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PÁLPEBRAS ABERTAS PARA O FUTURO

(para Felipe Miranda, 21 anos, membro da Casa do Poeta de Santa Maria/RS)

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro" - Clarice Lispector.

Olá, meu talentoso garoto-poeta! Fiquei te aguardando ontem na Feira do Livro, ali na Praça Saldanha Marinho, na barraca da CAPOSM.

Conforme havias dito, virias ter comigo. Fiquei até preocupado com a possibilidade de que não tivesses gostado de algo do que te disse, de coração e espírito, em respeito à tua poesia.

Em verdade, o analista é um provocador, o intruso que chega trazendo o balde de água fria e o despeja sobre a matéria ardente onde arde o cadinho da Poesia. Esta água propõe uma nova fórmula ao que está posto.

Sabes, esta tal de análise literária, que as pessoas em sua defesa, chamam de "crítica" – assim fica mais fácil redarguir – é terreno minado para o analista que se atreve a tal.

Não me chames de Seu Moncks, simplifica para Moncks, ok? Afinal, eu só tenho a adolescência de minha poesia e o frescor oloroso da idéia em decomposição... (Rsss!)
 
Aquilo que sobra em mim, o materialmente restado, é porque “o acessório segue o principal", como se diz em Direito, – uma regra latina que tem mais de dois mil anos – consagrada na Lei de Introdução ao Código Civil de 1916, o do Clóvis Bevilacqua, que vigeu durante todo o século XX até pouco tempo atrás. A partir de 2002 tem uma nova Lei Civil que o substituiu. Como ainda não o li, pois não estou advogando mais, não sei se permanece como regra às normas cíveis codificadas. Intuo que sim, pois se trata de regra que pertine à indissolubilidade material.
 
De sorte que – aproveitando o normativo –, exemplifico e declaro publicamente que a minha carcaça serve para que eu ainda tenha pés de escafandrista (pregados no chão, de chumbo), para que não saia por aí voejando como o anjo Malaquias do Mario Quintana. Legal, não?

Publica o texto que examinamos, na forma que te aprouver como definitiva, no Recanto das Letras, que o retirarei para os meus "arquivos implacáveis".

Ontem, falei longamente com a Viviane Marconato, também com a Flaiane Koester, que me pareceu muito inteligente, mas não tão sensível ao novo quanto o teu espírito e inteligência. Mas de pronto vi que tem um bom texto e parece que gosta de ler. Dona de palavra fácil, inteligente, busca o seu espaço como mulher plena de juventude e de futuros.

Procura saber de Flaiane, que tem a tua idade, o que ela sentiu do papo sobre a poesia materializada no seu poema... Será que fui muito fundo com as duas?

Viviane estava muito ansiosa e apreensiva, com temor da análise que faríamos, quando do começo de nossa prosa. Parece-me que aos poucos foi assimilando o que lhe dizia.

Gostei muito de te conhecer e antevi o futuro com o reconhecimento público de teu talento, em Poesia. Persevera... Procura ler muito e – te  peço – acaba com este sofisma de autoridade de estares malucamente publicando em inglês em jornais de plena mediania, porque destinados a iniciantes. Queres organizar a mediania contra a tua obra e contra a tua pessoa? Entras, com este proceder, na fogueira das vaidades com plumas e paetês ou viadagens... (Rsss!)

O que podes esperar de um país em que se lê 0,7 livros/ano por habitante? Mesmo que aqui tenhamos quase o dobro da média nacional. Aqui neste amado Rio Grande se lê apenas 1,3 livros/ano por habitante, a melhor média em estado-membro da federação. Sabias?
Peço restrinjas o uso de títulos em latim. Sê avaro e cuidadoso no uso de epígrafes encimando os poemas na velha língua-mãe do idioma português. Reserva estas experienciazinhas para a publicação em revistas literárias de circulação nacional, OK?

Fico encantado com qualquer pessoa que trabalha bem a palavra no processo de criação, principalmente os iniciantes.  Estou te tratando com o zelo que se dispensa a um filho ou a um jovem amigo, com carinho, muito perto do coração. Ah, estes estigmas da paternidade responsável!

Não sei se ajo bem contigo, mas peço que não me leves a mal, e que por antecipação me perdoes, acaso não te agrade este proceder.

Tu és preciosa pedra que se necessita burilar, polir. Talvez eu seja um cinzel que estava sem utilização, no momento, e a pedrinha passou tão descuidada, que o analista chegou com sua afiada navalha de amor entre pálpebras e futuros.

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/151975
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 07/05/2006
Reeditado em 22/05/2008
Código do texto: T151975
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709630 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 12:33)
Joaquim Moncks