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A CAMISA-DE-FORÇA DA POESIA

O Dr. José Moreira, poeta e ativista cultural, atual presidente da Academia Literária Gaúcha – ALGA, já fez retornar os originais com o seu comentário crítico e criou um projeto analítico geral para possível inscrição na orelha da publicação impressa de teu livro.

Também ele entendeu que os poemas ainda estão imaturos, um pouco desconexos, apesar do tema genérico de titulação do livro.

Ele percebeu – bem como eu – que há diferentes momentos de criação entre os vários textos coletados. Há muita distância temporal entre alguns poemas.

Não parece ser aconselhável reunir numa mesma publicação poemas muito antigos com peças poéticas recentes. Isto é facilmente perceptível. O leitor não reconhece o poeta que estava lendo. Fica confuso, meio perdido. De somenos, abandona a leitura.

Isto também ocorre quando o eu poético funciona como o histórico apontamento de Fernando Pessoa e seus heterônimos. A obra ou peça parece provir de autores diferentes.

Outra constatação é o estro pessoal ainda não sedimentado, sem estilo formatado, incapaz de individuar o seu criador no contexto dos escribas do verso. E isto me parece importante: a individuação do autor no contexto dos poetas de seu tempo.

Seja pelo tema, seja pela forma, ou pela perplexidade proposta ao leitor, como os versos da última fase de Mario Quintana, a de sua maturidade poética, aquela em que a transcendência da palavra joga ao leitor o véu do inimaginável ou o inesperado, que sempre surpreende pelo inusitado.

O que fazer se estes são os parâmetros de nossa geração de leitores?

Há cerca de cinco milênios de oralidade traduzida na palavra escrita, em poesia, e é preciso ter isto em conta.
Tem que se tentar o Novo, o inconformismo na poética. Algo que traga novo viés sobre tal ou qual temário ou formulação. Que esteja presente a originalidade, o estro do espanto.

Não importa se na fórmula do verso fixo, clássico, ou com a ritmação, o andamento rítmico da contemporaneidade, o chamado verso livre.

O verso branco ou livre, muito diferentemente do que pensam alguns desavisados autores, é de mais difícil confecção que os versos enclausurados na forma fixa, como o soneto, a trova literária, o haicai, enfim, o verso metrificado nas sílabas fônicas, assentados na rimação. Até o recente ‘poetrix’, variante nacional originária do haicai, tem suas limitações silábicas.

O clássico tem suas regras singulares, próprias a cada espécime formal. O soneto tem exigências muito peculiares, específicas, em tudo obedecidas as formatações silábicas e as rimas, principalmente nos decassilábicos e dodecassílabos.

Isto sem falar nas regras ancestrais do haicai chinês ou o japonês. Ou do recente haicai guilhermino, brasileiro como o samba.

Veja-se, por exemplo, a trova literária brasileira, a do neotrovismo de Luiz Otávio, desde 1960: composição poética composta de quatro versos setissilábicos, rimas alternadas, contendo um pensamento completo sobre um tema.

O que quero dizer é que o poeta da contemporaneidade não tem as ‘muletas’ técnicas que o clássico traz em sua bagagem acumulada em mais de sete séculos de formulação poética, segundo a sua historicidade.

Mas estou buscando, em tua lavratura poética, elementos estéticos que aconselhem a publicação com possibilidade de permanência literária. Como sei que o gosto da contemporaneidade, no geral é exigente, estou apurando e perscrutando a entrelinha de tua obra, OK?

Estás revisando algo dos textos que me remeteste? Ou já os tens como definitivos para a publicação?

Talvez porque para mim o texto nunca está pronto, procede a pergunta. Peço muitas escusas, portanto. É apenas uma visão pessoal sobre a obra em versos. Entendo que o poema nunca está pronto e acabado.

Como se trata de obra humana, vale a expressão popular:

— Até na hora da morte a gente está aprendendo!

Há que se fazer a cirurgia até a exaustão, buscando a síntese que caracteriza o poema da contemporaneidade.

Acaso o poema nasça derramado, prosaico, e assim permaneça por resistência de seu autor em fazer a transpiração sobre o primeiro momento de criação – a inspiração – ele já nascerá morto, obliterado pela passagem do tempo e os cânones da modernidade.

O contemporâneo contesta o tempo que passou. A realidade modela a cabeça dos que apreendem o tempo que passa. A Arte eterna é a transfiguração da matéria da vida.  Se o tempo presente é o do caos, como se querer uma arte comportada?

O verso silabado, rimado por contenção formal, é a camisa de força da poesia!

Peço que me visites no sítio de escritores cujo endereçamento aparece abaixo. Também estou organizando novo livro, o sétimo de minha obra solo.

Em coletâneas e antologias as participações em prosa e em poesia já andam viajando em cerca de 150 obras coletivas. O nome do autor vai ganhando notoriedade e a obra vai acumulando leitores.

E tenho aprendido muito com os curtidores da contemporaneidade, que pouco lêem nos livros impressos, mas estão sempre grudados no computador!

Principalmente os jovens, a quem nós, veteranos, sempre desejamos que leiam o que estamos a escrever, e que é também a possibilidade real de que o texto permaneça mais longamente na memória de nosso povo. Vamo-nos por volta dos setenta, e os jovens contemporâneos tendem a ficar mais tempo neste plano terreno.

A recente descoberta é a importância vital do título em qualquer trabalho, seja em prosa ou no verso. Sempre fica um pouco do subjetivismo do autor na hora de colocar o título do trabalho, principalmente no poema. É cochilo possessivo que atinge todo o autor, mesmo que seja cuidadoso com a qualidade de seu texto.

A interatividade internáutica deu-me uma nova visão do leitor, esta é uma verdade palpável.

Nos sítios da Internet o observador tem de ser instigado a abrir o arquivo que contém o texto, se não ele passa e não vê o recado que está ali posto à sua disposição.

Há muita coisa boa pra ser vista na grande rede, contando-se inclusive com o recurso das cores e a emolduração, as quais ressaltam a congeminação entre a arte plástica e o poema.

Desta viajada atual de inventiva literária talvez saia o meu eventual estro prosaico em livro.

Enfim, já publiquei seis livros no gênero poesia, mas a prosa está dispersa em jornais, revistas, coletâneas e antologias. Estou ficando maduro e gostaria de a recolher em livros.

A prosa me parece algo bastante difícil, porque esta tem cânones diferentes do que estou acostumado. Na poesia já consigo me remexer um pouquinho. São 33 anos de publicação em livro.

Afinal, de novo a sabedoria popular:

— O cachimbo deixa a boca torta!

– Do livro CONFESSIONÁRIO - Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/135559
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 07/04/2006
Reeditado em 08/09/2008
Código do texto: T135559
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709761 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 07:33)
Joaquim Moncks