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AOS MEUS ALUNOS

Meus aluninhos... Todos os dias serão difíceis. Todos os dias chorarei. Todos os dias sentirei pena e todos os dias chorarei por sentir essa pena. Pena de vocês.

O cheiro da vila continua na gente mesmo depois de ir embora. Não importa quanto tempo passe. Não adianta tomar banho ou trocar as roupas. O cheiro da vila fica dentro do nariz. E é pensar nela para o cheiro invadir, tomar conta. Fica parecendo que tudo tem cheiro de vila. Inclusive a gente. Não é um cheiro que vem de fora. É um cheiro que mora na gente, que gruda, que entranha na pele e nos cabelos. A gente vai coçar o olho, sente o cheiro na mão e desiste. Lembra da vila. Lembra do ranho escorrendo dos narizes. Lembra das roupas imundas, rasgadas. Lembra das feridas sangrando. Dos poucos dentes existentes, podres. Dos cabelos emaranhados, descabelados, cobertos de caspa. Dos pés gelados enfiados nos chinelos de dedo. Do jeito rude. Dos "desgraçados", "filhos da puta", "vai te foder, veado". Dos "eu vou te matar". A gente sempre lembra dos "eu vou te matar". E como esquecer?

Meus queridos aluninhos... O que eu posso ensinar para vocês? O que eu posso ensinar que servirá para as suas vidas? O que eu posso ensinar que vocês já não saibam?

Verbos? Odiar, sofrer, ferir.

Adjetivos? Preto, pobre.

Sujeito e predicado? Eu sou preto e pobre.

Futuro? Matéria inacabada, jamais explicada, indeterminada. Não há regra para o futuro, não há futuro perfeito, o que vem para vocês não consta em minhas gramáticas, não tem registro em dicionários, as fontes se perderam no decorrer do caos. O que vem para vocês, meus pobres e queridos aluninhos, eu confesso que não quero ser eu a dizer.

Eu, professora, nada sei das gírias, das malandragens, da sobrevivência. Nada sei dos barracos, das barrigas vazias, dos tiroteios. Nada sei do abandono e dos maus tratos. Nada sei de não ter duas cores para decidir, dois filmes para assistir, duas comidas para saborear. Nada sei de não ter escolhas. Eu, professora, não sei nenhum rap inteiro. Eu, professora, não sei fechar um. Eu, professora, não sei carregar pai bêbado nem mãe espancada. Eu, professora, não sei chorar pra dentro. Chorar com o punho fechado. Chorar em forma de palavrão.

Eu, professora, só sei orações subordinadas e, pelo amor Deus, para que servem as orações subordinadas?


Mulher de Sardas
Enviado por Mulher de Sardas em 12/04/2006
Código do texto: T137961
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Sobre a autora
Mulher de Sardas
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
50 textos (9999 leituras)
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Mulher de Sardas