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Os Olhos de um Menino Triste (Kurt Donald Cobain)

Os Olhos de Um Menino Triste

Vinte de fevereiro de 1967. Os Beatles já encantavam o mundo há mais ou menos sete anos; Hitler há vinte e dois anos, deixava a vida para se tornar uma mancha negra no passado de um mundo que respirava, agora, o tenso ar de uma Guerra Fria. Era ouvida, pela primeira vez, a voz de Kurt Donald Cobain, como um choro; um pequeno sopro de esperança e vida; os primeiros silvos de um pássaro se perdendo em lembranças, em trechos da música da vida que imagem alguma poderia explicar.
   
O mundo parecia estar muito além do choro de um simples bebê. As selvas de pedra cada vez maiores. Tudo cada vez menos verde, ganhando um triste e apático tom cinzento. As pessoas deixavam de serem elas mesmas, para viver segundo o que pregavam as televisões e revistas, se prendendo a ilusória liberdade de seguir tendências. A cada dia, a vida se tornava menos natural, tudo fabricado para vender mais, para atrair olhares de desejo e alimentar a ganância humana.
Aberdeen, localizada no Estado de Washington, Estados Unidos, estava tranqüila. Uma pequena cidade de interior, que vivia, principalmente, da indústria madeireira. Parecia um lugar perfeito para os Cobain. Donald era mecânico, Wendy garçonete. Levavam uma vida razoavelmente tranqüila, uma família de classe média americana, que acabava de ganhar seu primeiro filho, Kurt, um garotinho loiro, de olhos azuis, uma criança sorridente e hiper-ativa, que aos dois anos já mostrava um grande interesse em pintura e música. Dois dos discos que mais gostava eram um dos Monkes, e um dos Beatles que uma tia lhe dera.
Aos três anos Kurt já mostrava uma coisa que mostraria por toda sua vida: não gostava de policiais. Quando os via ele cantava: “Xingue os policiais. Xingue os policiais. Os policiais estão vindo. Eles vão te matar.”.
Os dias pareciam curtos demais para ele. Corria pela casa, cantando, rindo sem parar. Sua hiper-atividade começava a preocupar seus pais, que resolveram leva-lo num médico. Este foi seu primeiro encontro com as drogas. Kurt tinha que tomar um remédio à base de morfina, chamado Ritalin, para que ele ficasse menos desperto e poder e dormir. As risadas, a cantoria, pouco a pouco, foram se tornando silêncio. O garoto agora se limitava a desenhar, ouvir música e tocar a pequena bateria do Mickey Mouse que havia ganho de seus pais aos sete anos de idade.
Começou a freqüentar a escola. Era um garoto tímido e seu talento artístico o destacava. Passava horas e mais horas desenhando, porém nunca gostava de nenhum de seus desenhos, para ele eram uma porcaria sem tamanho.

“Estúpido

Não sou como eles,
Mas eu posso fingir.
O sol se foi,
Mas eu tenho uma luz.
O dia acabou,
Mas estou me divertindo.
Acho que sou estúpido
Ou talvez seja apenas feliz.”.

