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Adeus, seu Mário.

     Querida Luzia:

Ontem, 5ª feira, bem ao entardecer foi o dia, em que a velha

senhora da foice, como dizem alguns ou uma bela mulher, como

dizem outros, de visitar seu  Mário. Primeiro deu-lhe um

aviso,logo de manhã,ao romper da aurora, enquanto ele tomava

seu costumeiro chimarão que era sagrado antes do café.
     
Uma pontada no peito que o deixou sem ar. De imediato seu

filho mais velho, o Paulo, o levou, furando todos os semáfo-

ros  para socorrê-lo.  Chegou lá, foi examinado, medicado  e

lá pelas 4ª horas já estava bem, querendo ir para casa. Seu

Mário não gostava de médicos nem de hospitais. Bem acho que

isso é uma unimidade entre nós, exceto aos hipocondríacos. E

seu Mário não era um desses.

Bem, logo depois, veio-lhe o derradeiro golpe, um ataque car-

díaco fulminante. E seus olhos se fecharam para sempre junto

com a chegada da escuridão da noite.  Para seu filhos e al-

guns netos já crescidos que entendiam o que havia acontecido,

foi um baque brutal, como o é a todo o momento, em todos os

lugares, raças e religiões, esse fato único e certeiro nesta

paradoxal existência.

 Seu Mário foi um sujeito que viveu como gostava. Tinha uma

mulher dedicada, a quem amava e também era amado. Vários

filhos e muitos netos. Trabalhava por conta própria, não

gostava de patrão, nem que lhe dissessem a que horas chegar

e sair do trabalho. Ele mesmo se determinava. É certo que

esse seu modo de viver afetou, em alguns momentos, a vida da

família toda. Mas no final das contas todos sentiam-se

contentes com a vida que seu Mário lhes proporcionava. Não,

nada de riquezas, acúmulo de bens, propriedades, dólares,

nada disso. Era apenas um homem simples que trabalhava para

manter-se dignamente e em sua casa era um rei! Não haverá,

querida Luzia, casos que já presenciamos, de filhos bri-

gando, logo após o desenlace  do pai ou da mãe, pelos bens

que deixaram.

Todos receberão como herança o amor paternal e os valores

deixados por seu Mário. Afora seu legado de filhos e netos

muito lindos. Poucos herdaram seus olhos azuis, mas todos

tem matizes muito bonitas que vão do castanho mel ao azul

violeta  de uma das netas.

Seu Mário não gostava de tempero algum em sua comida, nem

cebola,nem alho, nem orégano, nem cebolinha verde ou salsi-

nha ou outro tempero qualquer. E  era respeitado. Todos se

adaptaram ao gosto de seu Mário. Nada de fazer comida sepa-

rada para os demais. Hum, hum! Seu Mário gostava assim e era

feita sua vontade. Os filhos e a  mulher aprenderam a comer

assim. Pois não é que  ficava gostosa? Mesmo sem  os tempe-

ros. Parecia magia. Talvez habilidades culinárias desconhe-

cidas daqueles acostumados com tantos ingredientes!

Sempre fumou seu cigarrinho sentado, com os filhos, os amigos

à sua volta, proseando sobre política ou  sobre a safra de

soja, como seria neste ano, pois dependia muito do  tempo,

que tinha um papel fundamental no cultivo do cereal.

Assim era seu Mário. Uma pessoa um pouco tímida, um pouco

retraída, muito sensível em algumas ocasiões. Há pouco tempo

descobri que era pisciano.

Piscianos são pessoas assim, com muita sensibilidade, apegado

aos valores da família, ao carinho da esposa, filhos e netos.

Dificilmente, deixam a terra onde nasceram. E assim aconteceu

com seu Mário. Se foi feliz? Acho que foi dentro dos seus

próprios conceitos de felicidade.

Há alguns anos descobriu-se diabético e com colesteroal muito

alto. Era uma figura magra, esbelta, sempre o conheci do mes-

mo jeito. Nem mais gordo, nem mais magro! E no entanto  fora

atacado por essas duas enfermidades que requerem, segundo os

médicos, muito cuidado.

Mas seu Mário não era de obedecer regras, era um homem li-

vre! No princípio até  parou de fumar e comia pouca gordura,

cuidava para não ingerir muito doce e assim seguiu por um

determinado tempo. Depois, esqueceu as recomendações e

continuou com seus prazeres: o cigarrinho entre os dedos e a

comida feita com banha de porco. Ah! Por falar nisso, ulti-

mamente, andava com medo da gripe aviária, então estava

ingerindo somente carne suína.

Mas a velha senhora que pode, talvez, tomar a forma de uma

bela nulher  o rondava e no menor deslize, aproveitou-se e

o convidou, compulsóriamente, a encerrar sua jornada nesta

terra. E segue o féretro do seu Mário, como o chavavam suas

noras e seus genros! Os quatro filhos homens carregaram-no

até sua definitiva morada. Na minha opinião, seu Mário viveu

seus setenta anos como queria.Trabalhava no que gostava,mes-

tre de obras de mão cheia, eletrecista, hidráulico e não se

michava se surgisse algum serviço assemelhado.Era um homem

que sabia fazer de tudo um pouco, mas com muita especiali-

dade  e capricho. Não submeteu-se a patrões, nem  foi

escravo de horários.Comia pão, feito pela esposa em casa,

bem temperado, aqui os temperos eram bem vindos:  com ovos, manteiga, leite tirado da vaca, açúcar, farinha  e pronto. Humm, uma

delícia, saboreado com café com leite e nata para completar.

Lembra quando íamos para lá? Num final de semana engordáva-

mos dois quilos  e seu Mário lá firme com seu corpo de bai-

larino espanhol! E assim seguia vivendo, sempre rodeado pe-

los filhos e netos que, aos domingos, reuniam-se para o al-

moço e o tradicional café da tarde. Os filhos estavam sempre

na sua volta, moravam na mesma cidade e bem próximos dele.

Havia um neto que ele ainda não conhecia, de um de seus fi-

lhos que saíra para ganhar o mundo. Mas até essa alegria ele

teve, pois o rapaz veio, dias antes, com a esposa e o neti-

nho para passear na casa de seu Mário.

Todos os filhos, mesmo os de longe, foram para despedir-se

do pai. Há muita tristeza num dia destes, mas se a abstrair-

mos, sua vida foi boa e sua morte também, visto que não hou-

ve longo sofrimento com dores e cuidados familiares, sempre

tão desgastante. Deve ter sido uma dor forte no "comboio

de cordas", como diz Fernando Pessoa,e pronto. Ponto final.

Adeus, seu Mário, siga a estrela que sempre o guiou!

A ti, Luzia, um grande abraço e vamos olhar para o céu vez

por outra para ver seu Mário brilhando no firmamento!

De Verônica.

Marla
Enviado por Marla em 22/04/2006
Reeditado em 09/06/2007
Código do texto: T143115

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Sobre a autora
Marla
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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