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Carta aberta a quem for

Pior é não saber,

Eu sei que tempo pra você é o que muito falta. A mim não, ele é essa coisa imensa que nem músicas mais conseguem preencher. Que eu me perco. Que eu começo coisas e não termino de tanto saber que tempo vou ter pra terminar mais tarde. E assim eu vou, cambaleando sem nada fazer.

Ah, e como as coisas aqui estão! Eu sei, eu sei que fica agoniado quando digo assim, mas é preciso. Às vezes eu olho o vento, olho o tanto de ar que tem pra respirar e me sinto sufocada. É uma grandeza vazia esta cidade. É uma grandeza que não me faz querer explorar. Mas me diga, e tem o que?

Eu lembro, eu lembro muito, e chega até a doer. “Está assim porque quer.” Porque eu quero. Porque eu quero é pegar na sua mão e sair por aí. Você me falando de coisas que eu já sei, mas me admirando do falar tão bonito, e as coisas parecendo mais bonitas aos meus ouvidos, aos meus olhos, ao mundo. Pra mundo ficar mais bonito.

E hoje é segunda-feira. Segunda-feira, que geralmente eu bem gosto, está sendo ruim. Os outros dias nem tanto, eu me entrego à crueza das coisas. Faço que nem criança obediente: vou comendo, meio que golfando, mas indo, indo, indo. Tem hora que chega, que eu acabo agüentando. Fico acreditando que é fase, mas é porque eu aprendi que tudo passa.

Só não essa angustia daqui que já vai fio inteiro de meses que não acaba. E eu vou contar de um medo que eu tenho. De me acostumar. De acreditar no que uma amiga diz assim: “quem foi que disse que a gente veio praqui pra ser feliz?”. E não é. E eu nasci aqui pra viver com a angustia de daqui não conseguir sair.

Eu sei, eu sei. Eu que tanto gosto das minhas coisas. Mas eu já expliquei, falta só mesmo desenhar pra se entender visualmente. Perdeu o gosto, os mesmo lugares continuam parecendo eles mesmos. Ah, mas, logo eu que tanto gosto das coisas que gosto. Me falta nova coloração ao olhar. É você, me dizendo das mesmas coisas, das coisas que eu já sei, mas eu achando é cada vez mais bonito.

Aqui só sou eu quem digo as coisas, as coisas que eu ainda não sei, mas que não mais graça tem porque eu quem me digo, e das coisas que eu já sei, continuo me repetindo, e me dá náusea de mim mesma. Mas parece que nada vai mudar, nem você faz questão. E se mudar, não vai ser pro jeito que eu quero que mude. Eu sei. Eu sinto. E quando eu sinto, é do jeito que eu sinto. Então, eu não sei. Acho que eu estou entalada. Se você quiser, rasgue esse meu entalo. Nada é pior do que não saber.

Estranha é essa coisa.
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 06/02/2006
Reeditado em 06/02/2006
Código do texto: T108555
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 12:32)
Cristina Carneiro