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SEGREDOS DA FELICIDADE- 9. Trabalho

9.TRABALHO


Dizem que para se realizar, o homem precisa de trabalho. Assim, sente-se útil, produtivo, honrado.
Quando meu terceiro filho nasceu, eu resolvi que tinha de ir à luta. Não que nada fizesse antes, pois sempre “inventei moda” para ganhar algum em casa, mas não dava muito certo. Achei por bem então procurar um emprego regular, para sustentar meus filhos, já que o pai deles não se preocupava muito com isso. Como eu tinha então vinte e três anos, era “bonita”, “inteligente” e saudável, deixei de amamentar meu filho (então com apenas 6 meses) para ir procurar emprego, com muito pouco dinheiro apenas para a condução. No último dia de procura, pois tinha-se acabado todo o dinheiro, foi o pior de todos. Andei como uma penitente, vazando leite, embaixo de um terrível sol, com muita fome e sede, e dores nas pernas por tanto andar, que estavam quase me dando cãibras. Mas consegui um emprego temporário, sem registro, mas perto de minha casa, através do qual consegui depois um outro registrado e com bom salário.
Trabalhava com afinco, o tempo todo; e quando meu setor estava “devagar”, procurava serviço nos outros departamentos, pois não podia ficar sem fazer nada, acostumada que estava com o “trabalho do lar” e principalmente o integral de mãe. Era compulsiva, e muito eficiente. Mas não vi felicidade nenhuma. Tinha hora certa para sair de casa a fim de pegar o ônibus que não podia perder para poder bater o cartão na hora certa, e várias vezes deixei meus pequenos chorando, pedindo colo, pedindo para mamar, precisando trocar as fraldas, querendo amor. Saía de casa às seis e quinze no máximo, para poder pegar o das seis e meia, e voltava às dezoito e trinta, moída, amargurada. Ia então fazer a janta, e quase sempre jantava sozinha, pois meus pequenos ou já estavam alimentados, e meu marido, por aí com seus amigos. Quando tinha uma empregada (que acabava ganhando mais do que eu), pois quando não tinha, era preciso dar-lhes banho, arrumar suas camas, lavar a louça e fazer o que comer para nós. Digo que ela ganhava mais do que eu porque ela chegava à hora que eu saía, mas saía bem antes que eu chegasse. Na época, eu ganhava dois salários mínimos e meio, e ela recebia um e meio. Mas meus filhos eram banhados, alimentados corretamente, nossas roupas lavadas e passadas e a casa limpa. Para que eu ganhasse mais, o que precisava urgentemente, era necessário estudo. Afinal, no Brasil, mulher de mais de vinte e cinco anos sem estudo só serve para a linha de produção com baixo salário. E em breve eu completaria essa idade, e como parei meus estudos antes do então Colegial (hoje secundário), não tinha tempo a perder. Matriculei-me no curso noturno da escola pública e fui estudar.

Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 29/08/2006
Código do texto: T227652

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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
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12 áudios (4784 audições)
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Edilene Barroso