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Carta a um Amapaense

Caro Amigo:

Antes de mais nada, quero lhe dizer que você foi bastante generoso no seu depoimento a meu respeito. Na realidade, ter a sua amizade é pra mim um diferencial. A sua estima é, sem dúvida, um dos melhores presentes que aquelas tardes e noites na UFPE me proporcionaram. Neste momento que lhe escrevo estou tomado de uma certeza, aliás, duas: a primeira é a de que estamos vivendo dias difíceis, sobretudo para os românticos. Interessante isso. Os românticos, como os poetas, são pessoas mais suscetíveis à beleza de uma flor, à melodia de uma música e a um pôr de sol. Sempre achei mais interessante conversar com românticos. Mas, coisas destes dias, são justamente estes seres mais sensíveis que, por falta de objetividade ou por divagação excessiva –  características inadmissíveis à lógica econômica  que vigora – têm sofrido mais. Sofrem, entre outras coisas, por falta de um emprego decente que faça presente o sentimento de dignidade e cidadania que lhes roubam. Nós conhecemos casos. A segunda certeza que me toma é a de que não dá pra ser feliz vendo as pessoas que nós temos afeto, infelizes. Seria, se existe, o ponto mais alto do egoísmo. Já se disse por aí que um dos melhores lugares do mundo é aquele onde nós “tocamos” nossa vida decentemente. Por essa forma, não tenha dúvida, você está em um dos melhores lugares do mundo. Lembro do nosso ministro da cultura cantando “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Você e eu sabemos que o aqui e agora é o melhor lugar do mundo, pois, por mais, por exemplo, que eu quisesse estar agora na Espanha, em uma daquelas praças centrais das cidades espanholas, tomando uma garrafa de vinho, eu não estou. Estou em um bairro da cidade do Recife, no meu lar, sentado, escrevendo  minhas impressões de agora pra você.
Mas, você poderia me perguntar, por que tanta divagação? Que história é essa de romântico que vê a banda passar quando é pra acompanhá-la? A história já é repisada pra nós: o nosso amigo em comum, o nosso Lima Barreto. Ele esteve aqui há pouco – antes que esqueça: pediu que lhe enviasse um grande abraço – contando-me das dificuldades que tem vivido. O nosso Lima Barreto é, Magão, definitivamente, um romântico. E aí não vai, nessa minha afirmação, nenhuma interpretação desagradável em ele sê-lo. Porém, como disse antes, os românticos nestes dias têm sofrido mais. Revelo-lhe uma coisa: não conte a ninguém, mais eu já quis ser Deus por apenas cinco segundos. Quantas coisas, em cinco segundos, sendo eu Deus eu modificaria! Talvez eu inverteria a cruel ordem que hora vigora, onde há nobres percorrendo longos caminhos à pé, e homens rudes montados em esplendorosos cavalos. Será que a cegueira branca que Saramago descreve no Ensaio Sobre a Cegueira está se realizando? Na epigrafe do livro há a seguinte frase “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Como quero, magão, que consigamos além de ver, reparar.  Torço por você, por nossos amigos(as), pelas coisas bonitas, pelas mulheres bonitas e pelo Brasil. Será que vai dar Brasil na Copa deste ano?
Abraço, irmão.
Alexandre Valdevino.

Maio de 2006
Alexandre Valdevino
Enviado por Alexandre Valdevino em 13/05/2006
Reeditado em 22/07/2012
Código do texto: T155223
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alexandre Valdevino
Recife - Pernambuco - Brasil, 44 anos
12 textos (10355 leituras)
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Alexandre Valdevino