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O PODER DO AMOR

O poder do amor não vem de qualquer cabeça de papel nem é milagre. Pode vir do lado oculto ou de um final de jogo quando o grande silêncio passa pela noite, veloz e com plenos poderes, e segura o dia com as mãos.
Você deve ser um estranho para buscar esse poder. Não pode ser um navegante contumaz que a cada viagem recebe como prêmio de consolação uma canção desesperada misturada com restos de estrelas e gotas de medo.
Não pode ser covarde. Tem que saber cuspir fogo e receber a mensagem, que, em forma de ode, um imperador troiano cavalgando uma ostra e vestido com a cor da viuvez sussurrará em teu ouvido.
Você escutará e guardará essas palavras: “A resistência ao vírus quente que nasce através da idéia de uma solidão até então inédita me levará a momentos eternos e silenciosos.”
A tentativa de decifrar o sentido dessa mensagem o levará a uma casa de loucos por onde permanecerá até conseguir juntar todos os fragmentos da asa de borboleta que vai receber de presente do um céptico errante. Quando sentir que teu coração pode ver e ouvir o desespero das pedras, descobrirá que o poder tão procurado não existe.
Tentarás então a busca da libertação.
Como um lobo, passará cem anos a vagar, se metamorfoseando em salamandras e leões e morando em ninhos de serpentes até o dia em que o diabo – ou deus – o fará parar numa porta qualquer. Ao escutar o som de uma navalha acreditará que a longa caminhada enfim terminou. E sorrirá com o fim próximo do amargo pesadelo.
Mas a navalha te recitará um soneto indecente, rirá de teu corpo maltrapilho, o chamará de rei e de tolo e desaparecerá deixando um rastro de sangue e lágrimas.
Você continuará a vagar até que a experiência do pensar sem parar o levará ao desespero lancinante que nem uma paixão consegue aplacar. Então em uma manhã de névoa e orvalho você irá se recostar em um muro, espantará uma mosca com a dignidade de um príncipe, apanhará um pedaço de papel jogado no chão e num último esforço lerá a palavra lá gravada. Repetirá essa palavra como um mantra.
Da escuridão sairá a morte. Você sorrirá, dirá mais uma vez a palavra, amará um instante, um alguém e desaparecerá como pó, finalmente liberto da dor do poder do amor.



1978
lineu de paula
Enviado por lineu de paula em 09/03/2006
Reeditado em 09/03/2006
Código do texto: T120948
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Sobre o autor
lineu de paula
Estados Unidos, 62 anos
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lineu de paula