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CRIAÇÃO POÉTICA EM MATO GROSSO DO SUL

(para Darci Cunha, agrônomo por formação, escritor, primoroso ativista cultural)

Referência: consultoria cultural permanente, formação de quadros técnicos de escritores oficineiros, participação na comunidade e na escola, etc.
 
É oportuno agradecer vivamente as tuas orientações e informações, querido amigo.

Sabes muito bem o que nos move, que é a ingente tarefa de formar cabeças para os próximos trinta anos de Mato Grosso do Sul, na área de Letras, ou melhor, na área da inventiva e da criatividade poética. A formação acadêmica, em Letras, é tarefa dos mestres, que são preparados para tal. Esta não nos compete. Sou apenas um criador literário com certa experiência...

O desafio é fomentar o desenvolvimento dessa maravilhosa capital campo-grandense, que vem crescendo em tantos outros segmentos. Sei de nossas responsabilidades.

O que nos compete é provocar, instigar os poetas-alunos a identificar a transfiguração da matéria da vida e a fazer versos de sua contemporaneidade formal. Também descobrir que o bom artista não obtém reconhecimento ao seu tempo de viver, a não ser que chegue à casa octogenária com lucidez, ainda em processo de criação pessoal.

O professor e acadêmico Américo Calheiros, o gestor do mecenato oficial – com muita lucidez – percebe cada vez mais aonde pretendemos chegar. E tem dado sinal verde. Mais do que isto, promovido o fomento correto para o Futuro.

Estive estudando os assuntos durante mais de doze dias, mas ainda não sei o que fazer, e/ou se tenho de fazer algo, realmente. Acho que terei de deixar o gestor me contatar pra saber de que modo posso ajudar.

Para vocês, nossos oficineiros, de que adianta receber autores consagrados, se estes só querem vender livros e se jactarem de sua obra? Eventualmente teremos algum que tem a visão propícia e conciliatória para com o poeta iniciante. Não conheço um que mergulhe no universo da palavra com a necessária profundidade, em sala de aula com oficineiros, ou que tenha a "cara de pau" de entrar forte no universo de criação, com bem disseste em determinada ocasião, referindo-te aos nossos métodos.

É que agora vocês já sabem que trabalhamos para vocês e por vocês. Por isso toleramo-nos com menos restrições. Mas elas sempre existirão, porque estamos tratando do que é mais íntimo: o universo psicológico do autor, seus afetos e frustrações. É este o manancial de que se haure o poema.

Enquanto vocês não se inserirem nas Universidades, teremos de ficar na expectativa de que se possa ter um engajamento com o Departamento de Extensão de tais entidades de ensino superior.

Já estamos experimentando este sucesso em Pelotas, com a Universidade Federal. Através de um acadêmico de Letras do 3º semestre, chamado Júlio Cezar Maria Elisalde, que veio do Alegrete pra Pelotas há apenas 05 anos, estudioso, e bom ativista cultural. A ele sugerimos o projeto PONTE PARA O FUTURO, entrosando estudantes de espanhol de Pelotas e de la Universidad Uruguaya, Facultad de la República, de Letras y Humanidad.

Faz dois anos que o projeto existe. Já estivemos em Montevidéu, em excursão onde cada um pagou a sua passagem. Sabes quantos alunos uruguaios havia? Somente seis, porque a retrógrada universidade uruguaia necessitava do aval do Ministério da Cultura e o projeto não nascera da direção da Faculdade, era “coisa de aluno”. Salvamo-nos do insucesso através de nossas ligações com o associativismo cultural privado, as entidades e os amigos. Ficamos comendo como quem come mingau quente: pelas beiradas!

Agora estamos com novos problemas: o Júlio Elisalde, estudante madurão, está morrendo de câncer de próstata, aos 54 anos, e tudo voltará a estaca zero, porque professor nenhum quer abraçar o projeto. Não é que não queiram, é que não sabem o “como fazer”.

Entendes porque é preciso agente qualificado para implementar projetos? Não adianta só ser criador – e dos bons –, é necessário que sejamos ativistas culturais e literários.

Temos trabalhado o “COMO FAZER", nas oficinações. Os professores que conheço trabalham o “QUE FAZER”.

