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Uma história de encontros e desencontros

E sei que to começando do jeito errado, mas é assim que eu quero começar. Queria conversar com você. Queria poder te sentir perto de mim, mas não posso.
Sei que dessa maneira vamos nos perder no vazio que fica comigo todo o tempo que você não estar aqui, mas tudo bem. Não quero te falar desse vazio. Não quero te falar de nada, na verdade. Eu apenas quero falar com você e não há outro meio, além de te escrever. Então lá vou eu pra dizer que te amo, que dormi mal essa noite, que quase nem dormi, que sonhei com você quando cochilei, que chorei por você quando me acordei.
Tem coisas que você faz que eu não entendo, também não quero entender. Por horas, você é perfeito demais, em instantes você vira um canalha. E eu não entendo tanto sentimento reservado pra você. E fico pensando, que desse jeito, um de nós vai acabar morrer, mas, na verdade, isso nem importa, sabe?
E lembro do dia em que chorou por mim... Sem comentários! Sua voz presa na garganta me dizendo que não podia falar. E tudo o que tinha pensando em te dizer desaparecendo da minha cabeça. E lembro de como me encolhi no sofá da minha casa e chorei por você ter chorado por mim. E quando a gente fica assim, mais distante do que é, eu penso nisso, como uma fonte de manter nosso amor acesso.
E agora quando eu fecho os olhos eu vejo um moleque dormindo em meus braços. São as lembranças de um fim de semana que ficou na minha cabeça. Sei que estava fazendo um esforço danado pra estar ali comigo, se rendendo a um pedido meu que nem foi verbalizado. De novo vou sentindo meus dedos alisarem teus cabelos, e depois, suavemente, deslizar pelo teu rosto. E os meus olhos sem desvio, a filmar teu rosto, e minha mente sem ter tempo, nem jeito, de pensar em nada. E aquele menino, sim, aquele menino deitado ali, meus braços seu único apoio; meu corpo, seu sustento; minha pele, seu chão... E como posso dizer que tudo isso passou só por que não quero te incomodar ligando? Não sei...
É que às vezes preciso ouvir tudo aquilo que só você sabe dizer. Eu lembro também do que você diz. Eu lembro também que às vezes também se sente inseguro como eu, também me procura, também exige certas coisas de mim, mas isso não importa nesse momento. Nada importa. Queria que o meu telefone tocasse e que fosse você. Parei um segundo, fiquei esperando pra ver se meu desejo se realizava. Nada.
É por isso que tantas vezes eu quis desistir. É difícil demais, pra mim, amar assim. Não posso ficar tão longe, não quero ficar tão perto. Quero te ter também quando eu quero, e deixar de ser a menina que sacia teus desejos, que te enche de beijos, de mimos, de carinho. Que te reserva todo o espaço que tem dentro de si e que quando não te tem, vira um vazio completo, vira uma casa sem teto, vira um mundo sem chão. Mas como posso deixar de te amar dessa maneira? Como posso te apagar se acabo de dizer que você preenche todos os espaços? Como posso ir, sem te levar comigo, se você está em mim?
Sei que meus pais não gostam de você, não sei bem por que, mas eles não suportam a idéia de que eu esteja envolvida com alguém como você. Mas isso também não me importa. O que eles dizem sobre você ainda me faz sofrer, por que sei que eles me amam e que como tal querem que eu tenha tudo o que me faz feliz e você é a única coisa que ainda me traz um pouco de felicidade, mas deixemos isso pra lá.
Quero lhe falar do meu amor e não comecei do jeito certo. Comecemos, então, agora, pelo começo. No dia em que nos conhecemos, nem sei o que dizer. Namorei um monte de caras na minha vida e aprendi como lhe lidar com eles, mas com você foi tudo tão diferente.
Eu sabia que do jeito que eu tava eu não ia nem conhecer ninguém. Também, era meio de semana e não tinha muita gente de fora, nem era pra ter. Eu nem queria sair de casa naquele dia, mas minhas amigas me convenceram a ir, mesmo que eu voltasse logo. Eu fui.
Tava morgado, chato, eu não queria ta ali, repito. Não tava legal e sabe muito disso. Elas queriam um autógrafo. Eu conhecia o louquinho lá do ônibus. Eu fui pedir esse favor a ele e foi então que tudo aconteceu. Eu lembro que ele apontou você, pediu pra eu te pedir, que você era primo e tal. Mandei que elas falassem com você, ficaram com vergonha. Agora sabe que eu não gosto de frescura, por isso te chamei e te pedi o tal autógrafo.
Sei que acha que sabe o resto, mas não sabe nada. Não queria ficar com você simplesmente por que não gosto de ficar com estranhos. No mínimo tem que ser amigo de uma de minhas amigas. Mas você, nem sei. Aos poucos você foi me convencendo, arrumando gente em comum. Poliana, ex-namorada do meu irmão, tua prima. Mas não foi por isso que eu fiquei com você. Sinceramente, eu não sei um só motivo pra ter ficado com você naquele 14 de setembro.
