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DISPUTAR ESPAÇO NO ASSOCIATIVISMO LITERÁRIO?

(para Terezinha Manczak, em Blumenau/SC)

Seja muito bem-vinda!

Não lembro se encontrei o Jairo Pacheco Martins aqui na capital, durante a 50ª Feira, 2004. Estivemos juntos no 10º Congresso Brasileiro de Poesia, que ocorrera em Bento Gonçalves.

Não me agradam muito as atividades literárias em Feiras do Livro, porque há muito tumulto e não nos deixam quietos. Tem sempre um estudante de jornalismo ou “foquinha”, na volta da gente.

Nesta época do ano começa o calor em Porto Alegre, e as barracas são feitas de material plástico, esquentam muito, e o ambiente se torna insalubre.

Ou então há sempre um livro que a gente não tem dinheiro pra comprar, porque caro, além de que os colegas convidam e, pelo mesmo motivo, ficamos impedidos de circular no evento. Fica difícil explicar que temos outras prioridades.

Certa feita faz alguns anos, um poeta de 78 outonos me pegou pelo braço e me levou até a barraca onde o seu livro estava sendo vendido, forçou-me a comprá-lo e fomos, juntos, até a barraca de autógrafos porque ele queria que eu o levasse autografado.

Ressalte-se que a Feira sempre dura duas semanas, começando na última sexta de outubro e terminando no segundo domingo de novembro.
 
Lembro que, em 2004, somei os convites para lançamento de livros recebidos de colegas e amigos escritores e, se viesse a adquirir todos os livros, teria de gastar apenas R$ 1.200,00.

Fiquei constrangido, e, como não lançava livro individual naquele ano, sequer fui aos lançamentos de coletâneas, que, se lembro corretamente, eram quatro.

Assim que nem fiquei sabendo que vocês teriam vindo em comitiva representativa da Sociedade dos Escritores de Blumenau.

Que bom estes saraus ou tertúlias que realizas. Por certo que avisado, tentarei estar contigo num deles, principalmente no verão.

Tenho casa de praia no Passo de Torres e de vez em quando fico em Laguna, na casa de uma cunhada, numa aldeia de pescadores chamada Barranceira.

Participo, aos sábados, do programa do meu colega Atanázio Mario Fernandes Lameira, policial civil e poeta. Ele está designado para instalar a Casa do Poeta local, a POEBRAS - Laguna. No entanto, tendo sido transferido para Imaruí, cidade situada cerca de 50 km de Laguna, teve de sustar o projeto.
 
Ainda neste ano devo ir a Tubarão conversar com Amaline Mussi, atual ou ex-reitora de uma das universidades locais, entusiasta da Cultura, com a qual pretendo examinar a viabilidade de instalação da Casa do Poeta local. É pessoa bem de vida e que viaja muito ao exterior e centro do país, quase sempre a serviço da universidade. Parece que tem familiares no estrangeiro.

Já falei com ela por e-mail, mas ainda não a conheço. Tem um currículo invejável. Pertence a um rol muito especial de amigos de Tubarão, pessoas ligadas a meu irmão Marco Antonio, que reside em Pelotas, aqui no estado.

Conheces o emérito poeta, trovador e sonetista Miguel Russowsky, 82 anos, médico, diretor-proprietário do Hospital São Miguel, em Joaçaba?

É gaúcho, nascido em Santa Maria, no interior do RS. Nós o trouxemos a convite da Casa do Poeta de SM, em 01/06/2003, para comemorar os seus 80 anos com mais de 70 pessoas. Disse versos durante a noite toda. Ficou feliz e honrado. Saíra de Santa Maria em 1941 e voltara muito esparsamente.

Tem casa aqui em POA e recentemente casou uma neta que vai lhe dar um bisneto logo. Victória, sua mulher, mais de setenta, é a musa permanente. Ela é um amor de pessoa!

