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"ARTE" e "VINGANÇA" - (Resposta a um amigo da adolescência).

Wilton, grande abraço.

Deliciosa; uma beleza sua crônica de aniversário.
Com esse espírito dos 60 e poucos, você vai achar que comemorar os 96 anos, como meu avô chegou a comemorar, não vai ser tão ruim. rs. - basta não se olhar no espelho com muita frequência para não estragar sua beleza. rs.

As vezes tenho vivenciado essas situações que você descreve, de pedir o que não tem no restaurante e acho trágico-cômica a situação, em se tratando de restaurante metido a chez-nous. Quando o garçon é bronco a situação fica mais gozada ainda, do tipo boi Tucuna que você menciona, tucunaré, carne vermelha, sei...rs. De garçon mala e bestunto, já estou vacinado, e pelo pedir o que não tem na casa, já me vinguei.

Em julho/05 estive em Mucugê, cidade que, dos coronéis do diamante, depois de um período longo de decadência, hoje prospera com a agricultura de grãos, batatinha, café e outros alhos, e é habitada por gente das lavouras, funcionários públicos, professores, estudantes, pessoal da área de saúde (posto de saúde atende à região) e outros serviços - técnicos para suporte à agricultura - e pequenos comerciantes.

Pelo clima (tenho saudade dos invernos severos de Andradina), pela beleza da topografia, pela paz de uma Chapada Diamantina que andou perdida no tempo, a Cidade tem atraído alguns europeus; E dentre eles chega um arquiteto português que instala um restaurante reputado como o melhor da cidade, no Centro Histórico, em um sobradão colonial recuperado e conservado sob a orientação de órgão do Patrimônio Histórico.

Ficou mesmo excelente - interior e decoração, prédio bom. Ele e a mulher (ela autóctone rs) à frente do negócio, cozinha internacional, boas bebidas, bom serviço. MAS.... o fechou para a cidade... treliças na entrada... E O PIOR... "esse povo não merece restaurante, como o meu".  VIVERIA das excursões e da "nata" da sociedade local, via antipatia e preços altos.

Daí a "ARTE" e a "VINGANÇA".rs.:
Combinamos dar uma lição no português (ah!...redundância e tradição. rs). Seria um jantar especial, como foi, uma comemoração nossa, e que não pediríamos a la carte.
Pediríamos várias coisas que o restaurante não teria (assim supúnhamos), de caviar a champanhe francês, strogonoffs (Ela - Oh! mas sem páprica - never!), aqueles pratos franceses à base do shitake, que eu nem sei os nomes, vinhos italianos, franceses (Liebfraumilch, argentinos, chilenos, nem pensar! rs...).
E assim fizemos.

O garçon pulou fora na primeira investida. Veio a esposa do portuga, que se atrapalhou. Em seguida, o pomposo veio para manter a honra da casa. E suou... e suou... Por fim, " - já que nesse restaurante não tem nada, sugira algo bom para se jantar, que já perdemos muito tempo por aqui".

E jantamos muito bem: na entrada uma sopa de aspargos (Ela - as torradas deviam estar mais tostadas. rs.), depois um filé mignon alto, molho madeira, champignons, regado a Periquita. Na sobremesa um pudim de leite delicioso. O café, concordamos que fosse acompanhado por uns biscoitinhos portugueses, que não distoaram do Amaretto dell Orso.

E com essa "ARTE", passei uns 3 dias sem recorrer ao fome-zero e saí alegre, pelo vinho, pela brincadeira, pelo jogo, pela companhia, e por ter lavado a honra do neto do maestro e compositor (músicas resgatadas pela UFba. e em estudo na Usp ) que enricou, empobreceu, enricou, empobreceu ... com as flutuações do diamante.

Ele não concordaria com a arrogância do português. Foi homem simples, bravo e sério, não se submetendo aos coronéis da Chapada. Por isso armado - para cada garimpeiro, meia-praça como chamava, uma bateia e uma boa arma. Com dinamite (utilizada para o desmonte de pedras - corte de fogo na linguagem do garimpo), fuzis, repetições papo-amarelo e clavinotes - dizem que eram de 50 a 70 nos bons tempos - meu avô foi precursor da campanha do desarmamento no Brasil, rs,- até que Getúlio Vargas, na década de 30, desarmasse os Sertões. Teve atuação importante na única derrota da Coluna Prestes no seu périplo de 20.000 km, impedindo que um braço de 300 homens da coluna  entrasse na Cidade (Fogo de Mucugê, como foi denominado aquele entrevero, uma página que tingiu de vermelho o Rio Paraguaçu, como foi contado pela História.).

Ah! meu amigo, como se sofre nessa vida. Se brincarmos, passamos fome! rs.

Um grande abraço, desejando longevidade lúcida (sua ortomolecular vai ajudar muito), saúde e paz. Admiro muito o seu amor pela nossa Andradina.
Marco Bastos
Enviado por Marco Bastos em 21/05/2006
Reeditado em 28/12/2014
Código do texto: T160388
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marco Bastos
Salvador - Bahia - Brasil, 72 anos
1717 textos (87479 leituras)
2 áudios (495 audições)
1 e-livros (791 leituras)
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