andrade Neves Borba
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 73 anos
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