No outro dia, quando eu acordei, depois que eu percebi que não sonhei por que vieram me perguntar quem era aquele galego que estava comigo, eu quis me matar. Não podia ter ficado com um cara que eu nunca mais veria na vida. Contei a meu pai, ele xingou um pouco, disse que a gente não pode dar liberdade a qualquer um e tal. Mas o mau tava feito. Eu estava cheia de marcas, algumas desapareceram, outras...
Feriado! Dois dias depois, outra vez eu saio de casa, estava grilada com nossa história, então não ficaria mais com ninguém desse jeito. Aí sim, me arrumei, fui pra festa. Eu ia saindo do meu do povo toda empolgada, desse meu jeito, gritando, mexendo as mãos, fazendo um monte de loucuras, quando eu te vi. Eu parei um segundo pra ver se era você, nossos olhares se encontraram, fingi que não te conhecia e andei rápido. De longe te mostrei a uma amiga. Ouvi quando as minhas amigas que estavam com você gritaram, mas tive vergonha de voltar lá e ter que falar com você.
Propositalmente, passo outra vez pelo mesmo lugar. Acho que vou conseguir escapar, mas minha amiga pára bem na minha frente. Vou ter que falar com você. Você puxa papo, minhas amigas vão sumindo, de novo você implora, rasteja, desculpa se não gosta desses termos, mas é a verdade, você se humilhou por um beijo meu. Eu acho isso lindo!!! E a gente fica de novo. Pede meu telefone, eu não dou.
Até hoje me pergunto por que fiz tanto jogo duro com você. Vou parar um pouco e voltar ao dia em que nos conhecemos. Lembra que choveu? Eu sempre dizia que meu príncipe ia chegar num dia de chuva, por nunca achei nada mais romântico que um beijo de chuva... Sem comentários. Voltemos.
Conseguiu meu telefone e me ligou. Achei que era trote, algum amigo meu com graça. Já tinha se passado um tempo e eu havia te levado como uma brincadeira, como uma coisa boa pra lembrar toda vez que eu ouvisse Mano Valter. Mas você, outra vez, me desculpe, implorava um beijo meu. Marcamos. Você sabia onde era minha escola, mas quando eu saí, você não estava lá. Quer dizer, você tava, nos desencontramos.
Achei que tinha levado um bolo. Pelo menos você não me procuraria mais, a nossa história terminava por ali. Mas você tinha ido, e a gente, na verdade, não se encontrou. Você me ligou de novo, e de novo. E a gente marcou e você apareceu. Eu, toda tímida, todas as minhas amigas ali. Você, todo sem jeito, foi tentando arrumar um meio de me pedir um beijo.
E você ali virou rotina, presença garantida. Todos sabiam o dia que você ia aparecer. Eu comecei a esperar ansiosamente as quintas-feiras, a faltar aula alguns dias no colégio e mandar minhas amigas ligarem pra chamar você. Tudo bem, eu não tenho mais vergonha de dizer que era eu quem pedia pra você ir e você sempre ia. Você nunca me disse que não. E tudo isso fez ir crescendo uns sentimentos meio tolos, meio bobos, mas intensos.
E as pessoas começaram a comentar na minha cidade, eu ficava com vergonha, minha mãe brigava, eu não sabia o que dizer. Minhas amigas diziam que a gente namorava, eu dizia que não, você nunca tinha dito nada, ficava o tempo inteiro com a aquela história de amizade e era só nisso que eu acreditava. Mas aí um dia, 11 de dezembro, umas seis horas da noite, em frente a minha casa, depois de termos passado a tarde inteira juntos, depois de eu ter brigado com você, você falou. Eu nada respondi, eu te beijei, não sei se lembra. E só depois disse podia dizer que você era meu namorado.
E foi por saudade e por vontade de te ver me pedir um beijo que eu saí pra uma festa e fui no Ano novo pra tua cidade. Meu coração bateu forte achando que não iria te ver, mas você, na hora certa, como se a gente já tivesse combinado, foi passando perto do carro quando eu cheguei. Sei que foi rápido, mas de repente, fui sentindo que com você todos os meus sonhos, os meus desejos, por mais loucos, as minhas vontades, foram pouco a pouco se tornado reais. Você foi a primeira pessoa que eu olhei nos olhos quando esse ano começou e acho que isso me deu uma sorte tremenda.
Sei que depois disso passamos mais de um mês sem nos vermos, mas quando a gente se encontrou de novo, foi pra comemorar minha primeira vitória, eu havia passado no vestibular pra o curso dos meus sonhos. Inacreditável!!! Eu não lembro direito o que dizemos um ao outro naquela tarde, mas lembro que ao sentir teu perfume de novo, o calor do teu corpo, a tua voz suave sussurrando em meu ouvido que sentiu saudade, eu senti o sangue percorrer meu corpo, eu me senti viva.
