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Tempo de felicidade...


Tenho como melhores anos da minha vida estes que passam a narrar nestas linhas, não sei se conseguirei expressar toda felicidade e emoção que sinto em lembrar desses momentos, mas tentarei colocar aqui um pouco da alegria que sinto desse tempo. Tempo de felicidade!
Lembro como se fosse hoje minha mãe nos levando ao colégio interno São Vicente de Paula na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, como minhas lembranças do primeiro colégio interno em que vivi não foram boas, o medo era grande, e também tinha as perdas dos amigos que tinha convivido em toda minha infância, sem falar da distância da família, tudo levava a crer que eu iria sofrer muito. No primeiro mês as lembranças, as despedidas dos amigos do bairro, da família pesava muito na minha cabeça de pré-adolescente, não conseguia me adaptar a um sistema totalmente desconhecido com internos que nunca tinha visto.
É, foi difícil, até que tive uma idéia, eu e mais três internos arquitetamos um plano, iríamos fugir e ir para São Paulo andando para rever os amigos, matar a saudade da família, do bairro onde morávamos.
Acordamos as 4:00 horas da manhã, fizemos as mochilas e partimos, atravessando o colégio pelos fundos, cortamos a linha do trem, comendo manga, chupando cana dos canaviais que cercavam a linha do trem acreditando que chegaríamos em São Paulo.
Por volta do meio dia chegamos à cidade de Cordeirópolis, paramos em um posto de gasolina onde bebemos um pouco de água, trocamos de roupa, e quando começávamos a seguir o rumo a polícia nos pegou.
Enquanto isso no colégio todos os outros internos já sabiam da fuga e os parentes tinham sido avisados, lembro que a mãe de um dos que fugiu comigo fez até um apelo à Rádio local, e foi um verdadeiro reboliço na cidade, e nós agora caminhávamos de volta para o colégio levados pela polícia.
Depois desta investida que não deu certo tive que me conformar e fui me adaptando aos poucos, comecei a fazer amizades com os internos e então começou o meu tempo de felicidade.
A disciplina do colégio não era ruim, mas como todos eu gostava de aprontar, os assistentes acabavam programando o dia com horários a serem cumpridos; na parte da manhã cada interno tinha seu trabalho de limpeza, depois de terminar íamos para o banho às 11hs, as 11:30 hs o almoço para as 12hs irmos à escola até as 16 hs.
Quando voltávamos, jantávamos as 17:30 hs depois das 19hs as 20:00 hs todos na sala de estudo para as tarefas escolares, os tempos vagos aí é que era perigoso, pois aprontávamos as maiores bagunças possíveis.
Como estava para completar treze anos tudo era novidade para um pré-adolescente, na escola eu vivi momentos maravilhosos, arrumei a primeira namorada, fiz muitas amizades e em nosso cartel de brincadeiras as mais famosas eram “BNH” (Beijo na hora, em alguma parte do corpo teria que estar marcado a sigla BNH, caso não tivesse, escolhíamos uma menina para ser a vítima e beijar, de sacanagem escolhíamos as mais feias, para aqueles que não tínhamos amizade).
Como eu me apaixonava naquele tempo!  Chegava a estar apaixonado por uma menina de duas em duas semanas e sofria quando não era correspondido, cheguei até a me apaixonar pela minha professora, é eu me apaixonava demais mesmo!
A escola foi importante para mim em minha formação como adolescente, pois lá aprendia tantas coisas com minha turma, vestíamos as roupas que pensávamos estar na moda, usávamos brilhantina, brinco, bamba sem meia, hoje olhando até parece cafona, mas era muito bom ser assim, não me importava, apenas vivia as delícias da adolescência.
Aconteceram várias coisas interessantes na escola, mas não pretendo escrever sobre todas elas nesse texto voltamos então ao colégio onde aconteceram as maiores alegrias da minha vida.
Certa vez, época de festa junina, faríamos uma apresentação para a cidade, ensaiamos durante dois meses e eu fui escolhido para ser o noivo, no dia da festa o colégio estava lotado praticamente, toda cidade estava lá, na quadra tudo montado, os microfones onde falaríamos, os arranjos do arraial, meu nome era Zé Fusquinha Foguetão e a minha noiva chamava Ernestina Saracura Pernalonga, meu sogro chamara Zuleico Pinta Braba, com todos já preparados começa a apresentação.
Lembro que me deu um frio na barriga ao falar no microfone e tive que sair correndo, aí o xerife me perseguiu e conseguiu realizar o casamento, quantas saudades tenho desses momentos, a alegria que sentia em viver toda aquela emoção, foram momentos que me proporcionaram muita felicidade e alegria.
As coisas corriam da melhor forma possível, as experiências e aventuras aconteciam todos os dias, uma vez teve um leilão de gado, toda cidade novamente se reuniu no colégio, os fazendeiros arrematavam o gado e depois retiravam aí eu e meus amigos montamos um rodeio mirim, montávamos nos bezerros e se acabava de felicidade era uma alegria só, e quando o padre nos pegava éramos castigados, mas isso não nos deixava tristes porque a sensação e a emoção que sentimos era maravilhosa.
