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INQUIETUDE E TURBULÊNCIA?

Como estão funcionando as safenas? Que tal a máquina turbinada? Espero que a turbulência cardíaca tenha perdido fôlego. É meu desejo que estejas em franca convalescença. Rogo a Deus por tua saúde.

Tu és precioso ao nosso meio associativista. Sabes fazer amigos. Sabes prestigiar os atos desta função social que congrega os poetas, escritores, músicos, enfim. Tuas constantes vindas de lugares distantes aos eventos de premiação em certames literários valorizam os atos e prestigiam os seus promotores. Dá-nos referencial e norte para o futuro, principalmente no que tange a auxiliar e pôr na vitrina os novos e os novatos – os que se ensaiam recentemente na prosa, no verso, na arte plástica, etc.

Acuso o recebimento da cópia dos originais de tua obra. Já estou trabalhando nela, com muita atenção e afinco.

Constatei que há muitos lapsos de personalização, de possessão desabrida, cochilos de confidencialismo, os quais afugentam o leitor e não permitem que este se aposse do texto.

Outros com títulos muito longos, que enfeiam e desviam a atenção da temática do poema ou para aquilo que ele quer dizer, fugindo de certa objetividade que temos de buscar em poética da contemporaneidade.

O poema, identicamente como o que ocorre na prosa, tem que ter início, meio e final. Isto não é novidade. Observe-se o chamado "fecho de ouro" dos praticantes do soneto, o que define a transcendência poética e o apuro estético. E olha que isto vem lá do século XIII, com Petrarca!

Os cânones atuais estão muito exigentes, fugindo das loucuras de alguns gênios (?) que fizeram escola em meados do século XX. Tudo na busca de novos caminhos, no vanguardismo delirante do pós Primeira Guerra.

A genialidade criativa teve a recepção devida, principalmente ao tempo da tentativa correlata, em Poesia, à dos ditos abstracionistas, na arte plástica. Algo muito conotado com o mundo em crise sob todos os ângulos da vida. A desestruturação do ser humano frente a um meio ambiente em mudanças e em transformações de toda a ordem produziu seqüelas no espírito humano. Tudo isto está registrado no memorialismo da Arte. Balizamento para o futuro.

Aliás, o espírito humano está mais complicado. Há muitos estímulos pra quem observa tal ou qual fato. Muitas vertentes, muitas soluções. O que ocorre na matéria da vida cotidiana reflete-se na Arte. Há uma angústia de objetividade, de soluções urgentes.

O que temos hoje é o metapoema, a metalinguagem, a busca – pelos entendidos da área da inventiva e da criação literária – de vários sentidos conotativos e denotativos. Um poema, na estética atual, é uma verdadeira rosa-dos-ventos. Presta-se à instigação de amplo espectro.

A sugestionalidade teve de se ampliar, depois de séculos de escrita. Bem, o Brasil tem apenas quatro séculos de experimentação literária. Os cânones são imprecisos.

Não é bem o que está no teu livro, nos originais em poesia que me chegaram. Afinal, a opção memorial, a contingencial historiográfica do autor não pertence à atual estética.

Mas a tua opção pela inspiração quase sempre rimada é uma linguagem que tem leitores. Mais do que os que aderiram à linguagem da contemporaneidade. Esta vai se registrar no futuro, daqui a uns 50/60 anos, no mínimo. Isto para aqueles que conseguirem sobreviver ao torvelinho do atual momento global e, em particular, ao nacional em língua portuguesa.

Ou seja, aquele momento de reconhecimento daqueles que foram profetas da palavra, os que viram adiante, como é da etimologia do vocábulo ‘poeta’, que é sinonímia da ação de fazer, no "poiesis", ou daquele que faz, no "poietés", no idioma dos gregos. Ou a profecia, a antevisão dos vates, a ação prática do "vaticinare" dos romanos.

Bem, mas tudo isto é futurologia, ou o quase exercício desta. Um analista crítico vai voltar-se sobre o que se está a escrever no momento atual e identificará escola, grupo ou pessoas que, ao realizarem o ato solitário de escrever – metaforizando a vida, mimetizando-a – estiveram adiante de seu tempo.

Mas me preocupo quando estou tratando com um autor a quem admiro como pessoa e que tem talento, como é o teu caso.

Há algumas repetições de verbos, adjetivos e complementos que nada têm a ver com a proposta poética contida no cerne do poema.

Há que se cirurgiar algo, sob pena de pegares um crítico que logo se dará conta de que o autor não se debruçou sobre o seu texto.  Gosto de tua lavratura e não posso deixar de te salientar isto para, inclusive, safar o meu engajamento espiritual com a obra.

Peço permissão para fazer cirurgias e anotações, não me ateria somente à tarefa de prefaciante, e, sim, faria uma copidescagem técnica, buscando atender o que o autor quis dizer. Estou autorizado?

Imaginei que seria bom examinar isto em conjunto com um confrade aqui residente, alguém com quem tenho afinidade, e que esteja afeito ao soneto e ao verso rimado.

Lembrei do Dr. José Moreira da Silva, advogado, poeta e prosador de bom calibre. Ele poderia fazer um estudo com destino às orelhas do teu livro. Acresça-se que ele está na presidência da Academia Literária Gaúcha – ALGA. Que tal?

Sei que todos virão a ganhar em muito. Examinaremos a arte poética, e, ao haurí-la, teremos um pouco de ti. A recriação da vida se dará contigo em nós.

Peço a tua confiança. Não sei se somos homens bons, mas estamos tentando ser humanos, coletivizantes. Talvez política e esteticamente corretos.

– Do livro CONFESSIONÁRIO - Diálogos entre Prosa e Poesia. Porto Alegre: Alcance, 2008, p. 262:5.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/120532
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 08/03/2006
Reeditado em 06/05/2010
Código do texto: T120532
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709627 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 04:34)
Joaquim Moncks