Eu sei que depois disso a história muda. A gente acaba. Eu vivo pelos cantos. Vivo com vontade de te ligar, mas tenho vergonha. Fui eu quem acabou e você podia muito bem nunca mais querer ouvir minha voz. Você podia até ter apagado meu número e nem lembrar mais de mim. No fundo, eu te mantinha vivo pra continuar viva também.
Voltei pra casa chorando na vaquejada. Você tava tão cheiroso. Por que você fez aquilo? Por que você falou comigo? Por que você ficou lá comigo? Podia muito bem ter me cumprimentado e ter ido ficar com teus amigos, mas não. Você ficou lá comigo, me torturando. Ás vezes você chegava tão perto, eu achava que você ia me beijar, mas você se afastava meio sem jeito. Ele superou, eu pensei.
Ressaca!!! Eu tava triste, minhas amigas me animaram. Último dia, eu já tava ficando legal, aí você aparece. A gente fica lado a lado o tempo inteiro. Você fala no meu ouvido. Você me provoca, mas você não me beija. Eu não entendo. Digo que tenho vergonha de te ligar, você me dá sinal verde, diz que posso te ligar a qualquer hora. Eu te ligo umas trozentas vezes, você me pergunta se, se for a Paulo Jacinto eu te dou um beijo, eu mando você ir, você vai, a gente fica. Todo mundo diz que a gente voltou, mas eu continuo dizendo que não.
Depois disso, eu descobri que as noites que eu passei sem dormir foi amor por você, que eu te amava de verdade e que, no fundo, eu tinha medo de assumir. Eu não podia mais nunca te perder. E eu vi tudo isso crescendo com a gente. E a gente ficando cada dia mais junto, e eu ficando cada dia mais dependente de você.
No dia do teu aniversário, eu fui lá te dizer um monte de coisa e não disse nada. Eu ainda não tinha certeza do que você sentia e achei que seria boba em dizer tudo o havia decorado pra aquele dia. Eu queira dizer que te desejava tudo de bom, que desejava ficar pra sempre contigo, que eu te amava, mas eu fracassei. Você não ia entender tudo o que eu havia pensado pra aparecer ali e eu nunca ia te disser nada do que pensei.
E sei que tivemos dias lindos e dias em que eu quis desistir de você. Teve dias em que eu dormi pra te encontrar nos meus sonhos e dias que eu não consegui dormi e meio sem jeito te liguei ou te mandei uma mensagem pra você acordar e vê o que tava fazendo comigo. E teve dias que de alegria chorei por você, por qualquer coisa que mim disse e achei linda, por qualquer coisa que fez. E dias em que chorei por tua causa, por uma raiva tola, por uma briga qualquer. Dias em que te procurei pra me achar e dias em que me achei pra te encontrar. Sei que sou difícil, que tenho meus problemas, mas eu amo você. Sei que às vezes dou meus ataques, mas você é a representação de tudo o que acho de mais lindo na minha vida e ainda tenho medo de te perder.
Te revelar tudo isso ainda me dói um pouco, mais depois do fim de semana que passamos em Maceió, depois de um ano e  três meses juntos,  depois daquele dia em que você chorou por mim, depois de você dizer que me ama, eu comecei a achar que você merecia saber que eu te amo de verdade, que quando te chamo de minha vida, não é só pra fazer fita, falar bonitinho, não sou romântica e acho que já percebeu, é pra te dizer que você é minha vida, minha vida. Que eu te amo, que eu te quero, que durante o tempo em que tivemos separados eu te esperei, eu imaginei você comigo, eu te quis, eu te quis pra sempre...
E sei que comecei do jeito errado, mas isso não importa...
E se meus pais não querem, isso não me importa mais...
E se você realmente vai me deixar um dia, não me importa...
E se tudo o que você disse ou fez for mentira, como dizem, não me importa nem um pouco.
O que importa é que eu te amo, eu te quero, se você me deixar você não vai embora, por que você está em mim e, se descobrir que tudo foi mentira, a maior verdade ainda estará em mim, o amor que eu sinto por você.
Eu sei que foi longo, to até com vergonha, mas meu amor por você é muito maior que isso. E, além do mais, você não vive dizendo que aqueles recadinhos são bilhetes de amor? Agora você tem uma carta só pra você, uma carta nada pequena, dá pra ler a noite inteira, quando alguém não te deixar dormir. E se a gente acabar mesmo um dia, me terá pra sempre com você...

Clara Belmiro
Enviado por Clara Belmiro em 08/02/2006
Código do texto: T109381
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Sobre a autora
Clara Belmiro
Paulo Jacinto - Alagoas - Brasil, 29 anos
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1 e-livros (158 leituras)
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Clara Belmiro