O sol passeava tranqüilo, como em todos os outros. As pessoas caminhavam nas ruas. Pensamentos voando por todos os lugares. Palavras se desprendo dos lábios de uns, chegando aos ouvidos dos outros. O mundo girava sem preocupação, mas não para Kurt, seu mundo acabara de parar. Tudo mais não parecia fazer qualquer sentido, o vento soprava lá fora e os pássaros cantavam lá fora, mas ele não os notava, sequer podia notar sua própria respiração. Sua mente pousara num terreno fétido e hostil, onde não se podia ver um horizonte, tudo eram trevas. Uma única palavra ecoava em sua mente como marteladas num quarto escuro e vazio: “Divórcio”.
Donald e Wendy já não se amavam. As brigas tomavam conta dos dias da família. Kurt olhava para o céu, seus olhos tinham agora um azul triste e vazio, eram como um lago onde uma grande pedra havia sido atirada.
Pequenos fragmentos de poesias se juntavam na vida dele. A cada dia ele ficava mais quieto, mais recluso, já não parecia a mesma criança que sorria quase o tempo todo, era como se este Kurt tivesse se perdido num passado longínquo, esquecido num lugar onde ninguém poderia encontrá-lo.
Aos nove anos ele começou a ter aulas de bateria. Ouvia música e desenhava todos os dias. Não tinha um amigo com quem dividir seus pensamentos, ninguém a quem contar seus sonhos.
A vida continua. Um livro do qual alguém vira para a próxima página. Palavras e mais palavras. Sentimentos, sonhos, lembranças. Pedaços de uma existência. Fragmentos de uma alma. Triste como um desenho sem cores; frio como um dia sem sol; longo como um livro monótono e sem graça, a vida apenas continua.
Num certo dia Wendy volta para casa com um sujeito, que Kurt, carinhosamente, apelidaria “Um esquizofrênico paranóico”, e também “O grande e cruel surrador de esposas”, seu nome era Patt o’Connor, o novo namorado de sua mãe.
Sua mãe tinha um novo namorado, seu pai também tinha uma nova família, ele parecia ser o único que não tinha ninguém. Andava sozinho, brincava sozinho; na escola não tinha amigos, porque não se ligava em esportes e a maioria dos garotos de sua idade praticava esportes enquanto ele preferia desenhar ou ouvir música.
Chega a adolescência. Hormônio em ebulição, medos, frustrações, tempo de descobertas e o garoto parecia estar cada vez mais só. Na escola falava pouco, geralmente com meninas, já que para os outros garotos apenas interessavam aqueles que praticavam esportes.
Aos doze anos ele começou a ter acesso a música de varias bandas, seu pai havia entrado num clube de discos e nesta época o garoto começava a mudar-se periodicamente de casa. Seis meses com o pai, seis meses com a mãe, fora o tempo que passava na casa dos outros parentes, o que tornava quase impossível para ele estabelecer um laço de amizade com alguma pessoa, já que ele poderia não estar lá no dia seguinte.
Continuava inconformado com o divórcio, mas não havia nada que ele pudesse fazer para resolver isso. Ia de uma casa para outra, mas nunca sentia estar num lar. A família de seu pai não era sua família. O novo namorado de sua mãe também não.
A adolescência segue como o universo. Horizontes se expandindo. Novos mundos, de repente, descobertos, vagando lentamente em nossas mentes. Cada dia, cada lágrima, cada sorriso é uma nova lição.
Na solidão de quartos escuros ele se sentia seguro. Não havia um monstro no armário, nem as pessoas do mundo real para lhe atormentar, ele podia ir e vir livremente, podia estar aqui, lá; podia estar em qualquer lugar ou em lugar nenhum, podia vagar sem rumo no universo de sua mente.

