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Cicatrizes

Quebro o galho da tua árvore com as minhas palavras.
Rasgo o fruto do teu orgulho e desmancho-te o olhar num lago imerso. Dói! Eu sei!
Palavras pálidas, algo cortantes, dirias tu!
Mas são nuas e puras, apesar de não tão concretas quanto precisas para que te seja possível entender-me.
Rude eu? Não! Talvez mais franca do que a realidade nos espera
Mais honesta que a sociedade que vive das suas próprias mentiras
Mais avessa que esta gente que mente e foge todos os dias ao que sente.
Sempre fui rabina, tu sabes melhor que ninguém, torcida, teimosa, do contra tantas vezes... Desde pequena já sabia a volta que havia de dar ao mundo, e sabia-lo redondo, os vértices eram o teu ponto de vista e o teu mundo quadrado ficava aquém do meu limado.
São estas as diferenças que nos marcam o destino, que ora nos unem ora nos afastam.
São as feridas por cicatrizar, as crostas, as cicatrizes que nos distinguem melhor do que nunca.
As minhas são grandes, algumas jamais saram...Mas não me deixo envolver pelo desespero de marcas, porque estas são os meus rastos, as minhas essências, o meu passado, o meu trilho ou se preferires o meu destino, por isso aceito-as a cada uma, como se tivessem vida, dou-lhe nome, dou-lhe uma história para que se possam partilhar e aceitar entre si.
Como disse, somos tão diferentes... Tu vês o céu azul, eu vejo-lhe tantas cores, tu generalizas as flores, eu sei quais delas são petunias, margaridas ou brincos de princesa, sinto-lhes o cheiro.
Tu achas que o mundo é igual a outros mundos, eu acho que os nossos mundos são distintos.
Mas tudo isto é uma espécie de bálsamo, para que acordes e vejas como os meus jardins têm cor.
Gosto de ti, sabes? Amo cada nó que trazes na garganta, apesar das tentativas infrutíferas de os desatar, desejo cada veia que tens com a mesma intensidade com que consomes cada linha minha.
Gosto de ti, sabes? Pela perspectiva, pela forma com me delicias os olhos, e me misturas os papeis.
Pelas trocas, pelo lado atrapalhado, pelos efeitos de nostalgia que me trazes. Pelos sonhos, pelas cicatrizes que me deixaste no coração, pelas manchas de alegria com que me pintas noite e dia.
Gosto de ti, sabes? Gosto pelo simples facto de a tua existência ser plena, mesmo quando o teu universo passa bem ao lado do meu, mas não se vêm.
Amo cada gesto, cada palavra, cada olhar mais intenso que o outro.
E o que Amo mais é não precisarmos de falar, gritar ou ter meios de comunicação sociais...Um olhar desmancha-se num outro olhar, e são como dois rios que se fundem na mesma foz.
Rasgo-te em lágrimas, retorço o teu orgulho.
Somente para que me oiças, compreendas e me deixes ficar sempre assim, num silêncio absoluto, que só tu conheces, mesmo em mundos paralelos, aconchegada em ti, como um animal que precisa de outro!
E termino em palavras meigas, para que os teus olhos, não sejam rasurados, mas sim abertos e plenos para a visão da mesma estrela que eu!
   
   
 
 
   
   
         
Joana Sousa Freitas
Enviado por Joana Sousa Freitas em 13/05/2006
Código do texto: T155303
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Sobre a autora
Joana Sousa Freitas
Portugal, 40 anos
118 textos (7240 leituras)
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Joana Sousa Freitas