Para o “POR QUE FAZER?”, entendo que vocês já têm resposta: a evidente necessidade de conhecer o aparato técnico e, com este, melhorar e adequar o texto à contemporaneidade literária.

Enfim, é necessário se ter a consciência de que não se pode ser um mero diletante. Talvez deixar de “olhar o próprio umbigo” com tamanha paixão. E saber o porquê de não se fazer isto.

Chegar-se próximo à impessoalização do texto (a minimização do subjetivo, o reconhecimento e a identificação do alter ego do autor) para que se possa chegar aos leitores. Abrir uma janela pra que eles se apossem do texto como se fosse deles. Este apossamento do texto pelo leitor é o que vende o livro, o produto final.

O que o leitor quer é se assenhorear das palavras, da obra, para podê-la gozar, sentir prazer. É similar à paixão compulsiva do autor em relação ao seu texto, que agora se manifesta no leitor. Este frui e recria da mesma forma, mesmo que com intensidade e ótica diversas. Às vezes, o leitor descobre na obra, o viés que lhe interessa. E ele sempre busca na proposta literária esta identificação.

A possessão não existe só no autor, ocorre também no leitor.

Também se impõe tentar administrar o eventual sucesso, a notoriedade haurida pelo reconhecimento da qualidade literária.

É tarefa difícil – mas é possível lograr êxito – a conciliação do sucesso pessoal e o fazer assentado no associativismo literário, no coletivismo, no solidarismo. Ter o outro em sua mira de amor, de troca, de experimentações.

O “QUANDO FAZER” só sabe aquele que determina, o que detém as verbas, aquele que tem a chave do cofre. E “quem manda é aquele que paga a conta”, diz a sabedoria popular. Assertiva dura, mas verdadeira. Aquele que está fora da administração, pública ou privada, nunca sabe quando há dinheiro disponível e o quantum para projetos, tarefas, custos e honorários.

O ideal seria que se fizesse uma pesquisa envolvendo o universo de oficineiros das nossas três turmas e algum lá que outro interessado. Se bem que eu preferiria ficar somente com o nosso universo de escribas-aprendizes.

Temos várias turmas, e a heterogeneidade felizmente é um fato: muitos novatos e outros que já pertencem ao noviciado em criação poética. Tudo o que nos esforçamos para construir é a repulsa à conduta do diletante: aquele que não lê e se acha maravilhoso, pronto e acabado para o sucesso na literatura. E o que é pior, de uma pronunciada auto-estima.

Enfim, a regra é: diletantes que desejam espaço para a sua promoção.  Ou achas que estão esperando escrever bem pra tocar livro pra rua? Que nada, é só firulagem. É exceção aquele que gosta de estudar, aquele que discute a sua obra com os colegas de exercício da poética – os companheiros de trajetória.
De cerca de sessenta preciosos companheiros não temos, por ora, cinco alunos preparados para a sala de aula, no caso do projeto da FUNDAC, tal como se apresentava no ano passado: transformá-los em provocadores intelectuais e de sensibilidade para fomentar o poema, instigadores para mexer com alunos do ensino médio, nos bairros da capital.

Ainda bem que tivemos a oficinação recentemente finalizada e temos o aproveitamento do êxito com os “Encontros dos Oficineiros”, iniciativa de grupo nascida em ótima hora. Aposto tudo em vocês e com vocês, mais do que em reforços externos que podem estragar o que já foi feito. Até porque os novatos “pegam o barco andando”.

Que tal vires a pensar na idéia de retornares à Universidade para um Mestrado em Teoria da Literatura, por exemplo?

Alguém tem de fazer a ligação com a Universidade, e a que me parece estar mais próxima da Fundação Municipal de Cultura é a Universidade Católica Dom Bosco – UCDB, que dispõe nos seus quadros de figuras eminentes como a professora Bárbara, Coordenadora da área de Letras. Lembro, com muito respeito e carinho, de nossa estimada mestra e poeta Raquel Naveira, que faz universalismo poético com a sua vertente amorosa e regional.

Como bem podes ver, há muitos desafios a serem superados.

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/124665
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 17/03/2006
Reeditado em 13/10/2008
Código do texto: T124665
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709625 leituras)
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Joaquim Moncks