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SOLIDARIEDADE VENCE A FOME

Este texto é seqüência do texto "O PÃO NOSSO DE CADA DIA..."

Há alguns dias eu tinha decidido voltar de São Paulo a São Leopoldo, há trinta e cinco quilômetro de Porto Alegre, nem que fosse a pé. Na metade do mês de novembro de 1980, um Sábado a tarde, eu tinha saído da casa de meu pai, indo até São Paulo, onde chegara na semana anterior com dois catarinenses, companheiros de jornada desde Curitiba. No mesmo dia que chegamos também decidimos voltar e no dia seguinte eles tomaram carona para casa, me deixando na marginal Tietê e desde então eu caminhava rumo ao Rio Grande do Sul, pedindo comida nos restaurantes e lancherias e dormindo nas varandas das borracharias. Tinha começado pedindo pão velho e mesmo no primeiro armazém que pedi já ganhei pão novo. Já, ao meio dia daquele mesmo dia, numa lancheria, solidário, o dono me preparou um tremendo sanduíche de pão caseiro. Por causa disso, eu tinha mudado minha solicitação, deixando de pedir pão velho e pedindo “algum alimento que tivesse sobrado”. Então me serviam “prato feito”, muito bem servido, às vezes, acompanhado de refrigerante. Tudo de graça, pois não tinha mesmo como pagar.
Estava próximo, ou já chegara, o mês de fevereiro de 1981. Com apenas uma carona de um quilômetro, que peguei de uma Rural, eu tinha deixado para trás todas as cidades da Região Metropolitana de São Paulo, estando então em Juquitiba. Nos últimos dois dias não tinha pedido comida, haja vista que no penúltimo o percurso do dia fora cercado de goiabeiras. Como sempre gostei muito de goiabas, comi-as durante todo o dia, tendo que me afastar da estrada apenas alguns metros para apanhá-las e já no final do dia e no dia seguinte meu intestino estava bem ressequido, dificultando o defecar. No dia seguinte, porém, o percurso esteve cercado de pés de mamão papaia logo a beirada da estrada. Então comi mamão o dia inteiro e logo cedo começou a desfazer-se secura do intestino.
No terceiro dia levantei bem cedo, pondo-me logo a caminhar e durante toda a manhã não vi pelo caminho lugar propício para pedir algum alimento. Por isto a caminhada rendeu e mesmo ao meio-dia não encontrei o que comer. No início da tarde estava cansado e fraco, então deitei num belo gramado sombrio a margem da rodovia e dormi alguns minutos, tentando ignorar os ruídos mais estridentes dos carros. Depois segui caminho, vendo, num aclive suave da estrada, há uns trinta metros a direita, uma casa de alvenaria um pouco rústica, não como um casebre, mas parecendo uma casa de campanha, onde pareceu-me funcionar um bar, ou armazém. Fui até a casa com a intenção de pedir água a fim de abrir caminho para pedir algum alimento, nem que fosse pão velho mesmo. Ao entrar, próximo a porta, à esquerda, junto a um balcão de granitina, entre este e uma pequena mesa de madeira, vi um senhor branco, um pouco queimado, magro, aparentando uns sessenta anos, reclinando em uma cadeira de palha, fumando seu palheiro. Atrás do balcão, vi uma senhora branca, um pouco queimada, aparentando uns cinqüenta anos, com um lenço cobrindo parte dos cabelos desgrenhados de crespos e mal tratados. A direita, sobre o piso queimado, havia umas duas mesas juntos as quais vi alguns homens também simples, com aparência de trabalhadores duros, que conversavam e aperitivavam calmamente.