O poeta Miguel Russowsky é muito amigo da poetisa Suelly Corrêa Gomes, 85 anos, importante ativista cultural que mora aí nessa bela Blumenau. Estando em idade avançada, está ao abrigo de sua filha Dra. Carmen Mattos, que atua na rede pública de Saúde.

Suelly Gomes é uma das melhores sonetistas que conheço, com belíssima obra no ativismo literário. Fundou e presidiu com muito brilho, durante mais de sete anos, o Centro Literário Pelotense de minha terra natal, Pelotas. Criou o “CLIPINHO”, boletim literário da associação.

Depois se transferiu para essa Blumenau, onde criou, editou e dirigiu, durante seis anos, o alternativo BRASIL EM VERSOS, de circulação nacional. Fez amigos pelo país e estrangeiro. Tinha um cadastro de endereçamentos invejável. Ela anda doente, convive com um antigo carcinoma e está a apresentar sinais do Mal de Parkinson. Gosta muito de tertúlias e saraus. Mãe e filha são maravilhosas!
   
A POEBRAS Blumenau deverá albergar a todos que a ela se associarem ou que lhe sejam simpatizantes. De nada importa sejam acadêmicos ou sócios de confrarias, clubes literários ou academias.

A Casa do Poeta Brasileiro em Blumenau precisa vivificar-se na opinião pública, logo formar o seu grupo e ativar culturalmente a parcela da comunidade aglutinada em torno de sua diretoria.  Os novos e os novatos – os ainda não engajados em outras sociedades de cultura – são o objetivo maior do associativismo literário.
 
Há que ter cuidados com a ciumeira natural que ocorre quando a Casa começa a aparecer, mas não se deve estimular o corporativismo, que sempre exclui os pertencentes a outros grupos associativos.

É preciso deixar bem claro que a POEBRAS não veio pra disputar espaço com alguma outra entidade, e – isto sim – reforçar a coleta da produção cultural local e o fomento da inventiva e da criatividade.

A ‘casa própria’ é o sonho de qualquer pessoa que atinge a maturidade. Como se esperar algo diferente disso numa entidade que congrega pessoas de todos os matizes? Vale o comparativo para o associativismo cultural.

“Quem casa quer casa”, diz o ditado popular. Casar com a Casa do Poeta significa criar-se um “caso espiritual”, unido e mantido pelo amor fraternal, pelo soerguimento do espírito de cooperativismo existente em algumas pessoas referenciais na comunidade, pessoas que falam a mesma linguagem. É conveniente se ter em conta que logo que for possível deve se iniciar a construção da sede própria.

Temos trinta e quatro associações culturais no ramo literário e/ou afim, aqui em Porto Alegre. Sabes quantas têm sede própria, patrimônio para avalizar qualquer empreendimento, compromisso de tesouraria com bancos, etc.? Apenas quatro. Todas ocupam prédios que os associados apaixonados pela entidade, ao morrer, fizeram o legado patrimonial. Curioso, não?

Todas as pessoas cujos nomes aparecem citados nesta, receberão cópia integral desta missiva. Creio que ficarão felizes com o ativismo cultural que desenvolves em tua Blumenau. E, creio, farão contato. E estarão disponíveis, porque são pessoas de alma coletiva, tendo sempre o outro como fraternal mote para fazer o Bem.

Por certo ajudarão na visada que estás a traçar para Blumenau: sua vertente cultural e de memória. E sei que, apesar de não a conhecer, tem um povo muito organizado e bairrista, vinculado às suas raízes germânicas.

Desta sorte, cumpro a tarefa de tentar juntar e congraçar pessoas em torno dos vetores Cultura e Educação. A junção destes vetores sempre produzirá pessoas – no mínimo – mais felizes e preparadas para cumprir esta curta passagem e, talvez, deixar algum rastro para a posteridade.

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/105004
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 28/01/2006
Reeditado em 09/09/2008
Código do texto: T105004
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
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Joaquim Moncks