GIL VICENTE

E as raízes do teatro em língua portuguesa

   Os enigmas sobre a vida de Gil Vicente, considerado o maior dramaturgo português – com grande influência sobre a literatura brasileira – e o mais importante poeta daquele país até o surgimento de Camões, são muitos. Não se sabe, ao certo, data, local e até mesmo o ano de nascimento e morte. Especula-se que tenha nascido em 1465 e morrido em 1537. Nesses anos, que coincidem com o fim da Idade Média e o início das grandes navegações, Gil Vicente desfrutou de prestigio na corte e grande popularidade.
   Muito das dúvidas sobre o dramaturgo Gil Vicente vêm da confusão feita por um biógrafo, que o identificou com um homônimo, que era ourives. A versão mais correta aponta o escritor como instrutor de retórica de D. Manoel. A partir de 1502, passar a trabalhar para D. Leonor, viúva de D. João II, atuando como organizador de festejos reais de nascimentos e casamentos, datas comemorativas cristãs e recepções a reis de outras nacionalidades. Conta-se que no nascimento de D. João III, em 6 de junho de 1502, Gil Vicente apresentou à corte seu primeiro texto, o “Auto da visitação (ou Monólogo do Vaqueiro)”, para a rainha-mãe, D. Beatriz, e vários integrantes da família real – vestido de vaqueiro e contando bravatas.
   O teatro de Gil Vicente sofreu influência dos espanhóis Juan Del Encina e Bartolomé de Torres Naharro. As peças vicentinas – de acordo com a compilação publicada por seus filhos Luis e Paula, em 1562 – é composta por 44 peças em português, castelhano e bilíngues, que podem ser classificadas em peças de caráter religioso (como o próprio “Monólogo do Vaqueiro”, “Auto dos Reis Magos” e a “Trilogia das Barcas”), peças cavaleirescas (é o caso de “Auto da Fama”, “Cortes de Júpiter” e outras) e peças populares, que traziam gente do povo como personagens principais (“Auto da Índia”, “Farsa de Inês Pereira”, etc.). No entanto, parte da obra original do dramaturgo teria se perdido quando foi organizada a compilação.
   Sabe-se que o autor teve participação em polêmicas importantes, como sair em defesa dos judeus e cristãos-novos diante da Igreja Católica. Foi casado duas vezes. Três cidades disputam a honra de se afirmarem o berço de Gil Vicente – Guimarães, a mais provável, Lisboa e Barcelos. Estudado nas escolas de países de língua portuguesa como um dos pais da sua literatura, Gil Vicente é mais um personagem que beira o lendário que – graças à habilidade para destrinchar a sociedade de sua época em peças de teatro – continua atual.

(Parte da coletânea GENTE DE TEATRO, de William Mendonça. Direitos reservados.)