 
Um dia como qualquer outro, Kurt tem uma escolha a fazer: uma bicicleta ou uma guitarra? Pra que tocar guitarra, se o que ele realmente queria era tocar bateria? Depois de pensar, ele escolheu a guitarra, e seu tio Chuck lhe dera uma Fender Mustang no dia em que ele fazia quatorze anos.
Amor ao primeiro toque. Kurt parecia ter encontrado uma parte de si mesmo, há muito perdida. Começara a fazer aulas e em uma semana e meia já tocava uma música do AC/DC, mas ele queria mais, treinava exaustivamente, a solidão era a única que seguia acompanhando-o, o que preocupava muito sua mãe que já estava achando seu isolamento algo muito preocupante.
Um murmúrio chega aos ouvidos do garoto: Punk? Ele nunca tinha ouvido nisso, mas o nome lhe chamara a atenção. Começou a pesquisar até encontrar uma revista que lhe esclareceria, muito pouco, sobre o que era Punk Rock. Kurt pegou sua guitarra e começou a criar seu próprio Punk: “três acordes e muita gritaria”, enquanto procurava ouvir bandas do estilo, conhecendo assim os Ramones, Sex Pistols, etc.
Kurt, numa ida à Seatle viu o show de uma banda chamada The Melvins, que tocavam Punk Rock, em seu diário ele registrou o entusiasmo de assisti-los: “Eles tocavam mais depressa do que jamais imaginei que se pudesse tocar música e com muito mais energia que os meus discos do Iron Maiden. Era isso que eu estava procurando. Ah, Punk Rock! Os outros doidões estavam entediados e só ficavam gritando ‘Toquem alguma do Deff Lepard’. Meu Deus, odiei aqueles pentelhos mais do que nunca. Cheguei à terra prometida do estacionamento de um Supermercado e descobri meu objetivo especial.”.
A alegria de encontrar algo de que realmente gostava se chocava com a frustração de se sentir um alienígena, perto dos outros adolescentes, por não ser como elas. Ele via o sol se pôr, via o sol nascer e nem mesmo a lua lhe fazia companhia nas noites frias e chuvosas.
Desenhava, escrevia músicas e poemas e tocava sua guitarra. Criara seu mundo, mas não se pode viver num mundo só seu, por mais que se sinta seguro, tem de se viver no mundo que a sociedade cria; um mundo normal, onde a vontade dos grupos mais numerosos fala mais alto que a dos mais inteligentes. Ele podia parar. Podia ser um veterinário, um astronauta, um maluco qualquer largado num hospício, ou podia continuar, podia ser qualquer coisa que quisesse ser.
Em quatro anos ele passara por dez casas diferentes.
Um cara chamado Robert Novoselic certo dia chama Kurt para ir até sua casa. Lá chegando, os ouvidos de Kurt parecem reconhecer um som vindo de um dos quartos no andar superior. Percebendo a curiosidade do garoto, Robert lhe explica:
−É meu irmão. Ele vive ouvindo Punk Rock.
Essas palavras soaram como música aos ouvidos de Kurt, talvez pudesse finalmente encontrar um amigo que gostasse de fazer as mesmas coisas que ele.
Era um cara alto e um tanto desengonçado, aquele do qual todos riem e tentam fazer de bobo −quando os bobos na verdades são eles mesmos−, caminhava na escola. Ele era dois anos mais velho que Kurt e andava com um pessoal que não tinha nada a ver com ele. Kurt começou a conversar com ele. Um amplificador emprestado, idéias trocadas, poemas divididos e aí começava uma amizade, o nome dele, Chris Anthony Novoselic, a quem todos chamavam de Krist.
A amizade crescia com o passar dos dias. Kurt já não andava com os mesmos caras com quem costumava andar, que usavam camisetas do Kiss e fumavam maconha, Krist também já não andava com as outras pessoas com quem costumava andar por não ter qualquer lugar para onde ir. Agora tinham um ao outro.
Em 1985 Kurt gravou uma fita na casa de uma tia. Ele havia tocado todos os instrumentos e também feito todas as vozes. Era um presente que ele queria dar para Krist e que ele só tomaria coragem para entregar um ano depois.
Eles ia periodicamente a Seatle, onde podiam ver uns shows de que gostavam, principalmente dos Melvins, que também eram de Aberdeen e da qual Kurt conhecia os integrantes.
Kurt queria muito montar uma banda, mas já estava desistindo da idéia, porque não achava quem quisesse tocar com ele, até que Krist depois de ouvir a fita o chamara para começar uma banda. Deram início a banda, que ainda não tinha nome. Às vezes Kurt tocava guitarra e cantava, outras vezes ele tocava bateria. Krist tocava o baixo e qualquer um que pudesse se juntar à eles no dia, até que eles conheceram Aaron Buckhard que entrou na banda para tocar bateria.
Nesta época Kurt estava namorando uma garota chamada Tracy e sua banda tocava em pequenas festas nas cidades vizinhas. A banda, que ainda não tinha um nome, era mais conhecida como “a banda do namorado da Tracy”.
Kurt já não era tão só, mas ainda sentia estar num mundo distante, completamente diferente do mundo das outras. Tinha pessoas à seu redor, que o conheciam, que tinham afinidades com ele, mas continuava totalmente só.
A vida seguia; acordes destorcidos de uma guitarra gritando no horizonte silencioso. Um som que era a dissonante mistura de dor, loucura, esperança, solidão, angústia. Sentimentos confusos. Tolos trechos de um poema sem rimas.
A adolescência é um longo caminho sem volta. Você já não é mais uma criança e ainda não é um adulto. Já não pode agir de forma infantil e não tem a maturidade suficiente para tomar decisões ou agir como um adulto. Tudo é confuso. As pressões aumentam, a compreensão das coisas diminui e você tem de encontrar uma rua para seguir em meio aos milhares de caminhos que surgem diante de você.
Havia um lugar onde ele podia fugir de tudo isso em Aberdeen. Era quase um santuário para Kurt. Passava horas e mais horas sob aquela velha ponte. Os carros passavam, as pessoas caminhavam e ele apenas divagava em seus pensamentos.

“Alguma coisa no caminho

Debaixo da ponte
Apareceu um rasgo na lona.
E os animais que capturei
Se tornaram meus bichos de estimação.
E estou morando na grama.
E o teto está gotejando.
Mas comer peixes é legal,
Porque eles não tem nenhum sentimento.

