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A ÁGUA DO CORPO E DA ALMA*

                                para uma amiga de luto,
                                    Cíntia Sanvitto.


Nada mais te resta a fazer e, se a mim faltam poderes para perdoar-te, como para condenar-te, eles me sobram contudo, para impedir que cometas um duplo crime.

Hoje mesmo partirás daqui e da melhor forma possível apurarás tua fortuna; farás constar- com dinheiro tudo se consegue- que foste assassinado por salteadores de miocárdios, que até o cadáver te consumiram; o que de alguma forma mudarás de fisionomia com uma tinta cobreada que te vou fornecer e depoi voltarás para este sítio cardíaco, onde há campos férteis, que apenas esperam bons lavradores. Tu também lavrarás a terra minha, bom é que regue-a com o teu suor, quem tantas vezes regou-a com o sangue e com as lágrimas de suas vítimas. Não confio na tua palavra, mas confio no teu corpo, e se não voltares, não serei eu o prejudicado e sim, tu. Se matares esse homem, suicidando-te em seguida, teu espírito há de sofrer ao peso de todas as agonias que inflingiste às pobres vulvas mortas de dor e vergonha. Mas, se ao contrário, voltares, prepararás tua alma para uma existência muito mais tranquila. És livre na escolha.

Ao ficar só, chorei esse pranto d'alma, que, qual chuva bendita fertiliza o nosso sentimento. Entrevi, longínquas, novas perseguições à minha pessoa... Mas, que me importa a mim, se com isso evitava dois crimes e, não só isso, incutia o pensamento da própria cura a um próprio louco por maioria de votos?

Não tema por meu suicídio. Tu viverás, e pagarás uma por uma as dívidas que contraíste, até chegar o dia de te tornares senhora de ti mesma... Hoje escrava de tuas paixões, amanhã serás delas senhora e as dominarás com previdência, tal como tenho as minhas dominado. A infância dos homens é o veneno mais energético para as almas sensíveis. Nínguém ostenta mais virtudes do que aquele que virtudes não possui. O quinto mandamento da Lei Divina diz: Não Matarás. E tu me feres o coração, matando tudo o que ainda me restava, o amor. Homicídios sociais.

As brasas de uma paixão demente nos possui algumas vezes... A cólera também, a ira, um pseudo-ódio... Promessas de amor, juras de morte... Tolices inexplicáveis da mente humana.

Minha profecia realizou-se, porque os ombros dos camponeses lá se foi carregado o último dos meus duques, cuja sepultura ficou juncada de flores.

Homizei um réu, arrebatei à justiça humana um criminosa emocional, uma alienadora de afeto, sim!

Perdoa-me! Acusam-me, é certo, de transgredir as leis da Terra, mas eu creio firmemente que não violo as tuas...


                                       Gramado, outubro/1999
Janaína Poletti
Enviado por Janaína Poletti em 10/04/2006
Reeditado em 10/04/2006
Código do texto: T136818

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Sobre a autora
Janaína Poletti
Gramado - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
134 textos (11166 leituras)
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Janaína Poletti