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Texto

carta para um amigo intimo distante

   Sinto-me tão estranho e sozinho sem você: meu amigo.Que passeávamos, passeávamos.Tudo ao nosso redor era aquela paisagem que sorria.Eu sentia e sentia por você.
   Você morreu depois da Aids; não você não morreu da Aids, você morreu não morrendo depois da Aids.E assim eu voltei a viver do que invento.Para descansar o cansaço de compor eu invento este interlúdio em que só dedico a ti.Chamem-na do que quiser:
   Ode ao verdadeiro embora tão covarde sempre fostes.É compreensível, tinhas medo de ser fraco e se apegar...Já tinhas a maconha, a cocaína, os psicotrópicos...e não precisava mais nada do que se viciar.
   Eu te amara como herói.Sempre esperei que tivesse, e durante o meu estar saudável vivia em busca...
   Kurt Cobain tão triste morrendo em sílabas nas canções que berravam e não se encontravam.E existia você.Ainda existe, posso te ver, te procurar, mas eu sei que vai doer tanto, porque não me acho mais o mesmo – é de rir: quando fui? – tenho uma ferida aberta e exposta na alma.
   Lembro você sorrindo é como se cortassem as suas pernas...Tão difícil.Sempre angustiado.Queria te contar tudo que conto hoje ao leitor desconhecido, só que não tinha coragem.Sempre te vi como meu espelho intransponível.
   Fostes parar em meus textos, em tantos, mas como és de verdade, porque sou de verdade.Não posso inventar mais nada além do que já é cru e não posso cozinhar.
   A Lapa às vezes está aqui dentro de mim.As nossas ruas escusas e dentro do seu coração a dúvida: não posso mais me viciar em nada...E nem te viciar no que não deves.
   Eu durmo com a consciência de quem não tem nada, porque você é o caco que me sobrou.
   Sabes, te conto contando ao leitor desconhecido, que tu és o que de melhor vive em mim.Afinal não foi paixão, nem se enamorar, nem tampouco obsessão(como tanto me ocorreu), foi, acho...e talvez porque ainda é...
   Amor...
   Max, Max, Max até seu nome fragmento; se a minha vida é feita assim de fragmentos...aos pedaços como já me confessei.
   Quando acordo, penso, se devo pensar em Deus.Devo? Sim. É tudo propósito.É o mesmo comendo o mesmo envolvido pelo mesmo.Escuto sua gargalhada difícil, difícil.
   Nosso pé de gudes está carregado destas.Podemos dividir a infância agora, depois, que a perdemos.
   Espero que eu tenha futuro e que você viva e ainda sobreviva aos vícios para que talvez me leia e saiba que tudo é o quase nada que eu bem achei que fosse; e foi isto o tudo: que nunca aconteceu de sete meses durarem tanto, tanto, tanto, numa ampulheta imaginária que sustento agora, tão já futuramente em nosso céu cor de rosa.


         Para Max, que foi quase Kurt

AUTOR RODNEY ARAGÃO
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 31/05/2008
Código do texto: T1013933

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
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5 e-livros (144 leituras)
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