Alguma coisa no caminho...”.

Havia alguma coisa no caminho de Kurt. Talvez boa, talvez ruim, talvez isso não tivesse qualquer importância. Kurt começava a conhecer mais tipos de drogas. Já havia experimentado maconha, fumava cigarros e também bebia, mas agora iria conhecer a cocaína. Mais tarde se encontraria com a heroína, a única coisa capaz de aliviar sua dor de estômago crônica e, também, a dor de sua alma.
A banda finalmente seria batizada: “Nirvana”, a beatitude budista, foi o nome que Kurt escolher depois de pensar muito.
Eles ensaiavam exaustivamente, até conseguirem assinar um contrato com uma pequena gravadora de Seatle, a Subpop, se mudando definitivamente para a cidade.
Gravaram seu primeiro álbum em 1989, fazendo uma vaquinha entre eles e pegando dinheiro emprestado com suas namoradas para pagar os 617 dólares que custaria a gravação.
O nirvana começava a ficar conhecido nas redondezas. A banda que antes só abria shows para as mais consagradas: Tad,The Melvins, Soundgarden; agora começava a chamar a atenção das pessoas. A intensidade com que se apresentavam no palco, uma vez ou outra destruindo os instrumentos, as introspectivas e subjetivas letras de Kurt, captando algo nos corações das pessoas. Tudo fazia a banda ter cada vez mais admiradores.
O grande poeta Lord Byron escrevera certa vez: “Na solidão é que estamos menos só.”, e isso parecia começar a fazer sentido. O rapaz que passar a vida toda tentando se aproximar das pessoas, sem nunca ter tido qualquer sucesso nisso, agora era procurado. O mesmo tipo de pessoas que, muitas vezes, o xingavam e agrediam na escola, agora tentavam se aproximar dele.

“Lítio
Estou tão feliz
Porque hoje encontrei meus amigos.
Eles estão em minha cabeça.
Sou tão feio,
Tudo bem, porque você também é.
Quebramos nossos espelhos.
Por mim toda manhã
Seria uma manhã dominical.
E não tenho medo
Acenda minhas velas
Num deslumbre, pois encontrei Deus.
Estou tão só,
Mas tudo bem porque raspei a cabeça.
E não estou triste.
E talvez eu seja culpado
Por tudo que tenho ouvido.
Mas não tenho certeza
Estou tão animado
Mal posso esperar para te encontrar.
Mas não me importo
Estou tão tarado
Mas tudo bem, minha intenção é boa.
Eu gosto
Não vou pirar
Sinto sua falta
Não vou pirar
Eu te amo
Não vou pirar
Vou te matar
Não vou pirar”

Os anos vão passando. De lá para cá em vans para se apresentar.
Desde o inicio da banda, Kurt não se sentia satisfeito com nenhum dos bateristas que haviam tocado com a banda. Em 1990 eles vão assistir ao show de uma banda de Hardcore, chamada Scream, e observaram o baterista, comentando: “Puxa, seria ótimo se tivéssemos um baterista assim!”.
Poucos dias depois este mesmo baterista iria bater à porta deles, a banda havia se separado e o baterista, Dave Eric Ghrol, precisava de uma outra banda para tocar e Buzz Osborne, um amigo que tinha em comum com Kurt lhe dissera que eles precisavam de um novo baterista. Dave foi até lá fazer o teste. O Nirvana agora estava pronto para conquistar o mundo, Dave era o que faltava à banda.
“Achei que Kurt parecia um garotinho ingênuo, aquele tipo de menino que salta do telhado para ver se consegue voar. Kurt e Krist eram pessoas diferentes de todas que eu já havia encontrado. Quando me falaram para me juntar à banda me senti como um estranho, no começo. Não conhecia ninguém em Seatle quando me mudei para lá. E ainda havia aquela misteriosa estética, as pessoas usavam camisas xadrez, como se fossem lenhadores de final de semana, o sol desaparecia às três da tarde, costumava chover semanas sem parar. Tudo melhorava quando fazíamos música juntos. Havia algo de excitante naquele punk de garagem que faziam com tanta melodia. Podíamos nos comunicar sem dizer uma única palavra.”.
A Subpop estava com sérios problemas financeiros, já não poderia lançar um álbum da banda, então a grande gravadora Geffen, faz uma proposta ao Nirvana. O dinheiro que seria pago à Subpop a tiraria do buraco e a música da banda poderia alcançar um público maior. Tudo parecia perfeito.
A banda começa então a trabalhar em seu novo disco.
Num dia qualquer em abril de 1991 a banda resolve fazer um show para conseguir dinheiro para pagar a gasolina que precisavam para ir até o estúdio onde gravariam seu álbum Nevermind.
Neste show a banda apresenta pela primeira vez uma canção, Smells like teen spirits, todo o público que estava no local começou a pular, pirando com a música. Era um prelúdio do que aconteceria alguns meses mais tarde.
Nevermind é lançado em setembro e em todo mundo começa a “Nirvanamania”, da noite para o dia eles deixaram de ser pessoas normais para se tornarem astros do Rock.
 
