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Minha menina

Descobri que os filhos crescem, que fazem sua história sem precisar de nós, nós que os tivemos, os educamos, os ensinamos a viver. E um dia, como acontece com todo mundo, nossos filhos simplesmente partem. Alguns, partem pra outra cidade, pra uma outra casa, pra uma outra pessoas, mas, não raramente hoje, alguns partem pra uma outra vida.
Acabo de enterrar minha filhinha de 18 anos. Ela morreu num acidente de carro, ele morreu no carro que eu lhe dei no dia em que ela fez 18 anos. Achei que isso a faria ver que eu estava lhe concedendo tudo o quanto ela quisesse, que todo o meu trabalho, a minha luta diária era pra lhe satisfazer os desejos. Acho que ela não pensou assim e isso me dói.
Minha filha tão amada. Eu a matei. Ela era tão alegre, tão linda, parecia com uma das suas bonecas. Ela era tão inteligente, pena que passei tão pouco tempo com ela. Pena que adiei tantos encontros pra atender meus pacientes, pra cuidar do meu hospital e poder dá-lhe tudo o que quisesse. Ah, minha amada filha, o único mio de te manter viva é escrevendo sobre você pra esquecer a imagem de você naquele caixão, tua mãe chorando, teus amigos, teus avós. Pra esquecer a apenas uma hora que eu te dei meu último adeus. Filha amada, daria minha vida pra que você pudesse ter uma outra chance, minha querida.
Quando cheguei vim pro teu quarto. Ele ficará do mesmo jeito. Papai promete. Papai vai marcar um dia na semana pra ir te visitar e conversar com você. Papai te ama tanto. Minha vida parece perder o sentido minha princesa, agora que você se foi. Queria poder ir te encontrar, o que posso fazer pra te ver de novo? Olho tuas fotos penduradas na parede, como você foi mudando e se tornando cada dia mais linda.
Eu lembro do dia em que você nasceu, minha flor. Papai não pode estar. Meu hospital estava se conceituando no mercado de nossa cidade e não podia parar de trabalhar. Foi nesse hospital que você nasceu. Mas naquele dia 18 de janeiro de 1987 um dos meus pacientes, o senhor Carlos, teve um ataque do coração, ele era meu paciente desde que saí da faculdade e eu não podia, entenda, eu não podia deixá-lo. Eu não vi você nascer, mas a cada minuto eu torcia pra que ficasse tudo bem.
Mandei que chamassem os melhores médicos. Pedi pra fazerem teu parto todos juntos. Era a maneira de ter certeza que você e sua mãe, que eu amo tanto, ficassem bem. Você nasceu. Vieram me dizer que estava tudo bem e naquele momento meu pensamento era trabalhar ainda mais e te conceder até o que você pensasse que queria. Oh, minha linda.
Carlos acabou morrendo naquele dia e eu não pude te dar nenhuma atenção. Ele era meu amigo. A família dele era muito amiga da minha família. Eu saí do hospital, fui pro funeral dele, o sepultei e só depois que voltei é que eu fui olhar a minha princesinha.
Você era tão linda! Fiquei horas ali a te observar. E passei dois dias te olhando, dividindo meu tempo entre você e tua mãe. Eu te levei pra casa e fiquei lá te olhando. Tua mãe passou dias reclamando que eu não dava mais atenção a ela. E o teu nome, escolhido por mim, o nome de suas avós, Fernanda Cristina, um nome lindo, um nome de uma menina que seria minha sucessora, que tomaria conta do hospital que a muito custo consegui montar.
Não sabia mais em casa sem trazer um presente pra você. E você ia crescendo. Cheguei em casa um dia, já cansado, nem ia te ver, mas você vinha andando pra mim. E teve aquele dia em que me chamou de papai pela primeira vez. Fico emocionado só de lembrar. Minha filha, minha primeira filha. A realização de um sonho antigo, depois de quase dez anos casado.
Você ia crescendo cada vez mais amável, cada vez mais linda e cada vez precisando de mais coisas. Eu trabalhando mais pra puder te conceder todos os teus desejos. Esse foi o meu erro, filha. Não vi você nascendo, não te levei na escola, aquela que me custava uma fortuna, quase uma semana de trabalho, mas eu o fazia satisfeito. Ás vezes tua mãe reclamava, dizia que o dinheiro não ia me trazer nada, mas eu tinha em mente que nada queria, que eu fazia tudo por você, que teria muito tempo pra curtir a minha filhinha.
