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     João Simões Lopes Neto, escritor regionalista gaúcho 

João Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas, em 9 de março de 1865, na Estância da Graça, que era propriedade de seu avô paterno, João Simões Lopes Filho, o Visconde da Graça. Viveu na estância até 1876, quando foi para Pelotas.

Em 1878, aos treze anos, foi para o Rio de Janeiro para estudar no famoso Colégio Abílio, dirigido pelo Barão de Macaúbas. Esse é o colégio que serve de cenário para o livro de Raul Pompéia O Ateneu, e o Barão é o personagem Aristarco, dono do colégio. Parece que ele freqüentou até o terceiro ano da Faculdade de Medicina, do que nunca houve provas.

Retornando ao Sul, foi para Pelotas, que era uma rica e próspera cidade devido às charqueadas que constituíam sua base econômica. Nesta cidade dinâmica e aristocrática, com idéias audaciosas, envolveu-se em vários negócios. O primeiro foi a criação de uma fábrica de vidros, cujos operários eram franceses e os aprendizes, meninos pobres; depois teve participação na montagem de uma destilaria, ambos fracassaram, pois a década de 1890 foi marcada pela devastadora guerra civil no Rio Grande do Sul, e a economia local fora duramente abalada. Também construiu uma fábrica de cigarros. Os produtos, fumos e cigarros, receberam o nome de "Diabo", "Marca Diabo", o que gerou protestos religiosos. Montou ainda uma firma para torrar e moer café, e desenvolveu uma fórmula à base de tabaco para combater sarna e carrapatos, a tabacina. Fundou ainda uma mineradora para explorar prata em Santa Catarina. Foi enganado por um ferreiro que lhe tirou muito dinheiro.

Em 1892, aos 27 anos, casou-se com Francisca de Paula Meireles Leite.

Empobrecido, João Simões dedicou-se ao jornalismo, graças ao qual pôde sobreviver, passando por vários estágios dentro da profissão: cronista, redator, editorialista, secretário da redação, folhetinista e diretor. No jornal, escrevia seus relatos, em uma linguagem que fugia dos padrões reconhecidos na época. Ninguém percebia a sua importância literária. Não foi um grande jornalista, o que ele produziu nada mais é que “uma literatura de circunstância”.

Em 1895, criou a coluna Balas d'Estalo no Diário Popular, jornal de seu tio, que manteve até 1913.

De 15 de outubro a 14 de dezembro de 1893, J. Simões Lopes Neto, sob o pseudônimo de Serafim Bemol, em parceria com Sátiro Clemente e D. Salustiano, escreveu, em forma de folhetim, A Mandinga, poema em prosa no Correio Mercantil. A existência de Sátiro Clemente e D. Salustiano é duvidosa, ambos seriam o próprio Simões Lopes Neto, pois em toda obra está o seu estilo inconfundível.

Entre 1895 e 1913, reestabeleceu a coluna Balas d'Estalo no Diário Popular.

Em 1913 e 1914, sob o pseudônimo João do Sul, assinou as crônicas de Inquéritos em Contraste nas páginas de
A Opinião Pública.

Em 1914 e 1915, foi diretor do
Correio Mercantil.

Em 1916, voltou para A Opinião Pública com a coluna Temas Gastos.

Além de trabalhar como jornalista, João Simões Lopes Neto exerceu outras atividades na sua cidade: foi conselheiro municipal entre 1896 e 1900; participou da diretoria de diversas entidades, como União Gaúcha, que ajudou a fundar em 1899 e do qual foi presidente por dois mandatos, assim como da Biblioteca Pública Pelotense. Além disso, foi professor e capitão da Guarda Nacional.

Em 1910, ingressou na Academia de Letras do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre como fundador.

Em 14 de junho de 1916, morreu em Pelotas, aos cinqüenta e um anos, de uma úlcera perfurada.