 

Kurt não desejava tamanho sucesso. O tímido rapaz que durante boa parte de sua vida não teve sequer um amigo, agora mal podia andar nas  ruas que era reconhecido por todas as pessoas.
O Nirvana passou a fazer shows grandes, o tipo de show que o grupo não suportava. Preferiam shows pequenos, onde a energia se tornava mais intensa.
A banda ia na direção contrária ao sucesso e isso apenas a tornava mais famosa. Eles destruíam seus equipamentos no palco, usavam vestidos, e se colocavam como uma banda totalmente contra preconceitos, e eles sabiam que muitas das pessoas que compravam seus discos eram as mesmas que também compravam discos de outras bandas que pregavam preconceito.
Um fatídico acontecimento chega aos ouvidos de Kurt, fazendo-o cair num profundo abismo; querer novamente se trancar em seu mundo. As pessoas não entendiam o que ele tentava dizer em suas músicas, dois rapazes haviam estuprado uma garota, cantando uma música do Nirvana.
No meio de um bombardeio, sendo atacado por todos os lados, Kurt encontrou uma pessoa que lhe trazia um pouco de paz, Courtney Love. Ela era loira, escandalosa, louca, mas ele se apaixonara por ela.
Em fevereiro de 1992 eles se casam no Havaí, enquanto o sucesso do Nirvana só aumentava. Courtney estava grávida, mas eles não sabiam e ainda usavam drogas. Quando descobriu a gravidez, Courtney parou de usar drogas, Kurt também, para ajudá-la, ficou algum tempo sem se drogar, talvez o mais longo desde que usara drogas pela primeira vez.
Nos jornais, nas revistas, nas televisões, mas rádios, o Nirvana estava em todos os lugares, eles já não podiam fugir nem deles mesmos. Um dia uma revista dizia que Kurt havia morrido, outro dia um jornal dizia que sofrera uma overdose e no daí seguinte lá estava o Nirvana em algum programa de TV.
Em dezoito de agosto de 1992 nasceu Frances Bean Cobain. Kurt e Courtney se orgulhavam de mostrar a criança sadia, desmentindo assim os boatos de que eles continuavam se drogando, mesmo Courtney estando grávida. “Segurar meu bebê é o melhor remédio do mundo.”. Kurt  sentia-se feliz, embora continuasse sendo bombardeado por todos os lados.



   

Era hora de lançar um novo disco. Tudo estava pronto, este iria se chamar Incesticide. Para seu lançamento, Kurt escreveu algumas linhas aos fãs: “Se algum de vocês de alguma forma odiarem homossexuais, gente de outra cor ou mulheres, faça o maldito favor de nos abandonar. Não venham aos nossos shows, nem comprem nossos discos. E não me importa que gostem de mim, porque eu odeio todos vocês e não quero seu dinheiro.”.
O Nirvana continuava. Uma vez ou outra organizavam shows beneficentes para as mulheres vitimas de estupro, apoiavam bandas feministas. O mundo era deles e eles poderiam fazer qualquer coisa, a não ser abandonar o sucesso.
A maior banda do mundo não sentia se preparada para isso. Kurt pensava em seu passado, trocaria tudo para poder voltar ao passado, na época em que ele não era um Rock Star, e sim um garoto triste e solitário; quando ele não tinha as respostas para nada. Voltar para um passado frio, que ficara guardado em fotos.

