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   Uma casa na frente do rio...   Um rio no fundo da casa...


             
   Eu não fui ao enterro de minha avó, Maria Fernandes. É este mesmo o nome dela, não é um nome fictício. Acrescido de Alves, do marido, que eu também herdei. Mas ninguém a chamava de dona Maria Alves. Era Maria Fernandes.  Dona Maria Fernandes, dona Maria. Vó.Não fui porque estudava em São João del Rei, interna em um colégio de freiras Vicentinas. O Nossa Senhora das Dores. Naquele tempo não era fácil ir para casa, do Colégio interno . As estradas eram ruins, não havia ônibus direto, a viagem era cara, não tinha quem fosse me buscar.Nunca perguntei qual destas razões impediram que eu fosse ao enterro de minha avó.Naquela época não se usava perguntar aos pais o que motivava suas decisões. Só sei que eu não fui e quando quiseram me contar, através de meias verdades que buscavam suavizar a notícia, tive uma crise de nervos. Não foi de choro, foi de nervos mesmo.Eu não tinha nenhum ombro onde chorar a minha tristeza, nenhum braço para me abraçar e fazer com que a dor desaparecesse.  Então gritei. Até ficar rouca e me mandarem calar. Até ficar rouca porque já tinham me mandado calar e eu não obedeci.Calei-me para sempre uma determinada hora e ninguém mais me ouviu falar de minha avó. Por séculos, séculos e muito séculos, Amém. Depois fingi que nada tinha acontecido e continuei a minha rotina de jovem interna em colégio de freiras. Quando voltei para as férias, não fui a casa dela. Não olhei para casa dela. Quando tinha que passar perto, fechava os olhos ou virava as costas. Nunca mais entrei lá enquanto a casa era a casa dela. Só mais tarde, mas mais tarde não valia. Por isto ela continua lá. Não morreu. Está viva.Mudamos de cidade e isto ajudou.Ela nem morreu nem foi enterrada. Continua lá na sua casa de esquina, com um banco de madeira do lado de fora, encostado na parede lateral. Ela continua lá e minha alma também.

 

                    Há poucos meses, depois de muitos anos de ausência voltei à pequena cidade onde nasci. Desci a rua da casa onde me hospedava e parei na esquina da casa onde vivi por muitos anos. Não era mais a minha casa, estava feia e esquisita, sem personalidade. Uma caixa chata. De lá, meu olhar transverso olhou para a casa de minha avó: era outra casa, até mais bonitinha.Com umas pedras incrustadas, sinal de solidez. Mas não era a casa de minha avó, era outra, não me interessei. A casa de minha avó continua viva na minha lembrança. Está lá, na frente do rio. E minha avó... A chuva fez uma pausa para que ela saísse de casa e agora ela esta sentada no banco que se encosta na parede lateral da casa. Está sozinha mas logo as comadres vão chegar. Umas vão se assentar ao seu lado, outras ficarão de pé em sua frente. E todos que passarem lhe dirão: Boa tarde, Dona Maria. E eu vou passar correndo e vou gritar: Bença, vó. E vou ouvir no meu coração: Deus te abençoe menina. E eu vou ouvir sua risada, na boca  de poucos dentes e muita fome. Porque ela não morreu, ninguém morreu. Estarão todos lá pra me dizer: Oi, Maria, como vai a Nita? E o Tarcísio e seu pai? Porque eu também sou Maria, como ela. E eu vou rua abaixo, dizendo: Bença, ti Licinho, bença, ti Lemão, bença madrinha Melinha, ei Dito, ei Chiquito. Mas eu não fiz nada disso. Só no desejo do coração. Fechei os olhos e desci a rua rumo ao meu destino.

 

                        Nenhuma cidade é tão grande como a minha.Tem 3200 habitantes mas isto não tem a menor importância. Nela cabem todos os personagens que invento e eles habitam suas ruas como se fossem reais. Eu modifico a cidade ao meu prazer, construo e destruo casas, abro ruas, mudo seu nome, invento histórias, transformo fatos. Deixo que ela fique irreconhecível,  só a reconhece quem a ama como eu. Quem viveu no tempo que vivi e abriga as mesmas lembranças. Mas há uma coisa que não muda nunca nessa cidade que inventei do real. A casa da minha avó, o rio no fundo da casa. Estão sempre lá.E minhas lembranças, reais ou inventadas, giram em torno dela. E são elas que vou registrar aqui. Quando ouvir a canção que me chama do fundo do rio. Canção sem aviso, nas noites dormidas do sono com sonho, nas noites acordadas do sonho sem sono. É nessas horas que venço a morte. Que o sol se põe no horizonte de morros inóspitos e eu me sinto em casa. Os mortos nunca estão ausentes de minha vida mas nestas horas eles se fazem vivos. Nada dói em mim e as feridas se cicatrizam como se minha avó continuasse a por emplastros de bálsamo  em meus joelhos esfoliados. Uma coisa é certa: eu morro a cada minuto mas meus mortos continuam cada vez mais vivos. Em mim. E é para mantê-los assim que escrevo.