Como escritor, ele é considerado o criador do regionalismo gaúcho, pois o seu tema é o pampa do Rio Grande do Sul e emprega com abundância termos regionais gaúchos. É intensa a valorização histórica do gaúcho, apresentando fidelidade aos costumes crioulos e à linguagem. Atualmente, J. Simões Lopes Neto e sua prosa ultrapassam os limites territoriais e expressam uma visão do mundo, o que torna sua literatura universal. Como prova disso, podemos encontrar traduções de sua obra em italiano, espanhol, inglês e até japonês. Segundo muitos críticos literários, é o maior autor regionalista do Rio Grande do Sul.

Sua obra resume-se em apenas quatro títulos: Cancioneiro guasca (1910); Contos gauchescos (1912); Lendas do Sul (1913); Casos do Romualdo (1952 - edição póstuma).

Referências
http://pelotas.ufpel.edu.br/simoeslopes.html
http://www.paginadogaucho.com.br/escr/lopesneto.htm
http://educaterra.terra.com.br/literatura/premodernismo/2003/12/02/002.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Sim%C3%B5es_Lopes_Neto

Do livro Contos Gauchescos
 
ARTIGOS DE FÉ DO GAÚCHO 

Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem porque vêem os outros viverem.
Alguns aprendem à sua custa, quase sempre já tarde pra um proveito melhor. Eu sou desses.
 
Pra não suceder assim a vancê, eu vou ensinar-lhe o que os doutores nunca hão de ensinar-lhe por mais que queimem as pestanas deletreando nos seus livrões. Vancê note na sua livreta: 

1. Não cries guaxo: mas cria perto do teu olhar o potrilho pro teu andar.
2. Doma tu mesmo o teu bagual: não enfrenes na lua nova, que fica babão; não arrendes na miguante, que te sai lerdo.
3. Não guasqueies sem precisão nem grites sem ocasião: e sempre que puderes passa-lhe a mão.
4. Se és maturrango e chasque de namorado, mancas o teu cavalo, mas chegas; se fores chasque de vida ou morte, matas o teu cavalo e talvez não chegues.
5. A maior pressa é a que se faz devagar.
6. Se tens viajada larga não faças pular o teu cavalo; sai ao tranco até o primeiro suor secar; depois ao trote até o segundo; dá-lhe um alce sem terceiro e terás cavalo para o dia inteiro.
7. Se queres engordar o teu cavalo tira-lhe um pêlo da testa todas as vezes da ração.
8. Fala ao teu cavalo como se fosse a gente.
9. Não te fies em tobiano, nem bragado, nem melado; pra água, tordilho; pra muito, tapado; mas pra tudo, tostado.
10. Se topares um andante com os anelos às costas, pergunta-lhe — onde ficou o baio?...
11. Mulher, arma e cavalo do andar, nada de emprestar.
12. Mulher, de bom gênio; faca, de bom corte; cavalo de boa boca; onça, de bom peso.
13. Mulher sardenta e cavalo passarinheiro... alerta, companheiro!...
14. Se correres eguada xucra, grita; mas com os homens, apresilha a língua.
15. Quando dois brincam de mão, o diabo cospe vermelho...
16. Cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala fina… sempre de relancina...
17. Não te apotres, que domadores não faltam...
18. Na guerra, não há esse que nunca ouviu as esporas cantarem de grilo...
19. Teima, mas não apostes; recebe, e depois assenta; assenta, e depois paga...
20. Quando ‘stiveres pra embrabecer, conta tres vezes os botões da tua roupa...
21. Quando falares com homem, olha-lhe para os olhos, quando falares com mulher, olha-lhe para a boca... e saberás como te haver...

Que foi?
Ah! quebrou-se a ponta do lápis?

Amanhã vancê escreve o resto: olhe que dá para encher um par de tarcas!...

http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/gauchescos.html

Mardilê Friedrich Fabre
Enviado por Mardilê Friedrich Fabre em 23/09/2006
Reeditado em 27/09/2006
Código do texto: T247370
Classificação de conteúdo: seguro

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