“Todo desculpas
O que eu mais deveria ser
Todo desculpas
Que eu mais deveria dizer
Todos são gays
O que eu mais poderia escrever
Não tenho o direito
O que mais eu deveria ser
Todo desculpas
No sol
No sol me sinto como um
No sol
No sol
Estou casado
Enterrado

Eu gostaria de ser como você,
Facilmente agradado.
Encontro meu ninho de sal.
Tudo é minha culpa.
Vou aceitar toda culpa.
Vergonha de espuma marítima.
Queimadura de sol com queimadura de gelo
Engasgando nas cinzas de seu inimigo.
 
No geral, é isso que todos nós somos.”
Para onde ir quando as ruas se tornam escuras? O passado já estava enterrado em lembranças, o presente era como uma catarse, o futuro incerto. Não havia pra onde ir. Talvez o melhor que o garotinho solitário de outrora podia fazer neste momento era continuar o show, tocar mais uma ou duas músicas, tirar de si os poemas que tanto lhe feriram a alma até que suas mãos não agüentassem mais, que suas cordas vocais já não emitissem nem um som. Talvez o melhor fosse desistir de tudo.



Em 1993 o a banda lança seu álbum In Útero, e também grava Unpluged in New York para a MTV.
Pouco tempo após o nascimento de Frances, Kurt voltou a usar drogas demasiadamente. O sucesso aumentava, as pressões também, tudo ia na contra mão de seus sonhos. Ele queria ser esquecido de novo. Seu casamento com Courtney já não ia muito bem, ele não conseguia deixar as drogas e ela ameaçara varias vezes de se separar dele. Ele via o nome de sua banda estampado em todos os lugares. Queria fugir um pouco, mas para qualquer lugar que fosse, não era seguro para ele ficar.
 
 
Psicólogos o descreviam como um maníaco depressivo. As drogas, cada vez mais presentes em seu dia a dia. A única coisa que agora o fazia bem era segurar sua filha; eram únicos momentos em que ele encontrava a paz.
Kurt colecionava armas, Courtney não gostava disso, tinha medo de que algum dia ele chegasse a se matar.
Kurt já não voltava mais a mundo real, parecia viver num mundo paralelo, tudo à sua volta funcionava de uma maneira que ele parecia não poder compreender. Sentia medo. Sentia se completamente sozinho. Queria voltar mas não tinha para onde voltar. Não havia mais um lugar para se esconder, agora tinha uma família, tinha uma esposa e uma filha e tinha milhões de fãs por todo mundo. Ele tinha a todos e não tinha ninguém.
O ano de 1994 apenas trouxe mais dores. Kurt já não tinha controle sobre si mesmo. Vinha sofrendo várias overdoses. Já não se encontrava em suas músicas, em sua casa, nem nas drogas.
Após sofrer uma overdose em Roma, ele decide se tratar. Estava dando um tempo para as drogas, para os shows, para os fãs, um tempo para si mesmo, um tempo de que ele realmente precisava.
Os muros do centro de reabilitação pareciam estar sufocando-o. Ele queria estar livre, das drogas, das pessoas, do sofrimento. Podia ter resistido um pouco mais, podia já ter resistido mais do que era capaz. Procurava seus amigos e não os encontrava, todos pareciam ter sumido, o único a quem ainda podia encontrar era Boddah, o amigo imaginário que criara aos dois anos, quando ainda era uma criança hiper-ativa e sorridente. Boddah por um longo no tempo ficara esquecido no passado, Kurt estava conhecendo novas pessoas, já não estava mais só, não havia razão para que Boddah, que só existia no mundo de Kurt, continuasse existindo.
Como quem acha um livro empoeirado, esquecido num velho baú de memórias Kurt reencontrou Boddah. O pequeno fragmento de sua infância que ele havia deixado sumir em meio às lembranças tolas da infância. O primeiro amigo estava de volta, nunca realmente partira, apenas observava Kurt crescendo, sem jamais se afastar dele.
Não conseguia mais ficar trancado. Tudo o sufocava, ele precisava de alguma droga, precisava cair no sono, precisava sonhar.
No começo de abril de 1994, Kurt foge do centro de reabilitação e sem avisar a ninguém para onde ia ele some. Courtney chama a polícia para encontrá-lo. Temia pela vida dele.
O som de uma caneta rabiscando um pedaço de papel quebrava o silencio da casa. O ar, que cheirava a lágrimas, parecia pesar toneladas. Kurt escrevia uma carta a um amigo, a todas as pessoas do mundo, uma carta a ele mesmo.