Ao entrar e ver tamanha simplicidade e pobreza me arrependi de ter me dirigido ao local tencionando pedir ajuda a gente mais pobre do que eu. Por isto, querendo disfarçar, pedi água, pretendendo sair logo e seguir caminho. Todavia, enquanto bebia a água e todos me olhavam, a mulher perguntou de onde eu vinha e para onde ia. Disse que de São Paulo, ia para Porto Alegre. Disse assim porque imaginei que pessoas tão simples jamais teriam ouvido falar de São Leopoldo. Todos me olharam curiosos e a mulher perguntou o que era Porto Alegre. Aos ouvidos atentos, respondi que era a Capital do Rio Grande do Sul, um Estado do Brasil, assim como o Estado de São Paulo. Mas, não satisfeita, ela perguntou se havia mesmo um Estado chamado Rio Grande do Sul. Para responder-lhes, perguntei se sabiam de algum outro Estado além de São Paulo. Responderam que sabiam do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais... Expliquei-lhes então que o Rio Grande do Sul era um Estado como esses e Porto Alegre era sua Capital, sendo que ele era conhecido como “celeiro do Brasil”, pois lá se produziam grandes colheitas que abasteciam boa parte do País. À pergunta de onde ficava Porto Alegre e como fazer para chegar, respondi-lhes que bastava pegar a estrada em frente, indo rumo à direita, para o sul, e rodando de carro uns dois dias chegaria. Se fosse a pé, talvez em uns vinte e cinco, trinta dias chegaria. Imaginei que fosse assim, pois já conseguira fazer uma média de cinqüenta quilômetros a pé num dia.
Ficaram impressionados com a explicação. Respondi-lhes que desde a Capital, São Paulo, tinha pego apenas uma carona de um quilômetro e chegara até ali. A esta altura, vi que a mulher picava mortadela em um pão francês de quinhentos gramas aberto e recheado de margarina. Segui respondendo às muitas perguntas que me faziam interessados nas novidades. Contei-lhes como eram as pessoas e os costumes no Rio Grande do Sul. Falei-lhes das tradições gauchescas, das músicas, dos trajes típicos, da cidade onde morava, próxima a Porto Alegre, e como era a  Capital do Estado. Enquanto ia falando, a senhora me deu aquele pão, que eu fui devorando enquanto ela servia café preto de uma garrafa térmica.
Por fim, o bar estava cheio. Alguém tinha saído e voltado com outras pessoas curiosas. Vendo que estavam encantados, segui falando e satisfazendo suas curiosidades, percebendo como ficavam felizes. No final, quando decidi ir embora, pois esgotara o repertório, a senhora me alcançou um punhado de moedas graúdas e cédulas de papel que eu tinha visto ela arrecadar dos presentes enquanto eu falava. Muito emocionado por esse gesto tão solidário de gente tão humilde e desconhecida, recusei aceitar o dinheiro, agradecendo pelo tanto que eles já tinham me ajudado me dando água, pão e café. Mas o senhor sentado perto da porta disse que não precisava me acanhar, que não era vergonha nenhuma aceitar, sendo que eles queriam que eu levasse o dinheiro para ter o que comer no caminho. A senhora reforçou dizendo que eles estavam muito felizes de terem me recebido e tomado conhecimento de tanta coisa e o dinheiro era um presente para que eu nunca mais me esquecesse deles. Disse-lhes que independente do presente jamais os esqueceria.
Com um impulso de choro, saí muito feliz sob seus muitos protestos de boa sorte e recomendações de cuidado no caminho. Tomei a estrada à direita novamente, atacando mais alguns carros, que passavam com lotação completa. Ainda antes de terminar o aclive, me deparei com um posto da Polícia Rodoviária. Apesar de saber que dificilmente concordariam em me conseguir carona, decidi solicitar ao policial de plantão que arranjasse alguma, já que podia atacar os carros e eles parariam. Ele respondeu que seria difícil, posto que era domingo, dia em que os motoristas viajam com a família, por isto os carros passavam lotados. Mas disse que tentaria mesmo assim, mandando que esperasse no restaurante do posto de combustíveis ao lado, pois ele me chamaria quando conseguisse.

Wilson Amaral
Wilson do Amaral Escritor
Enviado por Wilson do Amaral Escritor em 24/09/2007
Reeditado em 06/02/2008
Código do texto: T666464
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Sobre o autor
Wilson do Amaral Escritor
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 51 anos
1160 textos (265315 leituras)
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