Um dia percebi que você cresceu. Foi na joalheria, comprando teu presente de 15 anos. Um anel de diamantes lindo. Eu vi que minha criança tão pequena e tão frágil havia crescido, que todos os comentários de que você estava namorando podiam ser mesmo verdade e que durante toda a tua vida, eu fui só o teu banco. Comprei teu presente e segui pra tua festa. Coloquei anúncios do teu aniversário em todos os jornais e revistas do nosso país, achei que ia se sentir honrada e lembro perfeitamente desse dia.
Já fazia alguns dias que a gente não se via. Entrei na tua festa todo empolgado, era, com toda a certeza a menina mais linda daquela festa, era a minha menina. Fui até você todo feliz. Você me olhou séria:
- Papai?
- Sim, filha. Por que o espanto?
- Quer tirar uma foto pra imprensa, né?
- Não. Vim ver minha pequena se tornando mulher.
- Papai. Tem muitos anos que não participa mais das minhas festas de aniversário, tem sempre alguém precisando de você no hospital.
- Nanda, papai já te expliquei milhões de vezes...
- Não precisa dizer de novo. Trabalha por mim, pra mim. Não quero o fruto do teu trabalho. Um presente, uma viagem, um colégio caro. Papai, nada do que me dá me faz feliz.
- Tem certeza? Olha só o que te trouxe.
- Um anel de diamantes?
- É tão lindo quanto você, minha jóia.
- Mamãe já me deu um desses.
- Como? Combinei com ela que ia trazer o teu presente.
- Ela só pensou que você não vinha e deu o presente do teu nome e uma pulseira pra combinar com ele.
Ela me disse isso e saiu. Coloquei o anel no bolso e rumei em direção a porta. Minha esposa veio atrás de mim, me disse que u sempre dizia que ia e não aparecia, que era o aniversario de quinze anos e que tudo tinha que ser perfeito. Um pai imperfeito, filhinha, era pesado demais pra você.
Por algum tempo me empenhei a tentar ser um bom pai, mas meus compromissos sempre me atrapalhavam. Você, sempre indiferente, me pegava, às vezes, te olhando pra você emocionado. Minha filha se tornava uma mulher.
E a decepção quando tua mãe veio me dizer que você não ia fazer medicina coisa nenhuma, que você ia fazer pedagogia. Não tenho nada contra a profissão, mas achava justo que um pai ajudasse a escolher o curso dos filhos. Depois de tanto amor, tanto trabalho... Acabou que depois de tantas brigas, você não fez um vestibular se quer.
Faz quinze dias que você vez dezoitos anos. Eu vou me aposentar esse ano. E, na tentativa de te trazer de volta pra mim, eu te dei um carro de presente. Eu escrevi no cartão que só podia sair com ele quando tirasse a carta de habilitação, mas você não me obedeceu.
Há dez dias saiu de casa no teu carro escondida, passou dois dias sem dar satisfação. Tua mãe ia ligar pra polícia quando tua amiga ligou pra dizer que você tinha sofrido um acidente. Mandei minha equipe móvel te pegar no local. O carro estava com 8 pessoas, com capacidade apenas para 5. As duas meninas que, segundo a perícia, vinha na frente com você, morreram na hora. Nada pudemos fazer.
Hospitalizei todos os teus amigos e me dediquei a você esses últimos dias, mas você não resistiu. Minha linda Fernanda morreu. A perícia descobriu que estava drogada e eu nem sabia que você bebia. Mais duas pessoas morreram em decorrência do acidente. Uma foi liberada, outra está em observação e a outra está em coma.
Eu acabei de chegar do teu enterro e até agora choro. Minha dor é a de um pai que não soube ser pai da sua única filha. Minha dor é de ser apenas um fornecedor de sonhos, um empresário, um empregado do trabalho. Sei que agora partes, minha linda. Parta com Deus.
Eu, bom, eu vou arrumar um meio de começar tudo de novo.
Clara Belmiro
Enviado por Clara Belmiro em 13/02/2006
Código do texto: T111470
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Sobre a autora
Clara Belmiro
Paulo Jacinto - Alagoas - Brasil, 29 anos
30 textos (2945 leituras)
1 e-livros (158 leituras)
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Clara Belmiro