  "Para Boddah
    Falando da língua de um simplório experiente que obviamente preferiria ser um eliminado, infantil e chorão. Este bilhete deve ser fácil de entender.
        Todas as advertências dadas nas aulas de punk rock ao longo dos anos, desde a minha primeira introdução a, digamos assim, éticas envolvendo independência a aceitação de sua comunidade provou ser verdadeira. Há muitos anos eu não tenho me sentido empolgado em ouvir ou fazer música, bem como ao ler e escrever. Minha culpa por isso é indescritível em palavras.
        Por exemplo quando estou atrás do palco e as luzes apagam e o ruído maníaco da multidão começa, não me afeta do jeito que afetava Freddy Mercury que costumava amar, se deliciar com a adoração da multidão que é algo que eu totalmente admiro e invejo. O fato é que eu não posso fazer você de tolo, nenhum de vocês posso enganar. Simplesmente não seria justo a você ou para mim. O pior crime  que eu posso imaginar seria enganar as pessoas sendo falso e fingindo como se eu estivesse me divertindo 100%.
        Às vezes acho que eu deveria acionar um despertador antes de entrar no palco. Eu tentei tudo dentro de meu alcance para gostar disso(e eu gosto, Deus, acredite em mim eu gosto, mas não o suficiente). Eu aprecio o fato de que eu e nós atingimos e divertimos muitas pessoas. Eu devo ser um desses narcisistas que só dão valor as coisas quando elas se vão. Eu sou sensível demais. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que eu tinha quando criança.
       Em nossas últimas três turnês, tive um reconhecimento por parte de todas as pessoas que conheci pessoalmente e dos fãs de nossa música, mas eu ainda não consigo superar a frustração, a culpa e a empatia que eu tenho por todos. Existe o bom em todos nós e acho que eu simplesmente amo as pessoas demais, tanto que chego a me sentir mal. O triste, o sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus. Por que você simplesmente não aproveita? Eu não sei!
       Eu tenho uma esposa que é uma deusa, que transpira ambição e empatia, e uma filha que me recordam muito do que eu era, cheio de amor e alegria, beijando toda pessoa que ela encontra porque todo o mundo é bom e não a fará nenhum dano. E isso me apavora ao ponto de eu mal conseguir funcionar. Eu não posso ficar com a idéia de Frances se tornar o triste, o auto-destrutivo e mórbido roqueiro que eu virei. Eu tive muito, muito mesmo, e eu sou grato por isso, mas desde os sete anos , passei a ter ódio de todos os  humanos em geral. Apenas por que eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho.
Obrigado do fundo de meu nauseado estômago queimando por suas cartas e sua preocupação ao longo dos anos. Eu sou mesmo um bebê errático e triste! Não tenho mais a paixão, então lembrem, é melhor queimar do que se apagar aos poucos.
Paz, Amor, Empatia.
 Kurt Cobain
Frances e Courtney, eu estarei em seu altar.
   Por favor vá em frente Courtney, por Frances.
   Por sua vida, que vai ser mais feliz sem mim.
EU TE AMO, EU TE AMO!"


No dia oito de abril o corpo de Kurt era encontrado em sua casa em Seatle, em suas veias, uma quantidade excessiva de heroína, ele aparentemente dera um tiro na própria cabeça, mas não havia digitais nas seringas de heroína,  na caneta, na arma, não havia qualquer indicio de que ele se suicidara, mas também não havia qualquer prova de que fora assassinado. Ele deixava de ser um homem para se tornar uma lembrança. Alguns fãs desorientados pela perda cometeram suicídio. O mundo estava de luto. No rosto de Kurt as pessoas viram a tristeza e a alegria de se ser um maluco, o medo, a dor; viram que a vida é um caminho escuro, onde nós caminhamos sem saber pra onde ir; viram que as noites são frias lágrimas choradas pelo tempo que se perdeu e não mais pode voltar. Na voz de Kurt encontraram os sentimentos desordenados que feriam sua alma como um punhal afiado. Em suas músicas viram o mundo, sujo e feio, e viram em seus olhos que se todo o mundo fosse tão ingênuo e doce quanto o sorriso de uma criança a canção da vida soaria como uma doce cantiga de ninar.


     



Elton Veloso da Silva
Enviado por Elton Veloso da Silva em 29/09/2007
Reeditado em 29/09/2007
Código do texto: T673752
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Sobre o autor
Elton Veloso da Silva
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