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SEGREDOS DA FELICIDADE- 10. Estudos




“Para ser alguém na vida, é preciso ter estudo”. Frase muito antiga, falada a mim já por meus avós, e muito repetida durante a vida. Pois bem, vamos ao colégio. Meus primeiros dias foram de horror. Eu sempre fui uma das primeiras alunas da classe mais “forte” no meu tempo. Eis a questão: no meu tempo.
Já tinha se passado dez anos desde que eu deixara os estudos, e me sentia uma velha no meio daquela criançada de dezessete anos em média, pois eu tinha vinte e quatro, marido e três filhos.
Será que eu ainda saberia alguma coisa depois de tanto tempo? Tirando a matemática, que foi muito fraca no meu anterior último ano, e eu não sabia extrair raiz quadrada e nunca tinha ouvido falar em “fórmula de Báskara”, o resto foi uma recapitulação do que eu já tinha aprendido.
Fui ficando mais confiante ao ver que a educação recebida dez anos antes era mais forte do que eu estava recebendo agora, e com agravantes; faltavam professores para várias matérias, e outros eram tão fracos que nada ensinavam. Ao final do primeiro ano, no meu balanço, eu me vi lesada. Não tive aulas de Física, só tive quatro meses de Química, péssimas aulas de Geografia, nada de novo em Inglês, e muita dificuldade na vida. Chegava em casa do serviço e tinha que me decidir por banho ou comida; não dava tempo para os dois, pois as aulas começavam às dezoito e cinqüenta. Geralmente isso era decidido pelo tempo: se estava calor, era melhor o banho, se estava frio, a comida. Sorte minha que a escola ficava a poucos quarteirões, ou nem daria tempo de ir para casa, levar o leite e o pão para as crianças, para o dia seguinte. As aulas acabavam às vinte e três e quinze, a padaria já estava fechada, e meus filhos, na casa da avó, dormindo. Chegava, abria a casa, preparava as cobertas e deixava o material escolar, e ia buscá-los. A casa da avó era bem em frente à minha, e tirando os trinta e tantos degraus e atravessar a rua que levava de uma casa a outra, era bem perto, pensando no antigo morro que eu subia e descia com os três (sendo que o menino era bebê e a segunda mal andava) quando comecei a trabalhar e a avó não podia cuidar deles. Quando meu cunhado estava em casa e me ajudava, era uma vez só; quando não, duas, pois a primeira filha era muito grande para eu carregar e ia andando dormindo, abraçada a mim.
Eu ia dormir por volta das uma hora da manhã, para acordar às dez pras seis e começar um novo dia. Para “ajudar”, bateu um ciúme doentio de meu marido em relação a mim, pois como eu vivia esgotada mental e fisicamente, e nada satisfeita com ele como marido e pai, que em nada ajudava, nossa vida conjugal se deteriorava cada vez mais. Como resultado, ele começou a me ameaçar, e dava sermões intermináveis pela madrugada adentro, e só me dava paz pra dormir às três e meia, quatro horas. Mas chega desse tipo de recordações. O que eu realmente quero dizer é que eu não estava aprendendo nada que valesse tanto sacrifício, e pensei em fazer um supletivo ou algo assim, para concluir o secundário.
Mas os novos amigos da escola, principalmente os professores, me incentivavam a continuar, dizendo que no próximo ano seria melhor...
E depois dessa crise no casamento, que eu relatei para que entendessem o que veio a seguir, meu marido finalmente reagiu, começou a trabalhar e ganhar bem, e me pediu que parasse de trabalhar. Até manteve a empregada, que era maravilhosa, para me poupar e restabelecer minha saúde, e nosso casamento. Saí do emprego feliz, verdade seja dita, pois não é nada bom trabalhar fora com filhos pequenos. Aliás, não é nada bom trabalhar para os outros, muito menos grandes empresas, onde a competição, a falsidade e a pressão são constantes.
E a danada da professora de Psicologia, quando questionada por que só ricos faziam análise, me sai com a resposta que “o trabalho dignifica e engrandece o homem”, e como os ricos não têm trabalho “de verdade”, ficam com problemas psicológicos... Pode uma coisa dessas???
Como meu marido estava ganhando bem, imaginei que meus problemas com a felicidade seriam então resolvidos, pois pelo que percebi nos dois outros anos de escola, fiz bem em não ter perdido meu tempo antes com os estudos. Quem realmente quiser aprender, tem que estudar por si mesmo, pois o estudo em nosso país é deprimente... como disse um professor que conheci: “Os alunos não querem aprender, e os professores não querem ensinar”.
E então, talvez o que trouxesse felicidade seria o dinheiro?
Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 29/08/2006
Código do texto: T227653

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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
192 textos (21461 leituras)
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 08:21)
Edilene Barroso