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Minha menina - o relato de uma mãe

     Nem sei o que dizer-te, filha. Pensar é até difícil. Minha filha, minha única filha, hoje enterrada, sepultada pelo destino. Pagou as consequências por ser inconsequente. Desculpe-me, filha, mas a culpa que teu pai sente faz eu me sentir pior.
     Sempre te expliquei que teu pai trabalhava pra me manter em casa, tomando conta de você. Enquanto ele te dava tudo pelo lado material, eu tentava te orientar, te ajudar, te apoiar e isso não fez de você uma pessoa melhor.
     Quando você nasceu teu pai nem pode ver você, trabalhando pra que você tivesse tudo o que quisesse. Filha, você ainda nem tinha vida, de fato. Mas teu pai, tão bom, tão preocupado com você, hoje se sente culpado, queria ter trabalhado menos, queria ter agido diferente. Ele foi perfeito. Por que fez isso com a gente?
     Teu pai não estava com você, mas eu estava. Eu estava com você quando você chorou pela primeira vez, quando riu pela primeira vez, eu vi teu olhar de anjo naquele momento. E por três anos, que passaram tão rápido, é verdade, eu não fiz outra coisa além de ficar com você. Eu vi tua primeira queda, minha linda. Eu chorei com você naquele momento. Eu passei noites sem dormir quando teus dentes estavam nascendo. Eu estive com você.
     Fui eu quem te levou na escola. Eu não só te levei. Eu fiquei lá mais de um mês, sofrendo com você essa separação. Eu achava a casa vazia e ansiava a tua saída do colégio. Você vinha tão natural, começou a vir até feliz, minha lindinha. E eu te ajudava como podia, pintando, pegando em tua mão, até que um dia você mesma disse que já sabia fazer isso sozinha.
     Eu organizei todas as tuas festas de aniversário. Você me contou quando deu teu primeiro beijo e a gente teve aquele papo careta, como você disse. Eu não briguei com você, eu te apoiei. Eu falei com você sobre tudo quando você fez 13 anos e percebi que agora já não era mais menina, você até já menstruava, minha filha. E passamos longas tardes falando sobre sexo, droga, namorados, colegas.
     O problema foi teu pai ter te dado tudo, permitido tudo, liberado geral. Sabia que tinha a mim pra qualquer coisa que desse erado. Você foi esperta demais e infelizmente morreu na buraco que você mesma foi cavando. Eu te explicava tudo sobre o mundo, eu viajava com você, eu estava sempre disposta.
     Eu deixava meus amigos me esperando se surgisse algum problema com você, como da vez que o Antônio te deu um fora. foi teu primeiro fora, teu pai estava trabalhando, mas eu estava em casa, eu acudi você e teu pai te deu uma viagem de presente pra você esquecer o cara.
     O que mais você queria da gente? Por que desde a tua festa de quinze anos você mudou. Eu te procurava sempre pra saber o que estava acontecendo, mas você dizia que não era da minha conta. minha vida que era você se reduziu a nada e esse últimos três anos virou um inferno. Eu sabia, eu presentia, que alguma coisa ia acabar mal, minha filha, minha pequena filha.
      Os dois dias que você passou sumida eu também sumia pouco a pouco, até aquele telefonema me acoradar. E os dias que passou entre a vida e a morte eu passei com você, até que a morte venceu.
      Se eu me arrependo? Se eu me culpo? Não. A escolha foi tua. Você conhecia o mundo, as coisas, a vida. Eu te apresentei a tudo, se fugiu com o carro que teu pai carinhosamente te deu, foi inrresponsabilidade tua. Se estava drogada, foi inconsequência tua. Eu fiz tudo pra que tua vida fosse perfeita. E se você a destruiu, azar o seu.
      Desculpe se está achando que eu acho bom que minha única filha tenha morrido. Eu choro só de lembrar que minha princesinha, a menina a quem dediquei a vida, que passei dez anos só planejando a sua vinda, morreu. E morreu por tentar experimentar tudo o que eu havia explicado que não era o rumo certo.
      Eu apoiei você quando disse que não ia fazer medicina. A vida era tua e queria que fosse feliz. eu estava com você quando chegou do motel pela primeira vez, e te enxerguei mulher. Não venha me dizer que eu errei. O erro foi teu e eu quem perdeu. Podia ter tido mais filhos, mas preferi me doar a você, Fernanda. Podia ter cuidado mais de mim, mas preferi cuidar só de você. E isso me deixa aliviada, por que sei que eu te alimentei de um lado e teu pai de outro.
     Você tinha tudo o que precisava para ser feliz, mas você escolheu morrer. Você escolheu. Não posso mais escrever. Meu último adeus.
 
Clara Belmiro
Enviado por Clara Belmiro em 15/02/2006
Código do texto: T112319
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Sobre a autora
Clara Belmiro
Paulo Jacinto - Alagoas - Brasil, 29 anos
30 textos (2945 leituras)
1 e-livros (158 leituras)
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Clara Belmiro