Quando aprendi a fumar eu e os meus amigos íamos ao bananal escondido e fumávamos Belmonte suave, precisava abraçar uma bananeira de tão tonto que ficava, quando a fome pegava antes da janta roubávamos bananas que os assistentes guardava para madurecer e comíamos escondido, era só aventura, tudo escondido é lógico.
Falando um pouco da infra-estrutura do colégio que na realidade parecia um paraíso para nós adolescentes, pois tínhamos piscina, quadra de futebol de salão, campo oficial, salão de jogos, vídeo cassete e cinema todos os domingos sem precisar pagar nada por tudo isso, curtíamos tudo e nos sábados os assistentes deixavam que saíssemos, então íamos nadar no horto florestal da cidade.
No horto tinha uma represa que chamávamos de prainha com quatro metros de profundidade, ali organizávamos as maiores aventuras, nadávamos e pescávamos muitos lambaris, tínhamos duas tarrafas uma de dez metros e outra de doze.
E todos os sábados, levávamos para o colégio cerca de setenta lambaris que a cozinheira preparava como tira gosto na hora que íamos para sala de vídeo. São essas emoções que ao lembrar me emociono, porque não há dinheiro que me proporcionaria tudo que vivi naqueles anos de colégio.
Quando voltávamos do horto cortávamos caminho pelas fazendas e roubávamos mangas e goiabas tomávamos um carrerão dos donos que com espingardinha de sal tentavam sem sucesso acertar aqueles ladrões, ai sentávamos na linha do trem e comíamos as mangas e goiabas dando muitas risadas das aventuras aprontadas por nós.
Algo interessante que aconteceu comigo foram os namoros de adolescente, namorava uma menina linda do educandário da cidade, naqueles sentimentos de adolescentes acreditava que a amava, sonhava até em casar lógico que era aquele amor de adolescente, mas era muito bom e de duas em duas semanas amava uma menina diferente e não sei como, mas chorei por todas que namorei na adolescência hoje dou risada ao lembrar disso!
Na época da páscoa toda cidade se mobilizava para ajudar o colégio, e recebíamos cerca de quatro caminhões de alimentos e era isso que nos sustentava durante o ano todo.
E nesse dia o almoço era especial, um buffet preparava aquele almoço com garçons a comida era melhor do ano, refrigerantes à vontade pizzas muitos sorvetes. Ah! Como era gostoso aquele dia em fase de crescimento e guloso que era comia tudo até não agüentar mais.
Através das cartas matava as saudades da família, mandava beijos e abraço a todos pedia que minha mãe viesse me visitar e mandava presentes para meus irmãos menores, como nas festas juninas ganhávamos dinheiro do padre para gastarmos.
Lembro que consegui ganhar em uma barraca duas bolas gigantes então escrevi os nomes dos meus irmãos menores e mandei para eles, mandando beijos e abraços eu expressava minhas saudades naqueles presentes. Nas férias fiquei sabendo que eles tinham adorado os presentes e isso me deixou muito feliz.
Todo o domingo esperava minha mãe ir me visitar, quando chovia no sábado eu ficava olhando a mata do horto da cidade esperando que a neblina levantasse, pois como diz no interior que quando a cerração subisse a chuva parava então ainda tinha alguma esperança da minha mãe ir me ver no domingo.
Muitas vezes eu esperava até as 13:00 hs ela chegar quando não vinha ficava triste, mas depois ia ao cinema com os amigos do colégio, mas quando ela ia me visitar ficávamos lá matando a saudade, perguntava sobre meus irmãos queria saber todas novidades.
O colégio era um lugar maravilhoso para morar apesar de estar longe dos meus, muitas coisas que eu gostava o colégio me dava.
Quando com  treze anos comecei a trabalhar em um posto de gasolina como enxugador de carro, e fui ganhar meu próprio dinheiro foi uma alegria só metade do meu salário ficava com o padre para ajudar o colégio e a outra metade era só minha, podia gastar no que eu quisesse.
Como somente quem trabalhava era eu e um amigo que estudava comigo a noite passamos a sair juntos, nos combinamos o seguinte, quando eu recebia meu salário gastávamos juntos e quando ele recebia o dele ele quem pagava tudo.
Era uma festa, íamos para o centro da cidade comíamos cachorro quente, todos os lanches que tínhamos vontade, passamos a cabular aulas para se divertir, lembro que por dois meses cabulamos aulas e só não perdemos o ano porque começamos a repor aula no tempo vago.
É realmente foi um tempo de felicidade, e nesse período aprendi e vivi muita coisas boas que se pudesse voltar no tempo viveria tudo outra vez sem mudar nada, verdadeiramente sou um abençoado por Deus.
E tenho para mim que esses foram os melhores anos da minha vida até os dias de hoje!

Fábio Beltrame
Beltrame
Enviado por Beltrame em 18/10/2007
Código do texto: T699571
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Sobre o autor
Beltrame
São Paulo - São Paulo - Brasil, 41 anos
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