 

                      Naquela noite em que estive lá, eu vi meu tio Licinho. Nome de avô, nome de herói. Ulisses.  Nome de primos e prima , o que é bem esquisito. Eu vi e voltei aquele dia, há muitos e muitos anos  idos, quanto ele um tanto quanto sem graça, me chamou no canto e disse:-Você podia fazer o meu discurso de posse como prefeito. Mas não era só escrever. Era ler também. Fazer mesmo, barba,cabelo e bigode. Serviço completo. Tudo bem, eu disse, é meio esdrúxulo, mas...    Mas,não foi só ele. O farmacêutico que deixava o cargo me pediu a mesma coisa. E eu passei a noite, hospedada que estava na casa de outro tio, preparando o meu improviso. Era um tempo em que os neurônios ainda não estavam desgastados e eu pude discursar de improviso no outro  dia, embora tivesse passado a noite inteira acordada, pensando no que falar.   Pensei tanto que nem vi o Cavaleiro da Meia Noite passar cavalgando o seu cavalo negro para se esconder melhor nas sombras das noites sem lua. No outro dia, todos nós, nas melhores roupas. Frente à multidão de tão poucos, na pequena sala da escola onde se deu a posse, tirei os óculos para não ver quem me via. Assim falei para quem só eu via. A minha avó, que ria de gosto... Depois, quando coloquei os óculos ela se foi. Os outros choravam. Eu não tinha feito um discurso triste, mas emoção é assim mesmo. Ouvi os aplausos mais uma vez e me enchi de orgulho.Eu tinha enganado todos que pensaram que eu falara de improviso. E aí de repente, ele, o tio, também não estava mais lá, tinha ido para junto dela certamente... Mas os que ficaram estavam. E perceberam meus olhos marejados e molharam os olhos também, pensando coisas diferentes de mim, tão importantes para eles quanto foi a minha lembrança para mim.

                           Ulisses Fernandes Alves era o terceiro entre os irmãos, o mais velho entre os homens. Antes dele, a tia madrinha Clarita e a minha mãe. Quando o pai morreu ele era um menino, mas foi a ele que coube a incumbência de ajudar a criar os irmãos. Minha avó analfabeta , nove filhos vivos, o caçula recém nascido.Ajudou a criá-los mas não terminou a tarefa de criar os seus. Morreu antes que fosse hora de um homem decente morrer, corroídos que foram seus pulmões pela doença maldita  cujo nome por muito tempo foi um tabu. Mas eu fui ao seu enterro e quando soube de sua morte eu chorei porque tive um ombro para chorar. E fui ao seu enterro e quando voltei escrevi um poema.

                                        O Morto

 

 

O morto já foi.

Saiu pela rua.

Cadeiras vazias

Do peso escorado

Ainda se espalham

pela sala nua.

 

Um ramo de flores

Caiu pelo chão

O morto se foi

Ficou o seu cheiro

Na sala vazia

De sua agonia.

 

Ajeitem as cadeiras

Coloquem a mesa

No centro da sala

Que o morto se foi

E a vida vazia

Não pode parar.



  

 

             Depois que ele morreu e eu escrevi o poema eu pude ressuscitá-lo e hoje vez por outra ele vem me visitar. Como naquele dia em que voltei a minha cidade e ele me fez lembrar do caso do discurso E agora, enquanto escrevo  e me voltam as lembranças de seu enterro. Não sei por que mas é o único do qual me lembro com detalhes. Eu estava lá, na casa cheia e de repente eu precisei sair. Uma urgência me tirou de lá e eu fui sozinha, andando o meu caminho para o cemitério. Passei pela linha vazia de trens, subi o morro da Igreja e aí subi mais ainda até o cemitério. O coveiro estava lá, recavando a sepultura que era também de outros mortos.Eu não pensava em nada, caminhei pelos caminhos vendo os túmulos que tinha que ver. Fui até o muro traseiro e lá de cima olhei a calma dos pastos verdes com suas vaquinhas famintas. Misturei-me em lembranças enquanto o tempo passava. Então eu me dirigi até ao abrigo que se preparava para meu tio. Olhei para dentro do oco, sem pensar nada, só olhando....e vi: lá estavam eles: o meu tio Chiquito, mais que tio, irmão mais velho, primeiro amigo e companheiro de coisas boas. O terno intacto, a gravata, os cabelos ruivos empoeirados. Mas onde estava o corpo, onde estava alma.? Antes de começar a gritar ainda vi um crânio rolando, caindo das mãos do osseiro, assustado, uma mecha de cabelo resistindo à morte. Era o crânio  do meu avô Chico Caetano que eu só conhecia da foto na janela, junto com minha avó.Eu podia fantasiar muito sobre este acontecido mas nem vou. Porque seria só fantasia já que o resto se apagou, emoldurando no escuro a imagem de meus parentes mortos. Se mais eu me lembro é de ter descido o morro em disparada, encontrando pelo caminho o cortejo que levava meu tio para a companhia dos seus.  

 

 Primeiro capítulo de meu livro de memórias - Uma casa na frente do rio...Um rio na frente da casa.

Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 02/11/2007
Reeditado em 21/01/2010
Código do texto: T721000

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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